Crítica | George Lucas Apaixonado

A paródia de Shakespeare Apaixonado que explica as inspirações de George Lucas, em 1967, para escrever a saga Star Wars está entre os filmes de fã mais inteligentes e belamente produzidos da história dos filmes de fãs, certamente figurando entre as melhores paródias da franquia que se passa em uma galáxia próxima, há dúzias de anos e que teve direito a projeção no festival de Toronto. Com apenas nove minutos e lançado no verão americano de 1999, quando o hype ao redor de Star Wars estava em erupção com o lançamento de A Ameaça Fantasma, o filmete é um triunfo de criatividade e de qualidade técnica que aquece os corações dos fãs e faz uso daquilo que hoje, infelizmente, tornou-se uma muleta cinematográfica: um caminhão de referências.

Mas, aqui, essas referências não são enfeites e sim formam a infraestrutura narrativa do curta que, assim como no filme de John Madden, lida com um bloqueio criativo do protagonista (Martin Hynes) que precisa escrever um roteiro para formar-se na faculdade e que só é ultrapassado quando ele conhece Marion (Lisa Jakub) sua musa inspiradora de penteado peculiar. Não há um fotograma aleatório na história que se cerca de rigores estilísticos dos mais óbvios, como trajar o jovem Lucas com o tipo de figurino que o tornaria famoso em fotografias, até os mais discretos como uma versão da música da cantina de Mos Eisley que escutamos muito rapidamente no início. E tudo isso levando em consideração de que se trata de uma obra de época, não podemos perder isso de vista.

Claro que algumas referências podem parecer forçadas como talvez a da dupla de jovens, um esguio de amarelo e outro baixinho que só fala em “bips” ou o treino de esgrima ao fundo que acaba com uma mão decepada, mas até esses fazem parte do jogo que Joe Nussbaum optou por jogar aqui. É aquele tipo de bobagem simpática e benigna que dá identidade a um filme. George Lucas Apaixonado é sobre inventividade e, mesmo que o mundo hoje saiba de onde muita coisa que ele criou tenha vindo de verdade dado o grau de garimpo que existe nos dois lados dessa relação, o que seu diretor e co-roteirista mostram é como compactar o máximo de citações em um espaço de tempo tão curto sem tornar o filme uma mera colcha de retalhos.

Aliás, vale lembrar que muito dessa sensação de fluidez e unicidade narrativa vem do cuidadoso trabalho de Ryan Gold na montagem, com sequências muito bem cronometradas para permitir a absorção da brincadeira e a imediata passagem para outra em uma sucessão invejável à la Monty Python. É marcadamente um filme simples, não tenham dúvida, mas um simples feito com observação das melhores técnicas de maneira muito semelhante ao excepcional TROOPS, de dois anos antes, curta com que, aliás, George Lucas Apaixonado anda de mãos dadas.

Chega a ser irônico que, quando do lançamento do DVD do curta em 2000, ele tenha – mesmo que só por um dia – vendido mais do que as cópias de A Ameaça Fantasma. Afinal, não seria completamente insano dizer que há mais criatividade e inspiração nesses nove minutos do que em toda a duração grandiloquente da saga de Jar Jar Binks.

George Lucas Apaixonado (George Lucas in Love, EUA – 1999)
Direção: Joe Nussbaum
Roteiro: Joe Nussbaum, Daniel Shere (baseado em história de Joe Nussbaum e Timothy Dowling)
Elenco: Martin Hynes, Lisa Jakub, Jason Peck, Jeff Wiens, David Young IV, Timothy Dowling, John Rafter Lee, Ben Livingston, Jeff Statzer, Patrick Kerr, Michael E. Lopez, Amy Claire, Marilyn McIntyre, Jeremy Jones
Duração: 9 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.