Home FilmesCríticas Crítica | Godzilla: Planeta dos Monstros (2017)

Crítica | Godzilla: Planeta dos Monstros (2017)

por Luiz Santiago
486 views (a partir de agosto de 2020)

Primeiro longa de animação (embora não tenha sido a primeira adaptação animada) de Godzilla e 32º filme da franquia, Planeta dos Monstros é a primeira parte de uma trilogia de filmes entre 2017 e 2018, novamente com produção associada da Toho, o estúdio que nos entregou o Lagarto Atômico pela primeira vez em 1954. Distribuída pela Netflix, a fita se passa em um futuro onde os humanos foram expulsos do planeta pelo bichão protagonista e agora vagam pelo Universo em busca de um planeta habitável. Duas décadas se passam (do ponto de vista de quem está na nave) e o futuro para os humanos não é nada promissor. Aí surge a ideia que pode ser o fim da espécie: voltar para a Terra e tomar o planeta das garras do rei dos kaiju.

Para falar a verdade, Planeta dos Monstros só começa mesmo nos 15 minutos finais. A narração de como a Terra foi dominada não é bem inserida no roteiro e uma série de dúvidas e certo desdém do espectador surgem aos borbotões a cada momento em que o texto se perde em atalhos pouco importantes para o atual estágio da espécie. Em vez de verdadeira atenção à fuga e aos elementos de sobrevivência, temos um rápido e pouco eficiente flashback que, além de querer dar conta da evacuação da população (não conseguindo fazer isso de maneira aceitável) inserve uma outra raça na história, um povo que estava procurando um planeta com água para habitar e que propõe uma aliança. Ambas as espécies falham em conter o lagartão e saem juntas para procurar um outro planeta para viver.

Essa outra espécie, os Exifs, terá um papel importante na história por conta de sua integração na organização da nave que carrega a humanidade, tendo também participação na primeira ofensiva de retomada do planeta. Durante o primeiro ato, porém, a introdução de uma nova religião a partir dos Exifs e a justificativa quase infantil de “se vingar do Godzilla que tomou a nossa dignidade como humanos” são coisas que distraem bastante e que fazem toda a base da obra perder-se em dramas pessoais que, inclusive, atrapalham os personagens quando a Terra é novamente alcançada e a luta para recuperá-la se inicia.

Haruo é o personagem que mais sofre com esse olhar passional que o texto dá para justificar o retorno, problema que persiste quando as estratégias de batalha são erguidas, quando os Servum aparecem (subespécie voadora — semelhante a um dragão — de Godzilla, com 97% de semelhança genética e que habita a Terra por volta do ano 22.048, que é quando essa trama se passa) e durante a luta contra o Godzilla Filius.

Aí chegamos a um ponto da obra onde as coisas começam a ficar interessantes. E não digo isso em termos de gráfico da animação, que não é trash, mas também não é nada que mereça honrarias. Serve apenas ao propósito de mostrar bichos modificados pela radiação e evoluídos ao longo de milhares de anos. Também não cito isso para me referir à fotografia e desenho de produção, especialmente para a segunda parte, onde ambas as categorias são interessantes. A ideia e justificativa da neblina na grande floresta, a diferenciação de cor e estabelecimento do espaço após o retorno dos humanos, os pequenos segredos da flora e fauna da Terra, tudo isso compõe bem a esfera de ameaças no roteiro e na parte visual. Mas o que falo de “coisas que ficam mais interessantes” é daquilo que sempre marcou os filmes kaiju ao longo dos anos, ou seja, as grandes demonstrações de força por parte dos bichos e a estratégia dos humanos para lutar contra essas forças bizarras.

SPOILERS

E é aqui que entra a questão do Godzilla Filius. O desenho dele apresenta um pescoço mais fino que o de sua versão “oficial” vista no final; e mais curto, lembrando um pouco o “Legendary Godzilla”, que é a versão de Godzilla (2014). Todo o cerne do filme é a luta contra essa versão fake do verdadeiro Lagarto. Na verdade, o Filius é parte evolucionária da divisão das células do verdadeiro Gojira, exatamente como os Servum, mas esses se desenvolveram como uma espécie voadora e mais fraca. Já o Filius é um “clone natural”, com semelhanças genéricas com a versão que vemos no flashback, na primeira parte, que se passa entre 2030 e 2048, quando a evacuação do planeta finalmente ocorre.

Fazer um filme com uma versão clonada e não tão interessante de Godzilla apenas para abrir espaço para os longas da trilogia com certeza comprometeu o resultado final. Mas uma coisa é certa: toda a nossa pendência com o ritmo geral da fita é dissipada nos minutos finais, diante da excelente sequência de batalha e quando, enfim, a verdade é revelada e vemos aparecer, aí sim, um mitológico monstro, que em tudo chama a nossa atenção. Este é o ponto onde parece que a infantilidade do primeiro ato e o desengonçado desenvolvimento do enredo até a última batalha são compensados. Claro que a lembrança desses pontos fracos ainda ficam — assim como o mal uso da trilha sonora em praticamente todo o filme, exceto, adivinhem… na batalha final –, mas pelo menos fazem com que a gente tenha uma justificativa para parte daquilo e possa aproveitar a atmosfera de horror e destruição que esse tipo de obra sempre nos causa. O resultado? Pedir mais.

