Crítica | Gêmeos – Mórbida Semelhança

Reencontrar Gêmeos – Mórbida Semelhança em minha fase adulta, após um contato antecessor sem a mesma cumplicidade que a revisita foi uma experiência cinéfila/intelectual fascinante. David Cronenberg, “cineasta das mutações”, abordou neste filme de 1988, um tema que é uma constante em toda a sua extensa e densa carreira cinematográfica: a multiplicidade de questões que envolvem a construção de identidade dos seres humanos e a profundidade psicológica de seus personagens diante das metamorfoses físicas e comportamentais que lhe acometem ao passo que evoluem dentro da dinâmica de suas vidas mergulhadas num tecido social extenso, costurado cotidianamente com inovações tecnológicas e mudanças sócio-políticas. Refletir sobre o filme, por sinal, é também reencontrar Outros Espaços, de Foucault, leitura relativamente recente, dos tempos áureos de estudos em Teoria da Literatura, experiência de meados desta década.

Concebido enquanto o filósofo se encontrava numa estadia na Tunísia em 1967, o texto em questão traça algumas considerações sobre o que o teórico refletiu sobre a heterotopia, discussão dentro do campo da geografia humana. Sem a possibilidade de ter a sua complexidade observada de maneira imediata, a heterotopia deflagra espaços com múltiplas camadas de interpretação. Situados no espaço da alteridade, não palpável, tal como o que se tem no espelho e o que é verdadeiramente projetado, os personagens da narrativa em questão são balizados por Cronenberg dentro de um entre lugar demarcado pelo fatídico ponto de encontro que demarcará a imprecisão entre o que um lado deseja e o que o outro permite (ou não) ao perceber que é  a fonte de retroalimentação desses anseios. Demarcado dentro dos estudos no campo das escolas de pensamento pós-moderno, o conceito alude ao processo de emergência das identidades na cena multicultural das metrópoles urbanas no agitado século XXI.

Diante do exposto, algumas das ideias refletidas por Foucault encontram ressonâncias na interpretação de Gêmeos – Mórbida Semelhança, dirigido por David Cronenberg numa época mais avançada de sua carreira mais firme que na ocasião dos filmes antecessores. Guiado pelo roteiro escrito em parceria com Norman Snider, ambos inspirados pelo livro de Bari Wood e Jack Geasland, o diretor expõe para os espectadores a trajetória de Beverly e Elliot, gêmeos que circulam de maneira brilhante pela narrativa, graças ao desempenho dramático eficiente de Jeremy Irons. Logo em sua abertura, acompanhamos uma dupla que parece ser inseparável. Se vestem e penteiam os cabelos de maneira semelhante, dentre outros comportamentos que vão da curiosidade científica ao modo como observam a realidade que os envolvem.

Desta sequência partimos para uma aula avançada na faculdade de medicina, momento de estabelecimento de suas escolhas profissionais, isto é, o âmbito da ginecologia, seguido do consultório que se torna um local de referência para tratamentos de fertilidade. Ainda adultos, eles se vestem, comunicam e circulam socialmente de maneira muito parecida. Isso é o que permite a troca de parceiras sexuais e as aparições públicas onde um se passa pelo outro, etc. O ponto de virada, muito brusco, por sinal, será a chegada de Claire Niveau (Genevieve Bujold), uma famosa atriz que decide realizar um tratamento na clínica, haja vista as questões complicadas de seu útero. Ela, tal como os gêmeos, é uma mulher que também dialoga constantemente com o seu “duplo”, pois a encenação leva e traz identidades para o seu corpo enquanto atua nos diversos filmes que fazem parte de sua carreira prestigiada.

Essa é uma escolha muito feliz do texto, pois potencializa a carga dramática e amplifica as alegorias que se desdobram num extenso painel de significados para o filme. Ao se firmar como membro central no triângulo amoro entre os irmãos, Claire Niveau se torna a responsável pela inesperada, mas inevitável ruptura que trará consequências catastróficas para todos os envolvidos nesta trama complexa sobre identidade, obsessões, desejos e paixões que levam as pessoas às últimas consequências para não sair perdendo de um jogo que deixa claro desde o começo, será prejudicial para uma das partes envolvidas. Neste caso, caso o roteiro siga as considerações científicas e do conhecimento popular sobre gêmeos, para as duas partes, como de fato ocorre no desfecho trágico e nada hollywoodiano orquestrado por David Cronenberg.

