Crítica | Gotham – 5X02: Trespassers

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

“Quem seria policial em uma cidade como essa?”, aponta um dos criminosos mostrados em Trespassers, segundo episódio da última temporada de Gotham. O Capitão Gordon (Ben McKenzie) e companhia, após o chamado de ajuda por um menino morador dessa cidade quase pós-apocalíptica, redescobrem um mundo perdido para além da zona de segurança ainda mantida pelos policiais do GCPD. Os antagonistas não são os personagens típicos, monstros de circo, mas monstros mais tangíveis, associando-se ao horror cru e não mais a fantasia de criaturas entre o grotesco e o mágico. Apesar, porém, de subtender uma noção mais aprofundada de moralidade, em meio a uma sociedade que deixou de ter regras teoricamente, os envolvimentos interpessoais traçados com o protagonista são muito mais superficiais, redundantes até, que realmente relevantes para justificar, em outros campos que não o de reconstrução de atmosfera, esse enredo.

O único ponto que ganha espaço para aproveitamento, surpassando a superfície morna aparente, é o do relacionamento entre Jim e Barbara (Erin Richards) – que acabara de perder sua melhor amiga e amante -, devido justamente as interações mais aproximadas entre os dois personagens. Mesmo assim, o que Trespassers busca é a desconstrução do mito, vide a passagem da mulher, na sua última troca com Gordon, chamando-o de “assassino”. O capítulo abrange esse pensamento de modo desajustado, embora um conteúdo ainda exista. As cenas de James dentro da casa mal-assombrada, assim como são muito úteis para embasar essa Gotham extremamente rica, quase como um videogame preenchido por missões secundárias espontaneamente surgindo, igualmente reforçam uma ideia de sobrevivência, agora, ser maior que a ideia de herói. O personagem simplesmente abandona o que quer que estivesse acontecendo naquele ambiente vil.

Uma vilã, mais de quadrinhos, assassina os invasores do seu lar, espalhando-os pelo cenário. Uma fantasma, menos de quadrinhos, arranca os dentes, os dedos e incinera os corpos dos invasores da sua morada. As gangues se enfrentam. A Gotham primitiva revigora a morbidez da série e, comandando a direção do episódio, Louis Shaw Milito opta por muitos planos holandeses e ângulos mais acentuados, incentivando o espectador a desbravar o cenário, o ambiente, de outras formas que não as comuns. Trespassers perde, entretanto, uma excelente oportunidade para colocar Gordon, junto as crianças resgatadas, contra Gotham como uma terra de ninguém, mas a pé. O que quer que esteja acontecendo com o Charada (Cory Michael Smith), ademais, aparenta estar no lugar errado, insuficiente. Será que as cenas de Year Zero, capítulo passado, deveriam ter se unido a essas, para aumentar a importância dos segmentos dentro desse episódio em questão?

Já Bruce Wayne envolve-se em uma sub-trama muito mais interessante, resumida narrativamente a um reencontro com Ivy (Peyton List), aprisionada por um grupo que está revoltado com as mortes de seus iguais, mortos enquanto à procura de ajuda com “a bruxa”. O co-protagonista também anseia a mesma coisa, uma assistência, em vista da condição médica de Selina, impedida de andar e, consequentemente, de se importar com a vida. David Mazouz possui mais presença do que de costume, confrontando a personagem de uma maneira ríspida, substituindo o sentimentalismo óbvio por uma concreta aceitação do que as pessoas se tornaram – no caso, uma garota antes indefesa virou uma cruel assassina de homens. Camren, por sua vez, transmite natural apatia, conservada pelo texto que retoma sua jornada com Ivy. Gotham ultrapassa, novamente, uma complexa linha entre o natural, da cura médica, e o místico, da cura improvável.

Gotham – 5X02: Trespassers (EUA, 10 de janeiro de 2019)
Showrunner: Bruno Heller
Direção: 
Louis Shaw Milito
Roteiro: 
Danny Cannon
Elenco: 
Ben McKenzie, Donal Logue, Robin Lord Taylor, David Mazouz, Cory Michael Smith, Camren Bicondova, Sean Pertwee, Erin Richards, Peyton List, Chris Chalk, Alex Morf
Duração: 
44 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.