Crítica | Gerações: Capitã Marvel & Capitão Marvel – Os Mais Valentes

Gerações foi uma série de 10 edições únicas – ou one-shot -, cada uma com um time criativo, que a Marvel Comics publicou em seguida ao final de Império Secreto, como parte de seu relançamento debaixo do título Legado que procurou – e ainda procura – trazer as encarnações clássicas dos heróis para papeis de maior proeminência. A iniciativa em si é uma maneira de respeitar o que veio antes sem reduzir a importância dos personagens mais novos, criados a partir dos originais, ainda que ela deixe muito evidente que, hoje, super-herói novo na Marvel Comics é, basicamente, derivação de outro pré-existente, o que não é novidade, mas que tem sido cada vez mais proeminente (leiam, aqui, meus pensamentos sobre o assunto).

A Capitã Marvel (Carol Danvers, para ser mais preciso), como personagem “intermediário”, por ser derivada do Capitão Marvel, mas também por ter sido a inspiração para a nova Miss Marvel, foi a única a ganhar dois desses one-shots que têm como mote parear o novo com o antigo em histórias “atemporais” e mais românticas do que realmente importantes para alguma continuidade. Em Os Mais Valentes, a Capitã Marvel é transportada para a Zona Negativa onde ela, ao enfrentar minions do Aniquilador para salvar habitantes de um planeta, encontra-se com Mar-Vell em sua versão de cabelo branco, voando apenas com a ajuda de jatos na cintura, mas já com o uniforme clássico. Carol o reconhece, mas o Kree estranhamente não, apesar de revelar ter vivido todos os eventos que conhecemos dos quadrinhos, inclusive tendo conhecido Carol Danvers.

É Margaret Stohl, claro, quem escreve o one-shot já que ela ainda era a roteirista principal da heroína à época, e, apesar de a reunião dos dois Capitães ser sempre algo interessante, a grande verdade é que a abordagem da autora incomoda um pouco por de certa forma “destratar” Mar-Vell. É como a diferença entre o “velho e o ultrapassado”, diria. No lugar de lidar com Mar-Vell como o velho, termo que reputo como respeitoso, ela parece enquadrá-lo como ultrapassado, que de respeitoso não tem nada. Sua fala rebuscada é motivo de chacota por Carol, sua incapacidade de entender referências ou de reconhecer a heroína não faz sentido completo e diminui o personagem e, finalmente, a escolha de Stohl em retratar Mar-Vell em sua versão menos poderosa tem o efeito de colocá-lo como um coadjuvante. Não esperava que ele tomasse a frente da narrativa de jeito algum, mas uma coisa é ele dividir os holofotes com a Capitã Marvel e outra completamente diferente é ele parecer o bobo da corte.

Mas, fazendo um supremo exercício de desconsiderar esse aspecto por alguns minutos, tentarei responder à principal pergunta: mas e a história, será que ela funciona?

A resposta é… deixe-me ver… mais para o negativo do que para o positivo, só para ficar em um eufemismo. O pareamento dos dois heróis para lutar contra a ameaça do Aniquilador não consegue ir além do que ter um fim em si mesmo. É o team-up pelo team-up, sem um objetivo maior, algo que vários outros one-shots da coleção Gerações têm, normalmente apontando o caminho que o personagem menos experiente deve seguir, ou seja, deixando que a senioridade fale mais alto. No entanto, se a premissa da coleção é mais facilmente exequível nas demais situações, aqui ela encontra a barreira no fato inescapável de que os dois capitães são muito experientes, o que talvez tivesse que ter levado à conclusão de que essa reunião não fazia lá muito sentido. Portanto, o problema de Os Mais Valentes não é exatamente o trabalho de Stohl, mas sim a dificuldade de se colocar a premissa em funcionamento diante das circunstâncias, o que acabou resultando em um trabalho simplista e medíocre que a arte de Brent Schoonover não consegue melhorar, por ser apenas burocrática.

Se, à situação da premissa inexequível acrescentarmos a questão da “redução” de Mar-Vell ao papel de alívio cômico, então o one-shot começa a realmente ficar problemático. Para levantar a Capitã, Stohl opta por reduzir o Capitão, o que acaba sendo prejudicial para os dois heróis, pois ficamos com raiva de um e revoltados pelo outro. Uma pena que um encontro tão potencialmente bonito acabe traindo a própria premissa da coleção a que esse one-shot pertence.

Gerações: Capitã Marvel & Capitão Marvel – Os Mais Valentes (Generations: Captain Marvel & Captain Mar-Vell – The Bravest, EUA – 2017)
Roteiro: Margaret Stohl
Arte: Brent Shoonover
Cores: Jordan Boyd
Letras: Joe Caramagna
Editoria: Charles Beacham, Sana Amanat
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: novembro de 2017
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: outubro de 2018 (como parte do mix Avante, Vingadores! #23)
Páginas: 32

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.