Crítica | Godzilla, O Monstro do Mar (Godzilla, O Rei dos Monstros!, 1956)

estrelas 1,5

O hábito estadunidense de comprar os direitos de filmes estrangeiros e transformá-los em versões americanizadas não é algo novo. Alguns estúdios menores da Terra do Tio Sam tinham como hábito frequente esse tipo de prática, especialmente quando se tratava de obras de baixo orçamento e que tinham algum pé na ficção científica.

Quando Godzilla foi lançado no Japão, em 1954, o sucesso foi imediato por lá. Mas não no exterior. Os kaijus movies ainda não tinham alcançado a fama internacional que teriam nas décadas seguintes e sua distribuição fora da terra dos samurais era bastante limitada, quase unicamente restrita às comunidades japonesas residentes em bairros étnicos nos Estados Unidos, Canadá e alguns países da Europa. E foi nesse contexto que Edmund Goldman conheceu o primeiro Godzilla: num cinema de uma Chinatown na Califórnia.

Goldman conseguiu da assessoria da Toho nos Estados Unidos os direitos para realizar uma versão americana de Godzilla, mas não tinha intenção pessoal de dirigir ou investir no projeto. Ele era uma espécie de intermediário entre os estúdios nacionais e estrangeiros. Vendendo, então, os direitos para a Jewell Enterprises Inc., Goldman selaria o futuro do lagarto atômico na América, que ganharia a sua primeira versão no Novo Continente em 1956, com o título original Godzilla, King of the Monsters!.

Como os direitos de adaptação não impunham barreiras em relação ao modo como deveria ser feita, os produtores Terry Turner e Joseph E. Levine sentiram-se legalmente confortáveis em avacalhar o lagarto atômico, brincando de copiar e colar as cenas do filme original (utilizando, inclusive, parte do material descartado por Ishirô Honda) e intercalando cenas dirigidas por Terry O. Morse, tendo como protagonista o canastríssimo Raymond Burr, que também assume o papel de narrador-explicador-detalhador e guia-ideológico do público.

O filme, portanto, é uma explosão de péssima montagem contendo dublagens dessincronizadas e parcialmente selecionadas — o elenco original fala japonês no início e inglês no final! –; fixação de plataformas cênicas interessantes mas que não dizem nada no contexto geral do filme; descaracterização dos principais personagens originais (especialmente os cientistas) e foco desnecessário no romance, sendo criado, inclusive, um recorte patético para mostrar um triângulo amoroso tratado com normalidade quase indiferença no original.  Na melhor as hipóteses podemos classificar a obra como “um remake que não é um remake“.

Todavia não podemos dizer que o exercício realizado aqui é de todo descartável. Algumas cenas de Terry O. Morse são boas se vistas isoladamente e parte do desenvolvimento da fita é minimamente palatável, embora vá ficando pior e pior quanto mais nos aproximamos do final. O início do filme também padece do mesmo mal de errado, partes de ação mal selecionadas e uma narração-guia que assume um posto interessante no início mas não tarda em se fazer enjoativa e impingir um desnecessário teor de bom mocismo aos japoneses, quase como uma expiação de pecados por parte dos americanos.

Visivelmente realizado para ganhar dinheiro em cima de um sucesso japonês, Godzilla, O Monstro do Mar (um dos dois títulos que o filme recebeu no Brasil) é, em suma, um crime cinematográfico. Ele despe o original de seu sentido e adiciona elementos que retiram da obra o que ela tinha de melhor: o contexto e o elemento crítico. O que sobra aqui é o esqueleto hidrogenado de um monstro pré-histórico pincelado com romance inútil e tortuosa realização técnica. Um filme para ver e se esquecer.

Godzilla, O Monstro do Mar (Godzilla, King of the Monsters!) – EUA, Japão, 1956
Direção: Ishirô Honda, Terry O. Morse
Roteiro: Ishirô Honda , Shigeru Kayama, Takeo Murata, Al C. Ward
Elenco: Raymond Burr, Takashi Shimura, Momoko Kôchi, Akira Takarada, Akihiko Hirata, Sachio Sakai, Fuyuki Murakami, Ren Yamamoto, Toyoaki Suzuki, Tadashi Okabe, Toranosuke Ogawa
Duração: 80 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.