Godzilla: Planeta dos Monstros / Monster Planet (Japão, 2017)
Direção: Hiroyuki Seshita, Kôbun Shizuno
Roteiro: Gen Urobuchi, Sadayuki Murai, Yusuke Kozaki
Elenco: Chris Niosi, Martin Billany, Robbie Daymond, Lucien Dodge, Kana Hanazawa, Ken’yû Horiuchi, Yuki Kaji, Kenta Miyake, Mamoru Miyano, Kazuya Nakai, Daisuke Ono, Takahiro Sakurai, Tomokazu Sugita, Jun’ichi Suwabe, Cristina Valenzuela, Kazuhiro Yamaji
Duração: 99 min.

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32 comentários

Alyson Lima 11 de janeiro de 2019 - 16:47

Alguém pode me informar, qual a música que toca no final?

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Rodrigo 15 de fevereiro de 2018 - 14:45

Uma animação bem no estilo dos atuais animes Japoneses, tem uma enormidade de diálogos no começo para depois entrar no tema do filme. Eles gostam disso, então acaba ficando assim.

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Luiz Santiago 15 de fevereiro de 2018 - 15:01

É, mas tem animações onde essa estrutura funciona. Pode ser uma questão de estilo, mas não mantido a todo custo apenas “porque sim”. Nesse caso, depôs contra a obra. Torcendo para a continuação ser diferente…

Responder
Rodrigo 15 de fevereiro de 2018 - 14:45

Uma animação bem no estilo dos atuais animes Japoneses, tem uma enormidade de diálogos no começo para depois entrar no tema do filme. Eles gostam disso, então acaba ficando assim.

Responder
Carlos Souza 31 de janeiro de 2018 - 11:22

Podia ser um episodio de “Black Mirror”, deixou um gosto azedo na boca, daqueles que só sai com bala chita!!!

Responder
Carlos Souza 31 de janeiro de 2018 - 11:22

Podia ser um episodio de “Black Mirror”, deixou um gosto azedo na boca, daqueles que só sai com bala chita!!!

Responder
Luiz Santiago 31 de janeiro de 2018 - 11:25

Misericórdia!

Responder
Eduardo Mafra 23 de janeiro de 2018 - 09:39

Ainda irei ver, mas bem que poderia rolar uma crítica para o filme Shin Godzilla, que gostei bastante apesar dos arcos humanos, que de certa forma são mais interessantes que o filme de 2014 e com um Godzilla que ao meu ver é o mais poderoso de todos até agora.

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Luiz Santiago 23 de janeiro de 2018 - 10:14

Vai rolar sim, mas um pouco mais para frente. Tenho planos monstruosos (hehehehe) para o Lagartão esse semestre ainda.

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JJL_ aranha superior 21 de janeiro de 2018 - 22:45

Sempre sonhei com um filme do gojira na mesma pegada de attack on titan, se tiver isso na animação talvez eu dê uma conferida. Gostaria que a Netflix pudesse disponibilizar os filmes antigos do monstrão, porque pra mim tá praticamente impossível encontrar online ou pra baixar.

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Luiz Santiago 21 de janeiro de 2018 - 23:07

Não tem a ver com AOT não, mas vale dar uma conferida, viu.

Infelizmente não tem os clássicos na Netflix. Um crime, obviamente. Ainda mais que estão trazendo esse novo. Daria a oportunidade de mais gente conhecer os kaiju do passado.

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JJL_ aranha superior 22 de janeiro de 2018 - 00:06

Pois é, sabe dizer um bom meio de conferir os “clássicos”? Rsrsrsrsrs

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Luiz Santiago 22 de janeiro de 2018 - 01:01

Cara, só por torrent mesmo, nos becos escuros da internet.

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JJL_ aranha superior 22 de janeiro de 2018 - 09:26

O problema é que o único que eu consegui foi o de 54, os outros os seeds eram péssimos.

JJL_ aranha superior 22 de janeiro de 2018 - 13:00

A propósito, em que site tu baixa?

Luiz Santiago 22 de janeiro de 2018 - 16:48

Eu uso uma das milhões de versões do YTS ou Yifi, mas esses do Godzilla eu tenho um torrent que meu irmão achou pra mim tem uns dois anos. É aqueles Umbrellas, com um pack de arquivos dentro. Alguns não tem mais seed, mas eu deixo aqui rodando pra ver se acha. Os que acabam baixando eu vejo. O último da Mothra não deu certo, daí eu vi online mesmo, mas com legendas em inglês.

