Baseado em longevo mangá dos irmãos Yuko e Shin Kibayashi, que escrevem sob o pseudônimo compartilhado Tadashi Agi, Gotas Divinas é uma coprodução americana, francesa e japonesa falada simultaneamente nas respectivas línguas e comandada pelo francês de ascendência vietnamita Quoc Dang Tran, que tenta levar, em forma de série, o sofisticado e normalmente caro e inacessível mundo dos vinhos para o alcance do público geral. Trata-se, na verdade, da segunda adaptação live-action do mangá, com a primeira, uma produção japonesa, tendo ocorrido em 2003, com nove episódios ao longo de uma temporada. Seja como for, tanto nos quadrinhos quanto no audiovisual, não é fácil trabalhar um drama focado no quase exclusivo mundo da alta enologia sem ou diluir os elementos mais técnicos ou afastar potenciais espectadores ao justamente manter-se agarrado à terminologia específica da área.
A primeira temporada de Gotas Divinas – que tem começo, meio e fim bem definidos e, em princípio, dispensa uma segunda – parte da premissa modificada do mangá que coloca duas pessoas em competição pelo direito de herdar a adega multimilionária de Alexandre Léger (Stanley Weber), um famoso crítico de vinho francês residente no Japão que é claramente a versão ficcional do americano Robert Parker, e que morre logo no começo. De um lado, temos Camille Léger (Fleur Geffrier), filha de Alexandre que não vê o pai há décadas e, de outro, Issei Tomine (Tomohisa Yamashita), o mais brilhante pupilo de Alexandre, a primeira sofrendo de um bloqueio etílico que a acomete de surtos quando ela bebe álcool em razão de um trauma passado, mas que treinava com o pai para identificar aromas quando criança, demonstrando um talento nato que a faz “ver” o que cheira, e o segundo um dedicado estudante já reconhecido como crítico de vinho que é extremamente técnico a ponto de colecionar amostrar de terra das vinícolas do mundo, mas sem ter um dom nato. É o clichê do instinto versus técnica que se torna mais clichê ainda – e um tanto quanto estereótipo também – quando o talento nato é da francesa e a técnica e dedicação são do japonês.
Diferente do mangá, cujo teste determinado pelo crítico de vinho morto é bem mais longo, na temporada ele é reduzido a três provas apenas que colocam os dois em conflito imediato, mas que permite o desdobramento narrativo em dramas pessoais separados de Camille e Issei. Camille precisa lutar para compreender e reconciliar aquilo que sabe do pai por seu contato há mais de 20 anos e pelo que sua mãe fala dele para ela, além da origem do trauma que a impede de beber e, claro, seu completo desconhecimento prático sobre vinhos que começa a ser preenchido graças à ajuda de Thomas Chassangre (Tom Wozniczka) e Philippe Chassangre (Gustave Kervern), filho e pai da vinícola francesa que leva o sobrenome deles e que era onde Camille treinava com seu progenitor quando muito jovem, além de Luca Inglese (Diego Ribon), um restauranteur amigo de Alexandre que a ajuda no Japão com acesso a vinhos e à sua equipe, mas que tem intenções escusas. A velocidade com que tudo acontece para Camille esgarça a suspensão da descrença, pois ela vai de abstêmia a especialista quase que em um piscar de olhos, já que a passagem temporal na série não é das melhores, mas somos obrigados a aceitar essa aparente correria pelo bem da história.
Por seu turno, Issei tem seu próprio drama familiar a enfrentar, com sua mãe, uma rígida executiva submissa a seu pai, patriarca da família, recusando-se a aceitar que ele trace esse caminho “inferior” de vinhos e seu pai amoroso sendo afetado no processo. Nesse lado da história, o drama é mais puro, mais realista, mais honesto, sem grandes transformações como acontece com Camille em seu treinamento inicial, mas que também acaba mergulhando de cabeça no mais puro clichê óbvio – daqueles assim tão evidentes que o espectador mata de cara nos primeiros segundos – que só não é pior, porque não demora muito a ser revelado, alterando, então, a dinâmica entre Issei e Camille.
O design de produção é sofisticado como o tema pede, mas sem ser nariz em pé como o tema normalmente é encarado por aí. Aliás, nesse sentido, há uma crítica boa e sutil sobre os especialistas em vinho e sobre a indústria vinícola em geral e ao poder criador e destrutivo de guias de vinho em particular, que permanece constantemente em segundo plano, volta e meia aflorando com mais força, notadamente nos dois episódios finais. Da mesma forma, o orçamento parece ter sido generoso, considerando as filmagens em locação no Japão, na França e na Itália, com atores multinacionais e o uso natural de três línguas constantemente, por vezes até mais, como acontece também em Pachinko, outra série do Apple TV. E, claro, há o aspecto didático sobre vinhos em geral que os roteiros conseguem abordar sem eles serem “enochatos” que é como eu costumo chamar meus amigos adoradores de vinhos que ficam horas discutindo aromas, gostos, retrogostos e tempo de guarda das garrafas que experimentam em seus rituais quase litúrgicos que eu assisto de longe rindo internamente.
Confesso, porém, que nem Fleur Geffrier, nem Tomohisa Yamashita conseguem construir personagens realmente cativantes com o material que lhes é entregue, pois os dois acabam potencializando, sem disfarces, justamente os lados estereotipados de cada personagem, com pouco desenvolvimento que realmente os tire desses quase transes performáticos. De forma alguma eu os considero ruins, mas faltou naturalidade aos dois, o que resulta em Camille e Issei sendo personagens secos, duros, que só funcionam mesmo quando estão em conflito aberto. É como ver dois atores presos em camisas de força, sem conseguir realmente compreender seus personagens, algo que considero mais culpa dos roteiros e da direção de elenco por parte de Oded Ruskin, do que dos atores, ainda que eles obviamente também tenham contribuído para essa minha impressão.
A primeira temporada de Gotas Divinas, entre trancos e barrancos, consegue trazer à tona um assunto hermético, caro e sofisticado em destruir a paciência do espectador que pouco ou nada conhece de vinhos. É sem dúvida interessante e inusitado até aprender um pouco sobre a matéria na medida em que a história avança e a temporada consegue fazer um bom trabalho para tornar esse jornada enóloga palatável para qualquer um e potencialmente até agradável o suficiente mesmo para aqueles que têm adegas climatizadas (não estou falando daquelas “adeguinhas” tipo frigobar não!) em casa repletas de garrafas raras que só podem ser abertas em anos específicos. A adaptação de Quoc Dang Tran não é exatamente vinho de guarda, estando mais para um Beaujolais Nouveau que deve ser consumido imediatamente sem firulas e sem pensar muito. E não há nada de errado nisso.
Gotas Divinas – 1ª Temporada (Drops of God – EUA/França/Japão, de 21 de abril a 02 de junho de 2023)
Criação: Quoc Dang Tran (com base em mangá de Tadashi Agi e Shu Okimoto)
Direção: Oded Ruskin
Roteiro: Quoc Dang Tran, Clémence Madeleine-Perdrillat, Alice Vial
Elenco: Fleur Geffrier, Manon Maindivide, Tomohisa Yamashita, Tom Wozniczka, Stanley Weber, Luca Terracciano, Diego Ribon, Azusa Okamoto, Gustave Kervern, Cécile Bois, Margaux Châtelier, Makiko Watanabe, Nanami Kameda, Satoshi Nikaido, Kotaru Uchiyama, Antoine Chappey, Masane Tsukayama, Lidia Vitale, Kyoko Takenaka
Duração: 430 min. (oito episódios)
