Crítica | Gotham D.P.G.C.: Alvos Fáceis (2003)

A parceria de Ed Brubaker, Greg Rucka e Michael Lark em Gotham D.P.G.C. (Gotham Central no original e também conhecido por aqui como Gotham City contra o Crime) foi prolífica e memorável. Foram 40 números da série entre 2002 e 2006 que, apesar de nunca terem sido sucessos de venda, ganharam os devidos elogios da crítica por tentarem algo realmente novo: a luta contra o crime em Gotham a partir de sua força policial. Batman está presente na série, mas ele é visto como aquele ser quase mítico de poucas palavras e muita eficiência que esporadicamente entra em contato com a polícia e/ou ajuda os investigadores, nunca tendo papel verdadeiramente proeminente.

Mais interessante ainda é que essa Gotham City é a Gotham City canônica dos quadrinhos, pelo que toda a galeria de vilões do Homem-Morcego está lá, começando, logo na primeira edição, com o Sr. Frio e continuando com grandes nomes como Duas-Caras e, claro, o Coringa. Alvos Fáceis, arco de quatro edições publicado entre o final de 2003 e o começo de 2004, foca justamente no Palhaço do Crime, inteligentemente trabalhando a narrativa de forma que a presença física do vilão não seja constante. Para conseguir isso de maneira eficiente, Brubaker e Rucka criaram uma trama em que o Coringa espalha o terror na cidade por meio de assassinatos que ele executa com um rifle de longo alcance, com a primeira vítima sendo o prefeito para logo chamar atenção. A partir daí, é uma corrida contra o relógio para tentar identificar o próximo alvo e, claro, para localizar o ensandecido criminoso que só aparece de verdade na última página da terceira edição e ao longo de todo o último número.

Apesar de sempre terem trabalhado com super-heróis, os co-autores notabilizaram-se por seus projetos mais autorais, carregados de realismo mesmo quando elementos sobrenaturais eram adicionados à narrativa. E é essa mistura que eles brilhantemente trouxeram para Gotham D.P.G.C., com diálogos realistas por parte dos policiais que vivem um dia-a-dia que muito facilmente podemos nos identificar, além de lidar com questões sócio-econômicas de toda cidade grande, como orçamentos, pobreza e corrupção. O lado super-heróico e super-vilanesco dessa história realmente fica em segundo plano, como é o caso do Coringa aqui. Ele é a mente doentia por trás da ameaça à cidade, mas o que realmente interessante, aquilo que efetivamente movimenta a história é o material humano que transita pelas páginas e que nos traz problemas mundanos como preocupação com entes queridos e aquele sentimento de impotência diante de situações impossíveis, além dos obrigatórios atos de coragem.

E a arte de Michael Lark ajuda muito na transmissão de todo esse realismo. Tamanha é a importância do desenhista que Brubaker e Rucka, depois de, às duras penas, terem conseguindo autorização da DC Comics para prosseguir com o projeto, esperaram nada menos do que um ano até que Lark tivesse disponibilidade em sua agenda e a saída dele foi um dos fatores que levou ao fim da série. Seus traços são humanizados, ainda que rígidos e com efeito de inacabado, artifício fundamental para a necessária pegada neo noir que faz dessa Gotham uma cidade atemporal e que poderia ser qualquer cidade não fosse a presença esporádica de Batman, claro. E o Coringa de Lark é uma das melhores representações do vilão, já que o artista consegue retirar todo e qualquer traço exagerado de sua caracterização, mas sem apagar os elementos físicos que fazem o vilão ser o que é. Aqui, no lugar do Palhaço do Crime, temos mesmo um psicopata doentio que se refestela com o sofrimento alheio para alimentar sua inimizade com o Batman como se tudo fosse um jogo. Mal comparando, essa versão do vilão é muito mais afeita à frieza de John Doe em Seven do que qualquer versão cinematográfica até agora do personagem.

Alvos Fáceis é história realista de super-herói da melhor estirpe que nem sequer precisa recorrer a selos como Elseworlds ou coisa do gênero para fazer o que faz de melhor. Muito ao contrário, Brubaker, Rucka e Lark fazem questão de navegar ao redor de todas as armadilhas do gênero como se fosse um desafio pessoal. E é incrível perceber o quanto eles são bem-sucedidos nessa empreitada.

Gotham D.P.G.C.: Alvos Fáceis (Gotham Central: Soft Targets, EUA – 2003/4)
Contido em: Gotham Central #12 a 15
Roteiro: Ed Brubaker, Greg Rucka
Arte: Michael Lark
Cores: Lee Loughridge
Letras: Clem Robins
Editoria: Matt Idelson, Nachie Castro
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: dezembro de 2003 a março de 2004
Editora no Brasil: Panini Comics
Datas de publicação no Brasil: novembro de 2006 (DC Especial #11 – Gotham City contra o Crime: Alvos Fáceis) e agosto de 2016 (Gotham D.P.G.C. #2)
Páginas: 93

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.