Crítica | Gotham – 5X11: They Did What?

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

O que Bruno Heller, showrunner de Gotham, encaminhou para o seriado que assina, ao menos em suas últimas temporadas, poderia ser discutido por muito tempo entre nós, porque esse é um caso complicado. E várias nuances estariam entrando nessa conversa complexa, como o tom proposto, por exemplo, que mudou consideravelmente com os anos, partindo de uma pegada visivelmente noir para assumir uma fantasia mais escrachada, contendo confrontações ao tentar visar uma conexão entre a seriedade e o absurdo. Outra questão é a proposta de Gotham, partindo de uma série com enfoques claros em Jim Gordon (Ben McKenzie), o grande “protagonista”, para um seriado meramente preocupado em construir mitologia, mas de uma maneira, às vezes, quase vazia. O que importa, atualmente, é o Batman nascer. Olham para o futuro e se esquecem do presente. O pior não é o estranhamento que uma temporada passou a ter com a outra, pois esta é uma condição que temporadas distintas assumem em termos artísticos, mas quando uma única e com tão poucos episódios consegue descambar, e simples assim, do promissor para o mequetrefe.

Peguemos a primeira cena do primeiríssimo episódio dessa quinta temporada, a conclusiva do seriado. Gotham, no caso, iniciava o que seria o seu fim com um tom épico, enquanto personagens centrais da série preparavam-se para um confronto decisivo. O Pinguim (Robin Lord Taylor), o Charada (Cory Michael Smith), Bullock (Donal Logue) e Jim Gordon. Tais eventos, prenunciados no começo, são enfim retomados, apenas para que o clima subitamente transforme-se em uma blasé troca de tiros sem consequências. Ledo engano, o Pinguim é atingido no olho por estilhaços de uma granada qualquer. Pois, mais uma vez, o que importa para a série é construir mitologia, chegar ao ponto que os quadrinhos originais tornaram clássicos, como Oswald Copplebott usar um monóculo. Que bobagem! O passado, quando algum espírito movia a narrativa, parece distante, porém, nem tanto. Essa atmosfera, aliás, não é a única coisa que muda, porque a continuidade supostamente entrou de greve. Enquanto antes os céus eram escuros, agora está de dia. Ou seja, quem mudou propositadamente isto – eis a única resposta – nem sabe como construir uma tensão.

E quem disse que os problemas estavam morando só na discrepância entre um ótimo começo de temporada e um tenebroso fim de temporada – mais um episódio nos aguarda, porém, é esse o que conclui as tramas do conjunto em si, enquanto o próximo será uma espécie de epílogo fetichista – enganou-se. Eis a última piada do Coringa (Cameron Monaghan) – um vilão secundário na temporada, agora ausente -, pois Carol Banker, responsável por comandar esse embuste aqui, consegue pular de um suco de caixinha vencido que Kenneth Fink deixara em I Am Bane – um episódio que terminava com bons cliffhangers – para uma água de esgoto. They Did What? é um capítulo sem o menor ritmo e sem a menor tensão, encerrando tramas – se é que podem ser vistas como tramas – de um modo pior que muita novela ruim costuma fazer. E nem comento sobre a temporada ter esquecido do ótimo Donal Logue, rejeitando que o ator participasse mais ativamente das coisas. Os únicos atores que conseguem sustentar alguma carisma ainda são os que vivem Nygma e Copplebott, únicos suspiros de charme para uma série que já expirou e até está fedendo.

Uma outra questão – e que é mais comum em seriados do que parece, pois até Game of Thrones contém isso -, é a montagem extremamente picotada. O que piora – sempre piora – é essa edição simplesmente cortar tensão, impedir as tramas de absorverem os seus impactos. Os ares são genéricos. Enquanto armas são apontadas para os personagens, ninguém, entretanto, se importa. Um clímax, em decorrência desse formato com cara, cheiro e cor de televisão comandada por algum estagiário, não é construído. Os equívocos, por outro lado, moram também no texto e em outros aspectos. Já bastando um roteiro expositivo, com sentenças que reiteram o que já sabemos surgindo em meio a sequências agitadas, Carol Banker grava as cenas de ação sem saber como coordenar ação, criando uma confusão despropositada. O enfrentamento a Bane (Shane West), combatido por Selina (Camren Bicondova) e Bruce (David Mazouz), é desastroso, assim como os próprios caminhos narrativos que Gotham encontra para solucionar sua temporada, por meio de uma enorme junção de pensamentos sem imaginação ou esperteza, correndo para chegar ao fim.

Em uma cena patética, por exemplo, Barbara nomeia a sua filha com o seu próprio nome – para chegar a outro ponto dos quadrinhos, a Batgirl -, porém, colocando mais o de Lee após o seu. Gotham poderia ter ido para a zona de conforto mesmo, que seria matar Barbara, deixando Gordon para nomear sua garota com o nome da mãe – ou quiçá aceitar o narcisismo da personagem como sendo a graça do negócio, mas sem tentar passar a perna no espectador com uma conclusão redentora tão boçal. Os impasses com os antagonistas também sofrem com essa incompetência dos roteiristas, que não trazem novas questões ou se reinventam, pautando-se apenas nas previamente apresentadas: o sequestro do bebê de Barbara (Erin Richards) e o avanço do Exército sobre o GCPD. Como tudo que é ruim piora, as interpretações dos vilões são fraquíssimas. Jaime Murray já é caricata o suficiente, porém, Shane West não consegue ser melhor não. Os trejeitos que investe no vilão, como segurar no colete, são parecido demais com os de Tom Hardy em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, só que em uma versão pornográfica e com um mísero orçamento.

O grande momento do episódio, para ao menos chegarmos aqui em um clímax, é o seu cúmulo pretensioso. Para parar os avanços das tropas militares, Bruce e Selina optam por explodir a Torre Wayne. Que bobagem! Os roteiristas de Gotham, esse negócio, parecem criancinhas brincando de serem responsáveis por uma série conhecida, porque é impossível alguém experiente, no auge do campeonato, encontrar essa como a única conclusão possível para uma suposta guerra. They Did What? é um episódio, em outro plano amador, que enxergará arcos sendo concluídos em diálogos redundantes, o que, curiosamente, exemplificará o vazio dessas trajetórias, especialmente no que se refere à temporada em questão. Todos os personagens precisam ter o momento de suas vidas, aquele instante onde, em um monólogo “engrandecedor”, nos remeterão às jornadas que a série construiu. Tão perdida tornou-se Gotham, contudo, que o seu último capítulo avançará 10 anos, apenas para explodir os seus espectadores com tudo aquilo que eles esperavam: o Batman. Um gigantesco fan service nos aguarda portanto, mas eis a única coisa que restou mesmo de Gotham.

Gotham – 5X11: They Did What? (EUA, 18 de abril de 2019)
Showrunner: Bruno Heller
Direção:
 Carol Banker
Roteiro:
Tze Chun
Elenco: 
Ben McKenzie, Donal Logue, Robin Lord Taylor, David Mazouz, Sean Pertwee, Cory Michael Smith, Camren Bicondova, Erin Richards, Jaime Murray, Morena Bacarin, Shane West
Duração: 
44 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.