Crítica | Gotti: O Chefe da Máfia (2018)

“Nova Iorque, a melhor cidade no mundo (com sotaque carregado)”.

O quanto um longa-metragem consegue ser desmontado por causa de um “único” equívoco que, nesse caso, é ser muito vago por ser muito confuso? A montagem é um processo cinematográfico que, em casos mais graves de sua execução, pode extrair, integralmente, qualquer substância existente em um projeto – como se o roteiro de Gotti também não fosse desconexo de qualquer racionalidade. Uma obra anti-narrativa de certa forma. O rejeito a uma coesão cronológica, enquanto mistura passado, presente e futuro de maneira desengonçada. A premissa que é completamente esquecida de tempo em tempo, caso realmente existiu, em algum momento, uma premissa. Os desenvolvimentos ignorados de personagens, assim como os desenvolvimentos de relacionamentos, desencontrados no espaço-tempo. O real problema na execução de Gotti existe por essas características decorrerem meramente do erro, não da intenção, enquanto, na cabeça de Kevin Connoly e apenas dentro dela, o seu filme parece ser um dos maiores estudos acerca de um personagem importante no cenário das organizações criminosas estadunidenses.

John Travolta, uma das grandes estrelas da indústria cinematográfica norte-americana, interpreta diversas fases da carreira “profissional” de John Gotti, um dos grandes gangsteres ítalo-americanos que já comandaram o crime na cidade de Nova Iorque. Kevin Connoly realmente acreditou que, ao intercalar três décadas da vida do mafioso, mesmo sem nenhuma intenção narrativa evidenciada, um envolvimento emocional intensificado, ganho em consequência desse suco de frutas apodrecidas, encontraria o sucesso que Martin Scorsese, por exemplo, alcançou em tantos projetos encabeçados pelo aclamado cineasta. Os primeiros minutos já realçam, em um desespero por alguma sabedoria narrativa inexistente, complicando o que poderia ser mais simplificado e melhor resolvido, a incompreensão dos responsáveis pelo longa-metragem sobre a necessidade que o cinema possui, na maioria das situações, por alguma comunicação com o espectador. A péssima maquiagem é o menor dos problemas. A exposição ordinária, começando com uma narração que não comenta sobre nada que o longa-metragem comenta, também.

O curioso  “na sombra do pai”, presente no título original, é a única pista que possuímos sobre o conteúdo dessa obra cinematográfica. O relacionamento de John Gotti com o seu filho, interpretado por Spencer Lofranco, é supostamente primordial no que quer que o filme busque criar, entretanto, assistindo ao trailer para conseguir captar o mínimo de discernimento diante do que acabara de ser, corajosamente, visto por mim, conclui que a premissa – um conflito entre um pai mafioso e o seu filho, que o sucede no poder – é, na verdade, enxergada pelo próprio projeto como uma sub-trama qualquer, sombreada. As várias ascensões e as várias quedas de nomes grandiosos. A confusão desmerece qualquer possibilidade de apelação da obra ao espectador, perdido em meio a situações que se desvencilham indiscriminadamente em outras, como se causas de um determinado período da vida do protagonista gerasse consequências em um outro contexto, sem nenhuma correlação na verdade. Gotti, no entanto, não seria necessariamente competente caso não fosse demasiadamente estragado por uma incompetência generalizada.

Uma jornada incoerente, sem conseguir ordenar acontecimentos, não intencionando-os a qualquer discurso, mesmo raso, o que proveria, no mínimo, alguma espécie de ritmo ao longa. Os poucos momentos que parecem conter algum sentido, pelo contrário, são insuficientes para sustentar qualquer envolvimento do público, porque os personagens tornam-se rasos, a participação de alguns deles extremamente inconstante e a narrativa verdadeiramente frustrante. O diretor não aparenta estar contando alguma coisa ao mundo, senão momentos completamente passageiros e quase avulsos da vida de seu protagonista. John Travolta, paralelamente, sufoca um sotaque italiano muito carregado, proferindo um texto que busca uma seriedade nunca alcançada, em contrapartida, parecendo se tratar de uma paródia sacana, que nem é realmente engraçada, apenas entristecida e dolorosa ao espectador. Ao invés de abandonar, desvirtuar, rejeitar ou então aceitar, Gotti assassinou, sem querer, a linguagem cinematográfica, mas, ao menos, não saiu impune diante desse atentado inestimável aos deuses do cinema. Sob a sombra de Scorsese.

Gotti: O Chefe da Máfia (Gotti: In The Shadow of My Father) – EUA, 2018
Diretor: Kevin Connolly
Roteiro: Leo Rossi, Lem Dobbs
Elenco: John Travolta, Spencer Lofranco, Kelly Preston, Chazz Palminteri, Stacy Keach, Ella Bleu Travolta, William DeMeo
Duração: 105 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.