Crítica | Gattaca – Experiência Genética

Futuros desastrosos são preocupantes. Acredito que a maioria das pessoas teme colapsos naturais, biológicos, epidemias virais, superbactérias incontroláveis e por aí vai. É por isso que as famosas “distopias” vendem tanto – porque em sua própria definição, distopias são ficções que trabalham especificamente o medo de nossas conjecturas mais pessimistas se tornarem realidade. E se nós estivermos mesmo em um ponto incontornável de degradação ambiental? E se a evolução da inteligência artificial for mesmo incontrolável, fazendo com que os seres humanos se tornem fatalmente obsoletos?

Gattaca – A Experiência Genética tem algumas coisas a adicionar a essa discussão. Seu protagonista é Vincent, um homem adulto nascido de gestação natural numa época em que muitas pessoas são concebidas por vias de interferência tecnológica, de maneira a selecionar os melhores genes de cada progenitor e, finalmente, criar um ser humano supostamente blindado contra defeitos genéticos. Como o exemplo do próprio Vincent sugere, e de outros personagens da trama também, existem exceções a essa tendência e, embora caiba ao resenhista supor, há na certa algum tipo de restrição ao acesso à essa tecnologia. Uma restrição financeira? É inferência lógica que, no entanto, pode ser questionada.

Algumas implicações dessa situação logo são apresentadas como consequências do principal desejo de Vincent: ele quer ir ao espaço, mas para isso, deve se infiltrar disfarçado numa agência espacial que seleciona somente indivíduos geneticamente “adequados”. Eu não diria, porém, que a trama e o arco de Vincent pretendem tratar propriamente dos problemas essenciais da civilização concebida para o filme. É principalmente uma história de superação, sobre como somos capazes de nos sobrepor às condições naturais e sociais para cumprir nossos sonhos e objetivos. O que necessariamente levanta a dúvida: será que somos mesmo?

De certa maneira, o roteiro pode ser interpretado de um modo que o favorece, no qual se argumenta que o filme levanta um questionamento razoável sobre as barreiras impostas pela “ciência”, usando como baluarte as nossas características biológicas. Nada de novo no front, certo? Há pouco mais de um século boa parte da comunidade intelectual garantia que algo na composição fisiológica de pessoas negras incitava inclinações para a servidão, fazendo da escravidão uma mera questão biológica e inevitável. Aposto que todo mundo lembra da famosa cena com Leonardo DiCaprio em Django Livre, em que seu personagem segura o crânio de um escravizado e repete essa mesma linha de raciocínio, a qual gosto de acreditar ser ultrapassada.

Bons argumentos podem ser levantados a favor dessa interpretação em Gattaca, principalmente no caso do bem desenvolvido paralelo entre Vincent e seu irmão. Nesse exemplo, está a comparação que o filme precisava para ressaltar um de seus principais temas: não precisamos, em definitivo, prender a multiplicidade do espírito humano àquilo que nos é presumidamente “natural”. Se todos os elementos do roteiro convergissem para essa definição, ele conseguiria fugir completamente de uma abordagem canastrona e piegas. Ele consegue, mas apenas em parte, e aqui está o porquê: a nova evolução tecnocientífica, em especial a biogenética, é um dos principais antagonismos da nossa época. Caso um futuro como o de Gattaca se concretize, conviveremos a partir de agora, ou muito em breve, com a possibilidade da criação de um novo homem, no seu sentido literal biológico, e com a quebra da herança comum biogenética da humanidade. Em Gattaca, nós vemos o estopim desse antagonismo – no entanto, o admiramos em sua forma incompleta, como que com a visão tapada por uma peneira, sendo forçados a procurá-lo entre os furos. Ou então tentando espiá-lo aos lados, impossibilitados pela presença de antolhos. A escolha do roteiro de se passar em apenas três ou quatro locais não é por pura convenção, ou por limitações de duração e coisa do tipo, e sim a característica essencial que permite que o filme possa ser do jeito que é.

