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Crítica | Garrincha: A Alegria do Povo

por Michel Gutwilen
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A cultura do futebol brasileiro passa por uma dualidade. Afinal, por um lado, todo grande jogador brasileiro — Pelé, Zico, Sócrates, Rivelino, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Neymar e, claro, Garrincha, etc. — possui uma relação impessoal de idolatria. Tratam-se de figuras simbólicas que se solidificam no imaginário popular menos como seres humanos e mais como verdadeiras divindades que, ao invés de asas, possuem chuteiras. Ao mesmo tempo, há uma crença popular na mente de cada jovem que revela uma aproximação diante desses jogadores. Afinal, toda criança sonha em ser o novo Pelé, Garrincha, Neymar etc. É aí que existe o casamento do sonho afastado com a natureza democratizante (e, consequentemente, política) do futebol, o esporte que possibilita que “meninos sonhem em serem Deuses”. 

Basta uma bola (ou até um meião) e dois chinelos para ressignificar qualquer espaço público em uma verdadeira arena futebolística imaginária. Ou seja, prodígios podem surgir em qualquer lugar — o desenvolvimento deles, contudo, é uma questão bem mais complexa — e essa é a história por trás de muitos desses nomes que foram citados acima. Na maioria, tratam-se de meninos de classes econômicas inferiores que usaram o esporte como trampolim para uma ascensão social de classes, saindo da condição de “João Ninguém” para se tornarem ídolos de uma nação. Esta é a principal dialética do documentário Garrincha: Alegria do Povo, que se aprofunda na observação documental de um desses “deuses humanos” do futebol, mas, como seu próprio título indica, não se trata apenas de Garrincha visto isoladamente, mas sempre a partir de sua relação com o povo. 

Toda a primeira meia hora é muito competente ao atuar em diversas frentes ao mesmo tempo. Por um lado, o diretor Joaquim Pedro de Andrade se mostra interessado pelas múltiplas camadas da figura de Garrincha. Há o olho para sua atuação enquanto um verdadeiro artista com a bola nos pés, explorando imagens de arquivo do jogador em campo realizando dribles e gols, sempre com uma montagem e trilha sonora que fazem daquela sequência de pés dançando com a bola um verdadeiro samba brasileiro. Por outro lado, também há muito foco na dialética entre a figura mitológica idealizada do jogador e o ser humano comum inserido dentro do povo. Neste sentido, a inserção das sequências dele andando na rua, como mais um no meio da multidão e realizando tarefas banais, assim como aquelas que investigam sua relação com sua cidade natal, na qual ele joga futebol na várzea, são muito boas em desmistificar o astro em cidadão inserido na sociedade. 

Uma outra frente do documentário é que se este é evidentemente sobre Garrincha (seja mito ou humano), ele também busca fazer toda uma radiografia do povo brasileiro daquela época e seus gestos. Garrincha com seu futebol é o símbolo do povo voltado para a ousadia e felicidade, do brasileiro malandro que samba e não gosta de seguir exatamente regras rígidas, preferindo a improvisação. Igualmente, o foco em seu passado de cidade pequena e como trabalhador de fábrica também vão de encontro a mostrar como é possível a realização do sonho de todo jovem, que é o de ter uma ascensão social através do futebol, além de denunciar a desigualdade econômica, principalmente quando aborda a diferença salarial entre Garrincha e seus amigos de infância trabalhadores fabris. Inclusive, as sequências de futebol sendo jogado nas praias reverberam muito bem este DNA brasileiro voltado para o futebol, de que em toda quadra amadora pode haver um possível Garrincha a espera de ser descoberto. Além disso, aborda-se o papel da superstição no imaginário cultural, com as reportagens de jornais que mostram a realização de vários rituais cotidianos de pessoas que acreditam que darão sorte para o Brasil na Copa do Mundo. Já mais para o fim, aponta-se para o uso do futebol como ferramenta política, com o diretor trazendo imagens de arquivo que parecem carregadas de uma sensação de mal-estar, ao mostrar os encontros dos jogadores com engravatados, após a apresentação do Brasil na Copa. 

Com o fim desta primeira meia hora mais criativa, há uma longa sequência que mostra lances de Garrincha na Copa do Mundo e a trajetória geral do Brasil, através de uma narração expositiva de Andrade, transformando o meio do filme um tanto quanto engessado em uma abordagem de documentário direto, apenas jornalístico, que não busca criar nada artisticamente, mas alguém mais generoso poderia argumentar que elas ajudam a sedimentar, através de imagens, o verdadeiro valor futebolístico de Garrincha e sua importância dentro da história brasileira. Afinal, que forma mais eficiente de provar empiricamente um grande jogador através de seus lances? No mesmo sentido, é também a Copa do Mundo que serve como ponte para explorar a relação do futebol com o povo brasileiro, e mostrar como o futebol pode servir tanto para influenciar no sentimento geral de euforia ou de desânimo de uma nação. Assim, no terço final do filme, a intervenção artística de Joaquim Pedro e da montagem voltam a ficar mais ativas, pois voltam a explorar a relação entre espectador e o esporte. Em uma tentativa de investigação sociológica do seu impacto na vida da sociedade, as especulações verbais de Andrade se complementam com uma montagem de diversos rostos dos espectadores na arquibancada, com expressões que carregam tanto a euforia de uma vitória quanto a apatia de uma derrota. 

Inclusive, quanto a exploração da derrota, há méritos de direção em juntar imagens que reverberam a indignação coletiva e a ressaca moral que verdadeiramente são como um segmento de terror a parte do resto da narrativa narrativa, captando este sentimento de que, para um torcedor apaixonado, a derrota de seu time é como o fim do mundo e a total desesperança quanto ao resto de sua vida. Contudo, a maneira como Joaquim Pedro fecha o filme é genial: no futebol, a dor da derrota dura apenas passageiramente até a proximidade do início de uma nova partida, na qual a esperança da vitória volta a existir e move novamente esses espectadores para o estádio, indicando o caráter cíclico desta relação. No fim, o choro passa e novamente o espaço para a cantoria rumo aos estádios volta a contagiar, porque o sonho da glória nunca morre no futebol.

Garrincha: A Alegria do Povo (Brasil, 1962) — Brasil
Direção: Joaquim Pedro de Andrade
Roteiro: Luiz Carlos Barreto, Joaquim Pedro de Andrade, Mário Carneiro, Armando Nogueira, David Neves
Elenco: Garrincha, Heron Domingues
Duração: 60 mins

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