Crítica | Godzilla: O Devorador de Planetas

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Depois do fake Godzilla de Planeta dos Monstros e do filme de monstros sem destaque real para os monstros, em Cidade no Limiar da Batalha, chegamos ao péssimo final da trilogia produzida pela Toho Animation, cuja ideia inicial era mostrar a humanidade saindo da Terra e voltando para ela, tentando reconquistá-la do Godzilla; mas que acabou se tornando (pasme!) uma insuportável manifestação de retórica religiosa e mensagens batidas ou deslocadas de trabalho em equipe, superação de dificuldades e sacrifício. O problema é que nenhum desses temas estão bem colocados no roteiro de Gen Urobuchi e, pior ainda, há um verdadeiro desrespeito por parte do autor e dos diretores Seshita e Shizuno ao tratarem o lagartão e o “inimigo de destaque da vez”, o rei Ghidorah.

Uma das piores coisas, para qualquer tipo de obra, é tentar recontar a história de um personagem/criatura e fazer isso descaracterizando ou jogando fora tudo o que há de melhor nesse personagem, inclusive a aparência. E sim, todas essas cosias acontecem aqui. Antes da entrada enervante de Ghidorah, o que marca o enredo é, numa frase simples, um conflito entre espécies humanoides. As ações dos bilusaludos diante do Mechagodzilla, no segundo filme, basicamente serve como trampolim para opor opiniões, afastar amigos, gerar desconfianças e dar para alguns personagens a dianteira que precisavam para seguir com seus pessoais. E nesse ponto é que o filme cava a própria cova, porque o destaque maior nessa empreitada vai para a seita religiosa dos exif, e o que deveria ser um filme épico, que fechasse bem as janelas abertas em dois longas anteriores, vira um altar de pregação com filosofia barata e temperada com doses de existencialismo que não convencem nem mesmo aos personagens para as quais são ministradas.

É verdade que a trilha sonora apresenta um corpo musical chamativo, sendo, inclusive, responsável por tornar algumas cenas suportáveis de se assistir. Mas a boa música não age o tempo inteiro e também não está totalmente bem colocada na obra, já que a montagem, às vezes irresponsável, escolhe transições questionáveis em imagem e edição/mixagem de som, não dando tempo para que uma grande cena com explosiva trilha tenha sua finalização interna e só então passe para outra sequência. Isso acontece praticamente todo o tempo após o minuto 43, quando Ghidorah começa a trazer o seu pescoção dourado para a nossa realidade. Alternância de planos e conflitos entre núcleos distintos de personagens podem se ver aí, mas nesse ponto, tudo relacionado aos humanoides já havia chegado ao ponto de saturação (praticamente metade do filme sem monstro!), logo, nossa atenção se volta para a estranha chegada do monstro tricéfalo. E depois que a gente vê o que fazem com o bicho, a sensação que nos toma é: seria melhor que não tivessem colocado o personagem aqui.

Quando apareceu pela primeira vez, em Godzilla vs. Ghidorah (1964), esse kaiju era “apenas” um “dragão de três cabeças vindo do espaço“, e nós sabemos que ele teve origens recontadas ou mostradas sob outros pontos de vista em filmes posteriores. Nada disso, porém, chega ao menos próximo do horror que fizeram com a criatura nesse O Devorador de Planetas. Ligado a um horrendo plot de compleição religiosa e sendo basicamente só pescoço, fica difícil para o espectador aproveitar a presença do monstro e, principalmente, curtir o seu embate contra Godzilla, um momento bastante esperado. Embora a animação guarde migalhas de coisas que nos chamam a atenção ou nos deixam curiosos pelo que pode gerar, rapidamente essa boa percepção se dissipa e dá lugar a uma série de outros sentimentos negativos. Não há qualquer preocupação dos diretores em trabalhar o Ghidorah da maneira correta, ou de ao menos dar uma nova origem que permitisse o personagem ser ele por alguns minutos pelo menos.

Com um roteiro que atira para todos os lados na reta final; com personagens que simplesmente perdem a capacidade de se desenvolverem — Haruo praticamente vira outra pessoa aqui, sem qualquer real suporte para essa mudança — e com colocação de monstros em tudo risível (isso sem falar do cameo inútil da Mothra), o encerramento dessa trilogia de animes da Toho sobre o seu clássico monstro é uma vergonha de tal tamanho que faz o segundo filme parecer bom. Esse é o preço que se paga quando um roteirista quer brincar de filosofar em uma obra onde a única filosofia que deveria ter era a de monstro esmurrando monstro. Uma hora e meia da minha vida totalmente desperdiçada.

Godzilla: O Devorador de Planetas (Gojira: hoshi wo kû mono) — Japão, 2018
Direção: Hiroyuki Seshita, Kôbun Shizuno
Roteiro: Gen Urobuchi
Elenco: Mamoru Miyano, Takahiro Sakurai, Kana Hanazawa, Tomokazu Sugita, Yûki Kaji, Reina Ueda, Ari Ozawa, Daisuke Ono, Ken’yû Horiuchi, Kazuya Nakai, Kazuhiro Yamaji, Saori Hayami, Ken’ichi Suzumura, Kanehira Yamamoto
Duração: 91 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.