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Crítica | Glauber, Claro

por Luiz Santiago
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Glauber Rocha foi o tipo de pessoa que plantava energia e que marcava pessoas aonde quer que fosse. Cineasta brasileiro mais cultuado fora do Brasil, Glauber utilizou diversas formas de mostrar de maneira experimental o povo, as classes e as diversas camadas políticas em seus filmes, com destaque especial para as suas criações a partir de Cabeças Cortadas (1970), culminando em seu canto do cisne, A Idade da Terra (1980). Nesse espaço de tempo, um filme em particular chamou a atenção do diretor César Meneghetti, a aventura romana de Glauber Rocha contra o imperialismo, o filme Claro, de 1975.

Claro foi a última produção em longa-metragem do diretor antes de retornar para o Brasil, onde ainda faria o curiosamente polêmico, mas excelente Di Cavalcanti (1977), o ótimo Jorge Amado no Cinema (1979) e o já citado A Idade da Terra. Nessa produção antes de seu retorno à pátria, o diretor lança os olhos para os muitos espaços políticos e sociais de Roma, tomando a Itália como um centro de imperialismo na Antiguidade e espelhando essa mesma posição de poder nos países centrais contemporâneos ao diretor. Assim, ouvimos muitas vezes o seu grito contra o capitalismo, o seu chamado para as chagas do Terceiro Mundo e sua zombaria quase buñuelista em relação à burguesia.

Meneghetti usa o olhar arquitetônico de Glauber para criar uma narrativa de contrapontos e paralelismos geográficos entre o tempo do diretor e o da produção do documentário, assim como procura fazer o seu próprio experimento ao expor essa viagem setentista na tela. É um filme que se assume como tal e, justamente por isso, serve como um perfeito canal para expor um pouco da experiência que Glauber Rocha nos propõe em Claro. Mas talvez o mais importante nessa jornada seja o seu caráter verdadeiramente humano, que pega o engajamento político, a troça, o papo sério, o impulso de um momento histórico e o joga-os para o futuro, com atores, atrizes, críticos e técnicos muitas décadas mais velhos; reunidos e falando sobre  aquela experiência.

Essa dualidade de vivências expõe contrastes entre personagem e pessoa, entre a criação de uma obra e a colheita dos frutos que ela deu com o passar dos anos. As conversas sobre o filme são engrandecedoras no sentido de experiência, e em termos informativos, quem ganha a corrida é a quantidade de excelentes histórias e lembranças que todos possuem de Glauber. O carinho com que o diretor brasileiro é lembrado por todos é algo verdadeiramente impressionante, inclusive mostrando um lado não muito óbvio do diretor, para quem o conhece apenas de algumas entrevistas mais enraivecidas, do Programa Abertura ou de suas intervenções em seus próprios filmes.

Glauber, Claro é um interessante exercício estilístico, mostrando um pouco mais sobre um de nossos mais notáveis cineastas em um de seus filmes mais experimentais. O finalzinho, com trechos falando sobre A Idade da Terra, acaba ficando solto na unidade do filme, mas não é algo que incomoda grandemente. A ótima experiência ainda permanece em nossas mentes e o carinho que todos nutrem por Glauber, claro, termina contaminando a todos nós.

Glauber, Claro (Brasil, 2020)
Direção: César Meneghetti
Roteiro: César Meneghetti
Elenco: Bernardo Bertolucci, Marco Bellocchio, Glauber Rocha, Gisela Getty, Silvano Agosti, Cristiana Tullio-Altan, Gianni Amico, Roberto Perpignani, Gaia Ceriana Franchetti, Bettina Best, Roberto Silvestri
Duração: 80 min.

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