Crítica | Godzilla vs. Hedorah

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Lançado em 1971, Godzilla vs. Hedorah é uma das experiências cinematográficas mais bizarras para qualquer um que conheça o mínimo da franquia de Godzilla. Dirigido pelo novato Yoshimitsu Banno, que também assina o roteiro ao lado de Takeshi Kimura, este longa é o que mais fortemente sustenta uma bandeira ecológica na série do lagartão dentro da Era Showa, mais ainda do que a mensagem anti-testes nucleares (com um medo histórico justificável a tiracolo) que o Godzilla de 1954 trazia.

Como ideia geral para esta história, o roteiro nos traz um problema séria e persistente na nossa civilização: a poluição do ar, do solo e das águas pelos diversos dejetos químicos e outros lixos que geramos. O foco do enredo é o Japão, claro, mas a mensagem é Universal. Olhando diretamente para este problema, o público é apresentado aos primeiros personagens e ao espaço poluído onde a trama irá se desenvolver. Cenas de dejetos químicos são mostradas neste início, acompanhadas de uma canção-tema que confunde um pouco pelo fato de ser disco e ter uma representação artística interessantíssima, ambas as coisas, porém, totalmente fora daquilo que esperamos em um kaiju.

O monstro dessa vez é um alienígena que veio para a Terra em um meteoro e acabou se desenvolvendo através da enorme quantidade de lixo nos oceanos. Como estamos falando de um filme de Godzilla, o que se entende por justificativa verídica é na verdade uma mistura de alguns fatos e termos reais com bobagens, exageros e distorções da ciência, o que serve muito bem à proposta do filme e nos faz aceitar rapidamente a existência desse slime feito de lixo e que vai evoluindo à medida que consome ainda mais poluição. Há uma aterradora cena (sério, é algo típico de um filme B mas é bem assustador, num sentido bem específico) do bicho sugando a fumaça de uma fábrica. Ao mesmo tempo em que isso é engraçado — parece que ele está fumando — dá medo pela ideia que representa, e para ajudar, a edição de som nessa cena é bem bacana também.

Quando o Godzilla enfim aparece para enfrentar Hedorah, as coisas começam a ficar mais engraçadas. Quase tudo a partir desse ponto provoca o riso ou deixa de fazer sentido, a começar do núcleo humano, com uma decisão mais estúpida que a outra (e um menino gênio que não convence em absolutamente nada) e seguindo para o próprio comportamento do lagartão — especialmente com a voadora proeza que ele faz no final — e para a própria estrutura do longa, com direito a uma cena completamente inútil numa boate onde um personagem vê os visitantes dançando com cabeça de peixe; cenas de animação com didática e parcialmente interessante função educativa e, por fim, uma trilha sonora que deveria soar assustadora ou emular algo ligado ao barulho de fábricas mas acaba parecendo um tema circense.

Eu não me lembro de ter rido tanto assistindo a um filme de Godzilla como fiz aqui. Apesar de trazer coisas realmente ruins por parte do roteiro, não dá para tirar do filme o fato de ele ser extremamente criativo e de ter uma cara cult (no sentido de ser tão ruim que se torna “bom”) que é difícil resistir. Misturar lições ecológicas com bobagens científicas, Godzilla se comportando de maneira estranha, um monstro alien feito de lixo, disco e uma porção de falsos finais não é algo que vemos sempre nos filmes do personagem. E eu que achava que A Vingança de Godzilla era o filme mais “diferentão” da série. Oh, a inocência…

Godzilla vs. Hedorah (Gojira tai Hedora) — Japão, 1971
Direção: Yoshimitsu Banno
Roteiro: Yoshimitsu Banno, Takeshi Kimura
Elenco: Akira Yamauchi, Toshie Kimura, Hiroyuki Kawase, Toshio Shiba, Keiko Mari, Yoshio Yoshida, Haruo Suzuki, Yoshio Katsube, Susumu Okabe, Kentaro Watanabe, Wataru Ômae, Tadashi Okabe, Shigeo Katô, Takuya Yuki, Eisaburo Komatsu
Duração: 85 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.