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Crítica | Gente como a Gente

por Ritter Fan
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A abordagem de transtornos mentais ainda é problemática em Hollywood, mesmo considerando toda a evolução científica sobre as mais diversas questões que afetam o cotidiano de um número significativo de pessoas no mundo. Quando há foco no assunto, filmes e séries tendem ou a extrapolar as consequências para fins dramáticos, trazendo normalmente a violência a reboque e, pior, muitas vezes explicando a vilania como consequência de uma patologia ou a simplificá-la de maneira que a obra não fique pesada. Em outras palavras, de um lado o preconceito é perenizado e, de outro, a insignificância dos distúrbios é salientada, ambos os casos, claro, trazendo problemas para quem quer que sofra desses problemas.

E é principalmente por isso que Gente como a Gente é um dos raros filmes em que a forma como o cerne da narrativa é abordado é mais importante do que os demais atributos técnicos de uma análise cinematográfica. Baseado em romance de Judith Guest publicado em 1976, o roteiro do saudoso Alvin Sargent (que, em 2004, escreveria Homem-Aranha 2 e, depois, co-roteirizaria o terceiro filme e o primeiro do reboot do aracnídeo, este sendo seu último trabalho) é pura elegância em palavras. Nada de didatismo, nada de exageros, nada de representações arquetípicas dos personagens. Seu texto é, muito ao contrário, sóbrio, respeitoso e extremamente tocante no que se refere aos mencionados transtornos mentais, além de tratar com muito realismo a vida de uma família em frangalhos que tenta, mas não exatamente consegue, juntar os cacos de um momento anterior à tragédia que se abateu: a morte acidental do filho mais velho.

O foco é, principalmente, em Conrad (Timothy Hutton então com 20 anos debutando em sua carreira cinematográfica e já abocanhando o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, o que obviamente seu papel não é), o filho mais velho da família Jarrett que, sofrendo de culpa, trauma e depressão como resultado da morte do irmão, tentara suicidar-se, sendo internado em uma clínica psiquiátrica. Mas o filme não apresenta esses eventos nessa ordem e a projeção começa com o jovem já fora da clínica tentando reinserir-se na vida “normal” indo à escola, participando da equipe de natação e relutantemente iniciando sessões psiquiátricas com o compreensivo Dr. Tyrone C. Berger (Judd Hirsch), além de lidando com a pesada atmosfera doméstica, com sua mãe, Beth (Mary Tyler Moore), cada vez mais distante e seu pai, Calvin (Donald Sutherland), talvez artificialmente super-protetor.

Todo esse ecossistema de vida adolescente em um subúrbio de classe média americano está presente, mas não é determinante e não é a condição sócio-econômica de Conrad que dita seus problemas. Estes nascem a partir do evento traumático, ganhando eco em cada membro de sua família de maneiras diferentes. As “pessoas comuns” do título original em inglês (Gente como a Gente passa uma impressão de igualdade sócio-econômica entre os Jarrett e os espectadores) são literal e potencialmente todos nós e não um determinado grupo assim ou assado. Não existem barreiras ou regras para a forma como lidamos com o trauma (ou como sequer determinamos o que é trauma), para a depressão e para o sentimento de culpa e o roteiro de Sargent é muito perspicaz, inteligente e respeitoso especialmente a não entregar de bandeja as respostas e ao criar diálogos que podem parecer simples e corriqueiros – e assim eles devem ser, se pararmos para pensar! -, mas com cada linha tendo sua relevância e peso.

Aliás, as conversas entre o Dr. Berger e Conrad são particularmente brilhantes nesse sentido. Nesses momentos, Conrad transforma-se em um avatar do espectador que conta seus problemas sem nem perceber exatamente o que está fazendo e espera uma resposta, resposta essa que nunca vem, pelo menos não da maneira usual.  Judd Hirsch, em um papel desafiador que o ator tira de letra, transforma seu Dr. Berger em um farol que aponta a direção a ser tomada, mas que não pega na mão de seu paciente entregando-lhe a resposta certa. Há todo um caminho que exige desenvolvimento e que temos a oportunidade de testemunhar também do lado de fora do consultório, com Conrad amadurecendo a olhos vistos e enfrentando seus traumas.

Chega a ser impressionante que este seja o primeiro trabalho de direção de Robert Redford, ator com carreira de “galã de substância” então já largamente estabelecida com papeis em filmes como Butch CassidyMais Forte que a VingançaGolpe de Mestre e Todos os Homens do Presidente, pois seu trabalho é maduro, delicado e muito bonito. Ele reconhece a força da história e faz com que a direção de arte de Phillip Bennett e J. Michael Riva seja sempre submissa à narrativa, sem jamais chamar atenção para si mesma e sem jamais escapar de um realismo cotidiano que chega a ser até sufocante, algo inclusive representado pela arquitetura confusa da casa dos Jarrett que permite à fotografia de John Bailey abordar a vida mundana dos três de maneira inquieta, com tons pasteis e filme com granulação aparente que emulam a linguagem de documentário.

Mas o trunfo de Redford está mesmo na direção de atores. Não consigo me acostumar com Mary Tyler Moore em papel dramático e não acho Timothy Hutton um bom ator, mas, aqui, o diretor de primeira viagem faz mágica cinematográfica e extrai o melhor que os dois têm a oferecer, com trabalhos densos, complexos, discretos e, sobretudo, dolorosos. Quando o foco fica em Hirsch e Sutherland, os esforços de Redford mantem-se, mas essa outra dupla tem já mais naturalmente a força dramática necessária para seus papeis, valendo repetir o destaque para a performance de Hirsch.

Gente como a Gente é quase uma obra única que reúne relevância social por abordar assunto tabu especialmente à época e por fazê-lo de maneira tão completa, sofisticada e sutil, fugindo de obviedades, arquétipos, clichês e textos expositivos e ainda apresentando um elenco de fazer inveja. Não é nem de longe um filme fácil de ver e de digerir, mas sua importância e qualidade são indiscutíveis.

Gente como a Gente (Ordinary People, EUA – 1980)
Direção: Robert Redford
Roteiro: Alvin Sargent (baseado em romance de Judith Guest)
Elenco: Donald Sutherland, Mary Tyler Moore, Judd Hirsch, Timothy Hutton, Elizabeth McGovern, M. Emmet Walsh, Dinah Manoff, Fredric Lehne, James B. Sikking, Basil Hoffman, Quinn Redeker, Mariclare Costello, Meg Mundy, Elizabeth Hubbard, Adam Baldwin, Richard Whiting, Tim Clarke, Scott Doebler
Duração: 124 min.

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