Crítica | Godzilla: Cidade no Limiar da Batalha (2018)

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Produzido pela Toho Animation e animado pela Polygon Pictures, Godzilla: Cidade no Limiar da Batalha (2018) é a segunda parte de uma trilogia começada com Planeta dos Monstros (2017), originalmente lançado nos cinemas japoneses em 18 de maio de 2018 e na internet, com distribuição pela Netflix, dois meses depois. Em teses gerais, a obra se passa alguns dias depois do final do primeiro filme, mostrando Haruo (Mamoru Miyano) se recuperando em uma aldeia que mais adiante descobrimos ser dos Houtua, uma espécie evoluída dos humanos, desenvolvida ao longo de 20 mil anos após a fuga das 15 mil pessoas nas naves Oratio e Aratrum, durante o ataque destruidor de Godzilla em 2048.

Se por um lado entendemos certas escolhas do roteiro de KozakiUrobuchi pra guiar a continuação, é quase impossível não se irritar com a aparência de colossal perda de tempo, atrasando desnecessariamente a relação da raça de Maina e Miana com Mothra e entregando toda a história a uma luta fake contra Godzilla (importante lembrar que já tivemos luta contra um kaiju falso em Planeta dos Monstros. Aqui, o monstro é o certo, mas a luta não), só para mostrar uma cidade Mecha que, a bem da verdade, de nada serve para um real andamento da história. Se pensarmos exclusivamente em composição de enredo para a trilogia, entenderemos que, por mais enrolado que o primeiro filme tenha sido, ele ao menos conseguiu estabelecer e avançar com algo. Aqui, entre mistérios desnecessários e muita enrolação, tivemos unicamente o estabelecimento dos humanos na Terra e uma tentativa de ataque, algo que poderia tranquilamente ser feito através de elipses competentes e uma boa montagem num único filme.

Como sempre acontece em histórias que não avançam, o roteiro se entrega por completo a dramas pessoais, seja em brigas de laços de poder (militar, político) ou em laços fraternos e amorosos. E não é como se esses elementos fossem descartáveis para uma história como essa, afinal, o espectador precisa ter um núcleo de aproximação com alguns personagens para que a conquista do planeta se torne algo interessante, dentro da concepção heroica que os kaiju constroem por si só, e já observávamos algo nesse sentido desde a estreia do lagartão em 1954, portanto é algo necessário (em pequena medida). Todavia, o que se passa aqui é uma corrida em círculos do roteiro, que de início desvia a nossa atenção daquilo que realmente importa, cria toda uma proto-hostilidade entre humanos e Houtua para então deixar esses humanos do futuro em quinto plano narrativo, chegando ao cúmulo de repetirem a estadia das “filhotes” (as Sacerdotisas de Mothra, como sabemos) fora da caverna, enquanto toda a ação estava acontecendo.

É como se a produção, à guisa de (confusa) homenagem, repetisse parte dos erros visuais de Mothra vs. GodzillaGodzilla vs. Ghidorah, e isso apenas para efeito didático. No fim das contas, algumas boas ideias acabam sendo sabotadas por essas estranhas representações ou relutância do roteiro em ser objetivo, especialmente quando investe em criar conflito para algo que não terá absolutamente nenhum impacto no terceiro filme, tendo apenas a função de criar explosões, um momento de dor e um conflito militar interno que se encerra com o mais amargo saber de anticlímax esperado para um filme com Godzilla e o nanometal do Mechagodzilla em cena. A pouca ajuda da trilha sonora na primeira parte também incomoda o espectador. A má inserção de plácidas melodias ao piano em uma Terra ameaçada não é o que podemos chamar de escolha sábia do compositor, que só altera a percepção na reta final da obra, entregando o tipo de música que um kaiju realmente deve ter.

A fotografia da reta final da obra é a melhor parte técnica do filme. Ver Godzilla receber um ataque massivo, como o que aconteceu a ele, ter a ação temporária de congelamento por conta do nanometal e transformar isso em calor, brilhando gloriosamente daquele jeito, é uma das muitas superações do monstro que tanto gostamos de vez em seus filmes. ISSO sim é Godzilla. Pena que, para um filme de monstro, quem tem realmente espaço aqui são os humanos. E como eu já disse em Godzilla vs. Ebirah, não tem para onde correr: se é filme de monstros, o destaque tem que ser dado aos monstros e acabou. Qualquer coisa diferente disso… é golpe. Quem sabe a produção não faça do fechamento da trilogia uma obra verdadeiramente de Godzilla? Ghidorah com certeza vai aparecer. E pelo menos a larva de Mothra deve dar as caras. É disso que estou falando. Monstros em filme de monstro. Podem mandar que a gente gosta.

Godzilla: Cidade no Limiar da Batalha (Gojira: kessen kidô zôshoku toshi / Godzilla: City on the Edge of Battle) — Japão, 2018
Direção: Hiroyuki Seshita, Kôbun Shizuno
Roteiro: Yusuke Kozaki, Gen Urobuchi
Elenco: Kana Hanazawa, Ken’yû Horiuchi, Yûki Kaji, Kenta Miyake, Mamoru Miyano, Kazuya Nakai, Ari Ozawa, Takahiro Sakurai, Tomokazu Sugita, Jun’ichi Suwabe, Reina Ueda, Kazuhiro Yamaji, Kanehira Yamamoto, Junichi Yanagita
Duração: 101 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.