Luiz Santiago 22 de janeiro de 2018 - 01:01

Cara, só por torrent mesmo, nos becos escuros da internet.

Responder
Junito Hartley 20 de janeiro de 2018 - 15:26

Como vc bem disse na critica, o filme so melhora no final quando chegam na terra, particularmente eu gostei muito dos traços do desenho e achei o monstrão original poderoso como deve ser, esperar agora pelo resto, e que parem de enrolar com toda aquela conversa tecnológica

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Luiz Santiago 20 de janeiro de 2018 - 16:04

Cara, aquele final, quando o VERDADEIRO bichão aparece… aquilo foi lindo, muito lindo. Dá até emoção em ver nosso lagartão atômico de volta. TOMARA que foquem na essência dos kaijus nos outros dois filmes, deixando todo esse preparo inútil de lado.

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JJL_ aranha superior 21 de janeiro de 2018 - 22:49

Aposta quanto que vão colocar o king ghidorah ou o destroyah pra fazer os terráqueos primitivos se arrependerem de ter derrotado o godinez?! Rsrsrsrs

Responder
Luiz Santiago 21 de janeiro de 2018 - 23:08

HAHHAHAHHAHHA já tô pensando no nível da porrada aqui.

Responder
JJL_ aranha superior 22 de janeiro de 2018 - 00:05

Tripas de kaiju espalhando doença, os terráqueo vê a situação e pensa “do you fucking brincation with me”

JJL_ aranha superior 22 de janeiro de 2018 - 00:05

Tripas de kaiju espalhando doença, os terráqueo vê a situação e pensa “do you fucking brincation with me”

StrikerX 20 de janeiro de 2018 - 12:13

Achei o filme muito chato, enrolação o filme o filme todo com aquela baboseira tecnológica espacial que ninguém liga.

Responder
StrikerX 20 de janeiro de 2018 - 12:13

Achei o filme muito chato, enrolação o filme o filme todo com aquela baboseira tecnológica espacial que ninguém liga.

Responder
Luiz Santiago 20 de janeiro de 2018 - 13:04

É como eu levantei no final: os últimos 15 minutos é que valem. Mas eles são bons demais. Concordo que tem toda aquela enrolação que ninguém liga. Mas no todo, foi um bom filme. Vamos ver se o resto da trilogia escapa dessa armadilha de encher linguiça.

Responder
StrikerX 20 de janeiro de 2018 - 17:52

Espero que sim.

Responder
StrikerX 20 de janeiro de 2018 - 17:52

Espero que sim.

Responder
Luiz Santiago 20 de janeiro de 2018 - 13:04

É como eu levantei no final: os últimos 15 minutos é que valem. Mas eles são bons demais. Concordo que tem toda aquela enrolação que ninguém liga. Mas no todo, foi um bom filme. Vamos ver se o resto da trilogia escapa dessa armadilha de encher linguiça.

Responder
Lucas Mendes 19 de janeiro de 2018 - 22:13

Vi o filme hoje. Realmente, a sensação de que quase o filme inteiro é pura enrolação é evidente, mas o final (me senti burro por não ter previsto esse plot twist, porém considerando que o filme seguia o princípio de “se for pra dar ruim, vai dar” não foi tão surpreendente assim haha) compensou bastante. Agora é esperar pelo resto da trilogia – ainda mais que não mostrou o resto do planeta. Afinal, o nome do filme é “Planeta dos Monstros.” Será que cada região do mundo possui um monstro gigante como dono? Será uma versão Kaiju do ET Bilu o dono da América do Sul? Um nerd pode sonhar, não? Excelente crítica como sempre, Luiz. Eu tava com saudades de comentar no site!

Responder
Luiz Santiago 19 de janeiro de 2018 - 22:34

Já pensou o ET Bilu??? HAUAHUAHAUAHUAHAUHAUAHUAHA

Com certeza o Rodan, Kamacuras, Dogora, Orga e Anguirus devem estar rondando a Terra em algum lugar. Por mim faziam uns 7 filmes disso tudo, quando mais bicho escroto melhor!!! HAHAHAHAH Eu adoro esses kaiju loko!

Saudades dos teus comentários, parceiro!
Não suma não, Mestre dos Magos!

Responder
Luiz Santiago 19 de janeiro de 2018 - 22:34

Já pensou o ET Bilu??? HAUAHUAHAUAHUAHAUHAUAHUAHA

Com certeza o Rodan, Kamacuras, Dogora, Orga e Anguirus devem estar rondando a Terra em algum lugar. Por mim faziam uns 7 filmes disso tudo, quando mais bicho escroto melhor!!! HAHAHAHAH Eu adoro esses kaiju loko!

Saudades dos teus comentários, parceiro!
Não suma não, Mestre dos Magos!

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