Crítica | GLOW – 3ª Temporada

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Como disse na crítica anterior, não é surpresa que GLOW se pareça com Orange is the New Black. Jenji Kohan, criadora e showrunner da série prisional feminina é produtora da série sobre luta livre feminina e, ainda que o leme fique nas mãos de Liz Flahive e Carly Mensch, a influência de Kohan é cada vez mais sensível e esta terceira temporada deixa isso ainda mais claro.

E não digo isso de maneira pejorativa, que fique claro. GLOW tem a sua personalidade própria, assim como OITNB também tinha. São séries bem diferentes que fazem uso de uma infraestrutura narrativa parecida. Para começar, o elenco é formado primordialmente de mulheres e as atrizes são quase que na totalidade desconhecidas. Depois, se OITNB usava Piper Chapman como “porta de entrada” para seu mundo muito particular, mas sem o pudor de manter-se focada nessa personagem, GLOW usa a luta livre como chamariz e “ponto de encontro”, mas sabe quando emudecer esse artifício, às vezes a ponto de deixá-lo irrelevante. Isso permite que a série respire e navegue por águas diferentes, sem ficar escrava de uma linha narrativa fixa, que só teria o condão de engessar tudo.

Com isso, a terceira temporada de GLOW consegue desvencilhar-se facilmente de eventuais amarras, transferindo a ação para Las Vegas como determinado pela temporada anterior, com as lutadoras, agora, fazendo apresentações diárias em um cassino comandado por Sandy Devereaux St. Clair, vivida por Geena Davis em uma simpática adição ao elenco. Mas esse show é mesmo apenas o pano de fundo narrativo, ao ponto de nós só o vermos duas vezes, em ocasiões especiais. Com isso, abre-se espaço para que as cada vez mais unidas componentes do heterogêneo grupo ganhe os holofotes.

Debbie “Liberty Belle” Eagan e Sebastian “Bash” Howard assumem a posição de produtores de verdade, com a primeira lutando contra a distância de seu filho e ao mesmo tempo querendo firmar-se como mais do que apenas um rosto bonito na multidão e o segundo, agora casado com Rhonda “Britannica” Richardson, continua lutando contra sua natureza homossexual. O terceiro grande vértice narrativo fica por conta de Ruth “Zoya the Destroya” Wilder que se aproxima ainda mais do simpático grosseirão Sam Sylvia que, por sua vez, aproxima-se ainda mais de sua filha que se revela como uma grande escritora de roteiro cinematográfico.

A mecânica dos relacionamentos é complexa e sempre engajante, com os roteiros costumeiramente desviando-se de saídas fáceis e óbvias. Se uma declaração de amor acontece, ela não é respondida da maneira que esperamos. Se um relacionamento esfria, ele só esquenta de maneira bem diferente da que imaginamos. Isso mantém o frescor das histórias e, principalmente, a união do grupo em cima de variadas temáticas.

Uma das principais narrativas da temporada que perpassa praticamente todo os personagens é a homossexualidade. Bash, claro, tem enorme importância nesse quebra-cabeça como o gay que não admite sua natureza diante de fatos incontestáveis, o que lhe deixa psicologicamente abalado, mas o mesmo assunto também é trabalhado na relação amorosa entre Yolanda “Junkchain” Rivas, abertamente gay e Arthie “Beirut the Mad Bomber” Premkumar, que não sabe exatamente o que é. O show de Bobby Barnes (Kevin Cahoon, excelente), um performista drag, serve de estrutura básica para essas questões que são constantemente mantidas na superfície.

O uso de estereótipos raciais e de gênero, algo que marcou e de certa forma ainda marca as temporadas, é manobrada de maneira inteligente, com uma atualização dos textos dos roteiros para demonstrar o desconforto das pessoas com isso. O assunto é particularmente bem representado pela presença de Jenny “Fortune Cookie” Chey, que sente desconforto em entrar no palco sempre vestida de biscoito da sorte só porque é oriental e, mais ainda, pelas pessoas ao seu redor, suas amigas, não compreenderem o que ela sente. Esse é um discurso atual, que descamba para o politicamente correto, mas que GLOW toma para si para mostrar qual é exatamente o problema, conseguindo ser bem sucedida em sua empreitada sem passar sermões ou exagerar na dose.

Há uma certa pressa, ao final, para estabelecer uma nova temporada, com Debbie manobrando seu relacionamento com o magnata  J. J. “Tex” McCready (Toby Huss, sempre ótimo) e também Bash para seus próprios fins. Aqui, as conveniências de roteiro acabam falando muito mais alto e tiram a atenção das diversas histórias que vão se fechando. Teria sido mais interessante se esse lado mais, digamos, maquiavélico de Debbie tivesse sido introduzido antes, logo no início de seu namoro com Tex, de forma que a reviravolta final deixasse de soar exagerada e não exigisse tanto da suspensão da descrença.

Mesmo considerando o tropeço no encerramento, a terceira temporada de GLOW é outro belo acerto da série. Já começo a sentir um pouco a fadiga narrativa, porém, pelo que talvez esteja na hora das showrunners caminharem para seu encerramento. Tenho minhas sinceras dúvidas se, mesmo com capítulos de duração menor, há material relevante para que a série mantenha-se com a mesma qualidade pelo tempo que OITNB ficou.

GLOW – 3ª Temporada (EUA – 09 de agosto de 2019)
Criação e showrunners:  Liz Flahive, Carly Mensch
Direção: Claire Scanlon, Mark A. Burley, Jesse Peretz, Anya Adams, Alison Brie, Lynn Shelton, Phil Abraham
Roteiro: Liz Flahive, Carly Mensch, Sascha Rothchild, Rachel Shukert, Isaac Oliver, Marquita J. Robinson, Victor Quinaz
Elenco: Alison Brie, Betty Gilpin, Sydelle Noel, Britney Young, Marc Maron, Britt Baron, Kate Nash, Gayle Rankin, Kia Stevens, Jackie Tohn, Chris Lowell, Sunita Mani, Ellen Wong, Kimmy Gatewood, Rebekka Johnson, Bashir Salahuddin, Rich Sommer, Marianna Palka, Geena Davis
Duração: 26 a 46 min. por episódio (10 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.