Sempre acompanhados pela pomposa trilha sonora de Howard Shore, parceiro constante do cineasta, os personagens circulam pelo filme acompanhados pelos movimentos e quadros sofisticados da direção de fotografia peculiar de Peter Suschitzky, eficiente por valorizar cada ponto do quadro, não sendo apenas mais um amontoado de imagens genéricas. Iluminado de maneira a ressaltar os dramas que envolvem cada figura repleta de necessidades dramáticas, o setor ganha maior projeção porque o design de produção de Carol Spier lhe fornece um material de qualidade soberba para filmar, dos cenários aos adereços da direção de arte, em especial, pelo feixe de cores adotados, delicadamente selecionados para a exaltação das camadas psicológicas dos temas expostos, também delineados pelos figurinos de Denise Cronenberg.

Com efeitos especiais igualmente adequados, setor gerenciado por Gordon J. Smith, Gêmeos – Mórbida Semelhança faz um trabalho de maquiagem sem a mesma carga visual das experiencias anteriores do cineasta, mais viscerais, mas não deixa a devastação física de fora da narrativa, em especial nos momentos de insanidade próximo aos atendimentos finais de um dos médicos e na cena onírica carregada de carga simbólica, quando a atriz é parte integrante de um contato sexual com os dois irmãos juntos e retira, nos dentes, o cordão umbilical que os une. Essa “mulher mutante”, impossibilitada de exercer uma de suas funções biológicas basilares, é o alvo para a ira de um dos irmãos quando as coisas começam a ficar mais complicadas.

A sensação de revolta é potencializada quando um deles busca os serviços de um artista local, Anders Wolleck (Stephen Lack), para a confecção de novos instrumentos cirúrgicos sem nenhuma função para o trabalho que exerce. É um conjunto de armas medievais para penalizar as pacientes que representam, na psique perturbada, a metonímia da mulher amada, desejada obsessivamente numa profusão de sentimentos que se confundem. Até este momento do roteiro, já sabemos que Elliot é o lado calculista, dominante, agressivo, narcisista e ameaçador da “entidade” simbolizada por esse duplo que se apresenta unificado. Beverly é o irmão mais inseguro, educado, gentil, calmo, uma espécie de sombra do lado obsessivo e mais prepotente do outro, ambos numa ilustração cabal da heterotopia de ilusão, cunhada por Foucault no texto mencionado anteriormente, uma reflexão sobre as constantes transformações dos sujeitos.

Impossibilitados de conseguir dar continuidade ao que fazem desde a infância, o momento de separação se estabelece de maneira muito urgente, principalmente quando a atriz catalisadora da ruptura demonstra interesse em Beverly, o que deixa Elliot adentrar em sua zona de degradação. Na tentativa de um destruir o outro, o lado aparentemente vencedor percebe a impossibilidade de sustentar as suas escolhas, principalmente quando a sensação de insegurança lhe toma com toda força. É hora, então, de desarmar e se entregar, num desfecho tão carregado de simbologia que ficamos inebriados com a carga de interpretações possíveis, expostas ao longo dos 116 minutos deste ponto alto da carreira de David Cronenberg, seguido de Mistérios e Paixões, lançado em 1991, outro momento de reflexão em sua carreira erguida por filmes que são eventos no campo da filosofia, psicologia, sociologia e outras áreas das “humanidades”.

Gêmeos – Mórbida Semelhança (Dead Ringers) — Canadá, 1988
Direção: David Cronenberg
Roteiro: David Cronenberg
Elenco: Jeremy Irons, Geneviève Bujold, Heidi von Palleske, Barbara Gordon, Shirley Douglas, Stephen Lack
Duração: 116 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.