Crítica | Godzilla II: Rei dos Monstros

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Esqueçam de uma vez por todas a choradeira shakespeariana dos que cobram “total humanidade” e “amplo desenvolvimento de núcleo humano” e “grandes emoções” de um filme kaiju. Ignorem. A única coisa que realmente merece total atenção e foco central nesse tipo de filme são os kaijus! E Godzilla II: Rei dos Monstros (2019) faz isso de maneira excepcional. Dando um largo passo de qualidade desde Godzilla (2014) para um cenário de 5 anos após aqueles eventos devastadores, o presente longa de Michael Dougherty (que também escreve o roteiro, ao lado de Zach Shields) nos entrega exatamente o que um filme de monstros deve entregar para o público que paga ingresso para ver um filme de monstros. Você consegue adivinhar o quê? Vou dar uma dica, começa com “mons” e termina com “tros“.

Na trama, a super agência Monarch tenta fazer com que o governo saiba da importância dos estudos destinados à compreensão do comportamento e presença desses grandes bichos aqui na Terra. Esse primeiro momento do roteiro é simples e se ergue muito bem. A ambientação que nos prepara para a tragédia é rápida, faz uso bem pensado da trilha sonora como delineador das emoções dos personagens e apresenta os primeiros bons momentos da edição e mixagem de som na fita, dois setores técnicos que sempre ficamos de ouvidos bem abertos para ouvir o que têm a oferecer em filmes assim. Neste King of the Monsters temos algo realmente muito bom nesses setores, especialmente na mixagem. Nenhuma batalha ou ataque das criaturas passa sem algo especial, um novo elemento-surpresa dos efeitos sonoros que, em par com a trilha de Bear McCreary e seu resgate e respeito ao material do grande Akira Ifukube, torna a experiência auditiva realmente aplaudível aqui

Também no primeiro bloco da obra temos boas demonstrações do que o elenco irá nos oferecer no decorrer da projeção. E sim, todos estão muito bem em cena, desde o papel mais simples (e mais para o final do filme, chateante) de Millie Bobby Brown até os míseros minutos que deram para a ótima Sally Hawkins trabalhar. Dramaturgia aqui não é o problema. Mas há algo que afeta as atuações e que aparece no último bloco do filme: um surto de conveniências, má colocação de personagens em momentos de crise e atitudes estúpidas. Enquanto a melhor coisa de todo o filme segue de maneira excelente, com Godzilla todo lindão, atomizado, azul (esse design DougheGoji já é intimidador e impactante por padrão) gritando feito louco e descendo o sopro atômico em King Ghidorah, o núcleo humano — que até então fora tratado como deveria ser: um suporte para os titãs — começa a sobressair-se em linhas melodramáticas, o que nunca é algo interessante. Além disso, temos coisas que são muito difíceis de se engolir, como a busca por uma determinada personagem num momento muito intenso ou o conserto de uma certa coisa que faria MacGyver explodir de… vergonha alheia.

Contamos também com participações muito boas de Mothra, Rodan e mais alguns outros monstros que estão adormecidos em nosso planeta. Como o segundo trailer oficial deixou claro para todo mundo, existem 17 (e contando!) dessas criaturas espalhadas por todo o globo. Os bons efeitos especiais e a forma como o núcleo dos monstros se liga ao núcleo dos humanos é algo bem feito, num primeiro momento. As cenas na agência criptozoológica, o estreitamento de algumas relações com o filme de 2014, mais Kong: A Ilha da Caveira (2017) e um curioso alinhamento com Ghidrah, O Monstro Tricéfalo (1964) fluem bem através da montagem que procura o tempo inteiro colocar a ameaça junto a um grupo que está disposto a entendê-la, explicá-la e combatê-la. E talvez aí esteja a semente dos grandes problemas do filme.

Se a coisa se resumisse à exposição de planos e elementos afins, o resultado final seriam bem melhor. Mas o roteiro nos força a comprar uma motivação que não parece vir pronta. Até certo momento, o mistério e o choque de uma revelação nos acompanha e nos anestesia para um tratamento não muito bom em relação ao “grande motivo” que, a bem da verdade, não se faz valer como prometera, o que enfraquece o lado dos “humanos maus” a certa altura da projeção. Somando-se isso ao outro problema do bloco final que comentei anteriormente, encontramos o conjunto dos grandes incômodos do filme. Se o espectador for muito exigente em termos de gadgets e uso de tecnologia para fins zoológicos e biológicos, ou ainda, se tiver um alto senso de cobrança e veracidade oceanográfica e geológica, certamente sairá da sala com mais alguns probleminhas na lista e talvez goste menos do filme. Este, porém, não foi o meu caso.

Entregando uma soberba camada de lutas e participação dos kaiju do começo ao fim da fita (a cena final é muito badass) e tendo um grande cuidado ao mostrar cada intensa cena com um nível de identidade visual memorável — o fotógrafo Lawrence Sher merece todo o destaque pela escolha da paleta saturada e do trabalho de iluminação nas lutas, em especial para as sequências noturnas. Seus filtros de ambientação azul para Godzilla; verde para Mothra; amarelo para Ghidorah e vermelho para Rodan possuem um resultado final muito interessante — Godzilla II: Rei dos Monstros é o tipo de blockbuster que entrega exatamente aquilo que promete: muitos monstros brigando. Nem o núcleo humano e seus muitos problemas consegue tirar o fator de diversão desse filme. Um épico de monstros COM monstros? Sim! É disso que eu estou falando!!!

NOTA: tem uma cena pós-créditos.

Godzilla II: Rei dos Monstros (Godzilla: King of the Monsters) — EUA, 2019
Direção: Michael Dougherty
Roteiro: Michael Dougherty, Zach Shields
Elenco: Kyle Chandler, Vera Farmiga, Millie Bobby Brown, Ken Watanabe, Ziyi Zhang, Bradley Whitford, Sally Hawkins, Charles Dance, Thomas Middleditch, Aisha Hinds, O’Shea Jackson Jr., David Strathairn, Anthony Ramos, Elizabeth Ludlow, Jonathan Howard, CCH Pounder, Joe Morton
Duração: 130 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.