Nesse futuro, Vincent trabalha numa empresa (a tal da Gattaca) que preserva a mesma estrutura hierárquica e financeira que vemos nas multinacionais dos tempos atuais, apenas com critérios diferentes. O que significa irremediavelmente o seguinte: nesse universo, o capitalismo conseguiu sobreviver intacto a uma de suas principais contradições. Ou você duvida que a divisão das pessoas entre quem consegue ou não acessar a evolução genética é uma consequência imediata da desigualdade social? Se o diretor (e roteirista) sequer ousasse explorar as áreas que cercam a empresa Gattaca ou a casa do yuppi engomadinho interpretado por Jude Law, ele teria que conceber um filme completamente diferente. Como o Estado lidaria com esse novo elemento da vida social sem interferir diretamente nas relações econômicas, que continuam incólumes nessa ficção destrambelhada? Como as pessoas que não tem acesso a essa tecnologia reagiriam a essa boa nova? Permaneceriam em uma servidão voluntária e pacífica, cientes e anuentes de sua inferioridade natural, e consequentemente social, sem qualquer sombra de revolta coletiva?

É uma distopia muito “otimista”, em um sentido burguês, é claro. Mesmo distopias com um apuro estético e narrativo muito menor do que o desse filme, a exemplo das sagas Jogos Vorazes e Divergente, apresentam as rebeliões inevitáveis de suas respectivas situações, além de mostrar a sociedade como deve ser intrinsecamente nessas circunstâncias: totalitária e violenta. Não basta mostrar que a polícia impede os “inválidos” de serem integrantes da alta hierarquia. É um filme higienizado, que não aproveita sua ótima premissa. O fato de ser escrito pelo mesmo responsável de O Preço do Amanhã diz muita coisa.

É covarde ao ponto de representar em seu protagonista uma exceção esperançosa contra o sistema, mas que nada faz além de ascender ao topo de uma hierarquia, mantendo-a intocada. Como um escravo que se torna Senhor, ou como um Judeu que é amigo de Hitler. Ele conseguiu fazer tudo que queria, então é culpa dos outros por não conseguirem, não do sistema. O que aponto como defeitos, no entanto, podem surgir como conscientes qualidades. Afinal, um futuro onde nem ao menos teremos a oportunidade de aproveitar as contradições do sistema e rompe-lo definitivamente para algo melhor é muito mais assustador do que o que as distopias tradicionais têm a oferecer.

Ironias à parte, consigo apontar para alguns momentos no filme e elogia-los. A montagem paralela no final é bem interessante, de um ponto de vista estético e visual. Entretanto, o filme e a jornada de seu protagonista não conseguem suportar comparações óbvias ao gênero em que se encaixa, e também, mais profundamente, naquilo que se propõe a fazer. Todos que já leram Admirável Mundo Novo, de Huxley, sabem como devia ter sido o destino final do protagonista, tendo em vista a semelhança estrutural da trama e dos personagens entre as duas histórias. Infelizmente, a grande interpretação de Ethan Hawke não foi contemplada com uma história da mesma grandeza.

Gattaca – A Experiência Genética (Gattaca) – USA, 1997
Roteiro: Andrew Niccol
Direção: Andrew Niccol
Elenco: Ethan Hawke, Uma Thurman, Jude Law, Alan Arkin, Gore Vidal, Xander Berkeley, Jayne Brook, Maya Rudolph, Dean Norris, Elias Koteas.
Duração: 106 minutos.

PEDRO PINHO . . . Pedro é um apreciador parcialmente incentivado, porém nada financiado, de algumas coisas que ele mesmo considera importantes. Suas intenções não são tão claras, e ao que tudo indica ele fará de tudo para impedir que sejam, tem medo que se mostrem esplêndidas ou ridículas demais, ou na pior das hipóteses que não despertem qualquer reação. As coisas que fala ou escreve revelam tanto sobre ele quanto esse texto. Minha tarefa em decifra-lo continua frustrada.