Crítica | Gnomeu e Julieta: O Mistério do Jardim

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Bonitinho“. Este foi o adjetivo mais utilizado por adultos para definir Gnomeu e Julieta, a versão de Romeu e Julieta como gnomos de cerâmica, lançada nos cinemas em 2011. Apesar de não ser exatamente uma soberania de filme, a animação era agradável, ficando acima da média e oferecendo uma boa diversão para adultos e crianças. Com isso, não era difícil imaginar que os estúdios inventariam uma continuação para os mesmos personagens, e isso nos trouxe para Gnomeu e Julieta: O Mistério do Jardim (o título original, Sherlock Gnomes é tão mais legal!), que teve sua pré-produção iniciada ainda em 2012, passando por mudanças de empresas de animação e produtoras, adicionando um maior benefício visual à obra, embora o mesmo não possamos dizer do enredo.

Dirigido por John Stevenson (Kung Fu Panda), O Mistério do Jardim é, em tudo, uma história que faz jus à brincadeira com Sherlock Holmes, criando uma simples, mas eficiente premissa: os humanos se mudam para Londres e os gnomos estão agora em um novo jardim, precisando fazer dele o seu novo lar. Na cidade, porém, existe um constante rapto de gnomos por Moriarty (Jamie Demetriou), figura cômica e afetada, o oposto visual do tipo “grande vilão” a que estamos acostumado, o que é sempre interessante de se ver. Para resolver o caso, claro, temos Sherlock Gnomes (Johnny Depp) — cujo desenho e animação foi feito em homenagem ao ator Basil Rathbone, que interpretou Holmes um grande número de vezes nos cinemas e na TV — e seu parceiro Dr. Watson (Chiwetel Ejiofor) na cola de Moriarty, em uma jornada que inicialmente nos faz questionar todo o estardalhaço negativo em torno do filme, promovido pela crítica americana. Mas a resposta para isso, vem depois.

De cara, o espectador está diante de duas histórias, a princípio não interligadas, e com passagens nada orgânicas entre elas, o que é tanto um problema de roteiro, quanto de direção e montagem. Mas o bom humor e as brincadeiras com o romantismo brega entre Gnomeu (James McAvoy) e Julieta (Emily Blunt), somados às inventivas trapalhadas de Sherlock e Watson nos divertem e nos faz mergulhar nessa perseguição que começa costurando o mundo dos gnomos ao mundo dos humanos (com sugestões de “contos” como Indiana GnomesGame of GnomesGnome-coming), trazendo ainda ótimas imagens do “Palácio Mental” de Sherlock, em animação criativa, preto e branco, muito bem inserida nas sequências, além de referências diretas à literatura de Conan Doyle, como Um Estudo em VermelhoO Cão dos Baskervilles e O Problema Final. Num primeiro momento, vemos apenas coisas interessantes dentro de cada bloco, com problema apenas na passagem de um núcleo para outro.

À medida que a trama avança, porém, o texto vai colocando mais e mais personagens em cena, sem ter um real plano para eles a longo prazo, às vezes gerando cenas visual e dramaticamente belas e divertidas (como a chegada dos detetives e dos gnomos à loja chinesa) e outras apenas interessantes do ponto de vista estético, mas não necessariamente belas e com um andamento bastante truncado, como o encontro de Sherlock com sua antiga noiva Irene, uma personagem forte, interessante, mas que só está na história para fazer valer a composição de Elton John para Mary J. Blige, que, obviamente, faz um excelente trabalho, mas isso não significa que sua sequência seja realmente necessária aqui. Quanto mais se aproxima do final, mais situações forçadas a animação vai ganhando, a ponto de perder o encanto inicial para se tornar uma coleção de absurdos.

A primeira parte de Gnomeu e Julieta: O Mistério do Jardim é muito divertida, capaz de agradar a públicos de diferentes idades, por diferentes motivos. Mas a segunda metade da obra parece uma saga no piloto automático de piadas jogadas para todos os lados, com situações bobas demais — se comparadas às que o próprio filme tinha mostrado no início — e abordagens de personagens que podem soar como descaraterização, se bem analisadas. O filme tem seu charme e, quem gostou do primeiro, é bem provável que vá gostar deste também, mas ele definitivamente tem mais problemas de roteiro, o que pode comprometer consideravelmente a experiência. Vale dar uma chance, mas quem realmente vai aproveitar a sessão, serão as crianças.

Gnomeu e Julieta: O Mistério do Jardim (Sherlock Gnomes) — Reino Unido, EUA, 2018
Direção: John Stevenson
Roteiro: Ben Zazove (baseado em história de Andy Riley, Kevin Cecil, Emily Cook, Kathy Greenberg)
Elenco (vozes): Kelly Asbury, Mary J. Blige, Emily Blunt, Julio Bonet, Gary Bradbury, Michael Caine, Gang Chi, Rosalie Craig, Jamie Demetriou, Johnny Depp, Chiwetel Ejiofor, Dexter Fletcher, Steve Hamilton Shaw, Leyla Hobart, James Hong, Ashley Jensen, Matt Lucas, James McAvoy, Stephen Merchant, Ozzy Osbourne, Javone Prince, Maggie Smith, Dan Starkey, John Stevenson, Julie Walters, Eve Webster, Stephen Wight, Richard Wilson, Xin Zhao
Duração: 86 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.