Crítica | Game of Thrones – Um Guia Pop-Up de Westeros, de Matthew Reinhart e Michael Kommarck

O universo ficcional de George Martin é composto por um enorme espaço geográfico chamado de Westeros. Retratado em livros de História, crítica literária, análise de produções da mídia, gastronomia e Filosofia, o espaço onde Jon Snow, Daenerys Targaryen,  Cersei Lannister, Euron Greyjoy, dentre outros, também já foi tema para publicações no estilo pop-up, modelo veiculado em formato 3D, construído com dobraduras, tridimensional, dependente de elementos da Arquitetura, tais como altura, profundidade e largura, somados aos textos que legendam os elementos visuais que pulam diante do leitor.

Diferente do que muito se imagina, a modelagem pop-up não é material exclusivo do público juvenil, tampouco é uma invenção pós-moderna, ao contrário, é tão antigo quanto os acontecimentos medievais que inspiraram a guerra dos tronos, isto é, a Guerra das Rosas. Elaborado por meio da engenharia de papel, segmento da área de design que trabalha com dobras, vincos, cortes, etc. Datados do século XIII, alguns estudos indicam que Ramon Llull foi um dos precursores, ao lançar seus volvelles, círculos móveis de tamanhos diferentes com informações divididas em categorias, utilizados para ilustrar livros impressos e manuscritos até o século XVIII.

Essas publicações continham estudos sobre astronomia, ciências naturais e medicina, focados na engenharia de papel para transmissão dos conteúdos complexos que pretendiam ensinar por vias, digamos, mais didáticas. Os mecanismos life-of-flat, oriundos do século XIV, utilizados por estudiosos de anatomia, permitiam a presença de abas que em seu processo articulatório, entregavam ao leitor imagens ilustradas do interior do corpo humano. Stacey Grinaldi, por volta de 1820, começou a veicular publicações para o público infantil, o que veiculou também posteriormente o Peep Show, cartões com camadas de uma mesma ilustração coladas entre si para criar a ilusão de profundidade.

Sendo assim, diversos modelos criaram as bases do que conhecemos como pop-up atualmente. Tal digressão, caro leitor, faz-se importante para darmos a devida relevância ao material desenvolvido em volta da premiada, impactante e famosa série da HBO, tema da reflexão em questão. Em Game of Thrones – Um Guia Pop-Up de Westeros, edição luxuosa produzida na Tailândia e lançada no Brasil pela Panini Books, a cada página que adentramos, a sensação é de estarmos diante do projeto gráfico da abertura da série, um conjunto de engrenagens mecânicas e alavancas que representam, por meio de um estilo artístico semelhante ao legado de Leonardo Da Vinci, cada reino deste continente tomado por conflitos bélicos em torno do trono de ferro, mixagem de conflitos essencialmente humanos em torno de suas qualidades mais complexas, tais como a inveja, a avareza, o desejo cego por poder e a tênue e “aneurística” relação entre o amor e o ódio.

A primeira seção é sobre Porto Real. Capital dos Sete Reinos, espaço que mescla “riqueza fabulosa” e “imundície terrível”. Entre a Fortaleza Vermelha e a favela conhecida como Baixada das Pulgas, o lugar é ponto de Cersei Lannister, um dos personagens mais articulados do espaço. O segundo momento é o Ninho da Águia, local considerado inviolável, graças ao seu posicionamento elevado. No trecho sobre Winterfell, o destaque é a Árvore-Coração do Bosque-Sagrado, área verdejante de adoração aos antigos deuses. Há também um excelente desenvolvimento para as grandiosas paredes de pedra de Winterfell, fortaleza da Casa Stark.

Construída há cerca de oito mil anos, a Grande Muralha é o local da Patrulha da Noite e dos Selvagens, personagens fundamentais em muitas batalhas. Foi criada para impedir a passagem dos Caminhantes Brancos e sua invasão nos Sete Reinos. Cada passagem é um deslumbre e o continente de Essos fecha com chave de ouro, depois dos magníficos projetos das páginas anteriores. Local com variedade cultural imensa, o continente é conhecido por ser a antiga Casa Targaryen e abrigar as Cidades Livres.

Sem questões filosóficas ou literárias versadas por meio de longos textos impressos, o guia traz um excelente trabalho de junção da tríade visual-manual-tátil, conjunto que permite uma experiencia literária sensorial com grande potencial pedagógico. No processo de interação, somos colocados como atores do livro, caminhantes desta jornada de muralhas, castelos e ilhas geograficamente desafiadoras. Também conhecido como livro-vivo, livro-surpresa, livro-animado, livro-móvel e livro em movimento, a nomeação do seu gênero enquanto literatura designa “pular para frente” em inglês.

De fato, o projeto elaborado por Matthew Reinhart, ilustrado por Michael Kommarck,  é um salto para frente no campo das publicações desse tipo. Com cinco páginas duplas não numeradas, ilustradas por cenários que conhecemos nas “crônicas de gelo e fogo”, Game of Thrones – Um Guia Pop-Up de Westeros se desdobra em 30 pop-ups, formadora de um mapa com 116 centímetros de comprimento e 76 de largura, tendo como destaque a possibilidade de abrir-se totalmente, como uma maquete. Um belíssimo trabalho gráfico, fruto de mentes geniais e muito planejamento artístico. A sua capa dura no formato retrato dá um tom elegante ao livro, impresso em papel fosco, com toques de verniz localizado e presença majoritária de cores frias e tons escuros, bem ao estilo da série que se inspira.

Game of Thrones – Um Guia Pop-Up de Westeros (Game of Thrones Pop-Up/Estados Unidos, 2015)
Autor: Matthew Reinhart, Michael Kommarck
Editora no Brasil: Panini Books
Tradução: Tatiana Yoshizumi
Páginas: 5

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.