Crítica | Garotas Selvagens

Garotas Selvagens é uma experiência suja. O elenco segue a mesma linha de Segundas Intenções, mescla de atores da nova geração, isto é, as promessas do final dos anos 1990, com veteranos em plena ação, de carreira estabelecida. Na trama, supostas amigas trocam trapaças, o professor seduz a aluna, que se deixa ser seduzida, mas na verdade é quem não tem escrúpulos por tornar a vida da mãe um caos, mulher que por sua vez, não pode reclamar, pois não dá exemplo e leva um homem diferente para cama a cada dia. Investigados por autoridades de índole duvidosa, todos os personagens são suspeitos nesta trama que eleva o whodunit aos extremos.

Nos primeiros momentos é até divertido, envolve depois causa repulsa, para mais adiante, nos prender novamente, mas o resultado geral é a catástrofe, haja vista esse tipo de narrativa ter adentrado numa zona de decadência na época do lançamento da produção, 1998, era pós-noir, neo-noir, dentre outras variações. Se Garotas Selvagens faz parte de algo, acredite, é da cultura do excesso. Com direção de John McNaughton, cineasta guiado pelo roteiro de Stephen Peters, a trama flerta com uma montanha-russa de reviravoltas, capazes de embrulhar o estomago das pessoas intelectualmente mais sensíveis aos aspectos dramáticos e estéticos de um filme.

No filme, Sam Lombardo (Matt Dillon) é um orientador vocacional que exala masculinidade tóxica e constantemente exibe o seu peitoral definido para o público. As imagens não deixam de ser bonitas de se ver, afinal, o ator estava em plena forma, mas em determinado momento cansa. Sigamos. Certo dia, Kelly (Denise Richards), uma rica e mimada jovem espevitada da escola, filha de família influente, acusa o orientador de a ter estuprado. Será verdade? Ele deu o primeiro passo ou ela se ofereceu antes? Que tipo de roupa ela usava? O que de fato aconteceu? Ela mentiu? Ele enganou bem? São tantas perguntas, prévia das reviravoltas posteriores.

Para piorar a situação de Lombardo, homem que terá de pedir ajuda ao advogado interpretado por Bill Murray, outra estudante o acusa de estupro. Suzie (Neve Campbell), jovem desbocada, constantemente drogada, arquétipo básico da “vítima do sistema”. Tudo nos indica que a vida do orientador vai se tornar um inferno, mesmo que haja no ar um leve cheiro de ponto de virada, algo que se comprova na sequência dramática seguinte. Depois de pressionada no tribunal, Suzie revela que o abuso nunca aconteceu e que tudo foi planejado por ela e pela outra “garota selvagem” do título. Investigadas cotidianamente pelo curioso e atrapalhado Ray Duquette (Kevin Bacon), elas não conseguem dar um passo sem que o detetive não esteja em seus respectivos encalços.

Desconfia-se que Kelly tenha fabricado a situação para extorquir dinheiro de sua mãe (Theresa Russell), e assim, ficar cheia da grana ao lado de Sam Lombardo. Será possível? É também de se desconfiar que Suzie esteja nos planos. Nada é correto nesta narrativa de idas e vindas frenéticas, principalmente quando o jogo começa a embolar e um personagem precisa destruir o outro para sair em vantagem. O nível de reviravoltas é tão grande e de complicada organização que começamos a desconfiar de tudo, até dos eventos naturais. Se um personagem está perto de uma janela, ficamos atentos para um possível tiro, flechada, machadada ou intrusão de um psicopata mascarado em cena. Tudo se torna insano demais. Cada canto do quadro se torna uma procura pela próxima reviravolta, algo que acaba estragando o potencial desenvolvimento dos personagens e da própria história, mais preocupada em chocar que se estabelecer enquanto narrativa.

Ademais, os elementos que compõem a sua estética cumprem industrialmente o seu trabalho, isto é, não vão além dos requisitos básicos enlatados, já comum na seara audiovisual, numa direção de fotografia pouco inspirada, assinada por Jeffrey L. Kimbell, constantemente preocupado em não perder um instante sequer dos fartos seios de Denise Richards à mostra, por sinal, momentos em demasia. Os figurinos ou a falta deles, assinados por Kimberly A. Tillman, são óbvios, mas adequados aos personagens, criam a dupla antagônica nos aspectos visuais, sendo Kelly a “patricinha sapeca” e Suzie a “gótica vadia”, com a cara cheia de maquiagem e tons escurecidos em seus lábios, num estereótipo da roqueira.

O design de produção de Edward T. McAvoy não incomoda, mas também não traz nada que seja um destaque memorável. Assim, ao longo de seus 113 minutos, o diretor e seu roteirista não cansam de brincar com os espectadores e ainda inserem um amontoado de reviravoltas durante os créditos de encerramento, reforçando alguns detalhes, explicando pormenores suprimidos pela necessária elipse ao longo do filme, num jogo de informações excessivas numa trama já excessiva, com desempenhos dramáticos excessivos e história excessivamente cansativa. Espero ter conseguido expressar como é excessiva a experiência de ser espectador de Garotas Selvagens. É excesso que não acaba, acredita, caro leitor?

Garotas Selvagens (Wild Things/Estados Unidos, 1998)
Direção: John McNaughton
Roteiro: Stephen Peters
Elenco: Bill Murray, Daphne Rubin-Vega, Denise Richards, Kevin Bacon, Matt Dillon, Neve Campbell, Robert Wagner, Theresa Russell
Duração: 113 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.