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Crítica | Gotas Divinas – 2ª Temporada

Um retorno ao exclusivo e sofisticado universo vitivinicultor.

por Ritter Fan
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  • spoilers. Leiam, aqui, a crítica da primeira temporada.

Só comecei a assistir a primeira temporada de Gotas Divinas depois do anúncio de sua renovação e, quando acabei, fiquei sem entender o porquê de uma segunda temporada. Afinal, a primeira, apesar de não ser exatamente brilhante, conta uma história bem fechada, sem pontas soltas, que consegue trabalhar eficientemente o mundo consideravelmente inacessível e hermético da alta enologia com base em longevo mangá dos irmãos Yuko e Shin Kibayashi, que escrevem sob o pseudônimo compartilhado Tadashi Agi. Uma segunda temporada, pensei logo, teria que forçar a barra para justificar sua existência e isso nunca é um bom sinal. Quando comecei então o conferir o segundo ano, fiquei ainda mais apreensivo quando o advogado de Alexandre Léger (Stanley Weber), três anos depois do encerramento da primeira história, hesitantemente dá um presente de aniversário aos meios-irmãos Camille Léger (Fleur Geffrier) e Issei Tomine (Tomohisa Yamashita): uma garrafa sem rótulo com uma carta do pai desafiando-os a descobrir a origem desse vinho que ele considera divino, o melhor já produzido, algo que ele próprio nunca foi capaz de fazer.

Imediatamente revirei os olhos, achando que a temporada seria uma reedição da primeira, só que, agora, com apenas uma investigação enóloga, o que me deixou com pouquíssima vontade de desbravar o restante, especialmente diante da reação imediata dos irmãos reconciliados, que faz Issei decidir encarar o desafio e Camille fugir dele de forma a também fugir do fantasma do pai, o que os afasta novamente. Mas eu perseverei e, para minha completa surpresa, o segundo ano da série não só não é uma “caça ao tesouro”, como consegue, no final das contas, ser mais interessante do que o primeiro, por ter coragem de lidar com a vida como ela é, ou seja, uma sucessão de escolhas em que cada uma delas pode gerar consequências dramáticas e, às vezes, sem volta. É, por assim dizer, uma ousada abordagem que não tem meias palavras e que não tenta dourar a pílula, com Camille e Issei, cada um de seu jeito, lidando com o passado e sofrendo com isso no presente.

Estruturalmente a temporada é dividida em três grandes momentos. Os três primeiros episódios – na verdade os dois primeiros e nem a metade do terceiro, ainda bem! – lidam com a investigação sobre a origem do tal vinho misterioso, com os os demais até o final do quinto lidando com os conflitos internos da família georgiana que fabrica o vinho divino que Camille e Issei tentam negociar a apaziguar. E, finalmente, os três episódios finais, então, fazem a narrativa convergir em um concurso de primeiras safras que Camille manipula de maneira a divulgar o vinho georgiano. Perpassando toda a história, de maneira semelhante ao trauma passado de família que faz com que Camille passe mal tomando álcool que foi abordado na primeira temporada, agora vemos Issei lidando com seu medo de escuro, uma novidade que incomoda por ser tirada do chapéu, mas que tem desenvolvimento devastador que compensa a invencionice. Com isso, os roteiristas conseguiram criar uma temporada com ritmo constantemente engajador, mesmo com as idas e vindas entre Camille e Issei e o diretor Oded Ruskin, por seu turno, estabelece uma fluidez que encaixa com competência as três (quatro, na verdade) histórias e que, no final, resultam em um efetivo encerramento da história, ou assim eu espero.

Até mesmo Geffrier e Yamashita, que me pareceram meio enclausurados na primeira temporada, melhoraram sensivelmente suas performances aqui, com roteiros mais preocupados em trabalhar o lado psicológico deles, cada um, de certa forma, amaldiçoado por suas respectivas famílias e tendo que lutar contra isso com todas as forças para não se perderem no lodaçal de gerações. Enquanto Yamashita aborda seu Issei de maneira introspectiva e densa, Geffrier se entrega por completo às emoções exteriores para construir sua Camille e ambos acertam em cheio, ainda que seja evidente, como na primeira temporada, que os clichês da francesa explosiva e do japonês comedio foram mantidos sem pudor algum.

Gotas Divinas veio como uma surpresa negativa, mas acabou tornando-se uma surpresa muito positiva que consegue fugir um pouco da prisão imposta pelos roteiros da primeira temporada para abraçar de vez seus protagonistas, com espaço, ainda, para que as lições vitivinicultoras – com direito até mesmo a um discurso ecológico bem presente – sejam passadas ao público leigo de maneira elegante e inteligente, o que ajuda a quebrar a natural barreira que existe entre esse universo complexo, caro e exclusivo e o universo modesto das pessoas comuns. Não há razão alguma – agora menos ainda – para haver uma terceira temporada, mas eu sei que não resistirei à tentação se houver…

Gotas Divinas – 2ª Temporada (Drops of God – EUA/França/Japão, de 21 de janeiro a 11 de março de 2026)
Criação: Quoc Dang Tran (com base em mangá de Tadashi Agi e Shu Okimoto)
Direção: Oded Ruskin
Roteiro: Clive Bradley, Sonia Moyersoen, Claire Lemaréchal, Simon Jablonka
Elenco: Fleur Geffrier, Tomohisa Yamashita, Tom Wozniczka, Gustave Kervern,  Cécile Bois, Antoine Chappey, Makiko Watanabe, Satoshi Nikaido, Tornike Gogrichiani, Ia Shugliashvili, Diego Ribon, Luca Terracciano, Kyoko Takenaka
Duração: 339 min. (oito episódios)

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