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Crítica | Graça Infinita, de David Foster Wallace

por Pedro Pinho
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Em uma antiga entrevista, David Foster Wallace fala sobre a recepção de seu romance de maior sucesso até então, Graça Infinita, abordando a notável extensão do livro, um calhamaço de mil e poucas páginas. Embora tenha sido muito bem recebido pela maior parte da crítica da época, David brinca com o comentário de algumas feministas, que classificaram o livro como uma tentativa de colocar seu falo na consciência dos leitores. Em meio a risadas, David arremata: caso aquilo fosse verdade, se trata de um nível de autoconsciência que ninguém gostaria de ter.

Concedida ao veterano Charlie Rose, a entrevista ocorreu, na verdade, durante o lançamento de outro livro, quando David já era amplamente conhecido como um dos autores mais relevantes em exercício nos Estados Unidos. Havia estourado um ano antes, com seu fálico Graça Infinita, que pelo profuso e notório impacto provoca dúvidas até mesmo em um resenhista contemporâneo. Entre elas, quais seriam razões responsáveis por levar tanta gente a dedicar tempo e esforço a um autor que tinha naquele apenas seu segundo romance, sem levar em conta, é claro, os inúmeros elogios que recebia da crítica especializada.

Poderia ser pela excentricidade do escritor, que na época circulava entre programas de rádio, televisão e manchetes de jornal, distribuindo comentários de bom humor que sobrevivem até hoje na internet. Inclusive no leitor de 2020, que sai da livraria com a gigantesca edição da Cia das Letras na sacola, quase um objeto decorativo em si, é possível atribuir algum crédito à personalidade de Foster Wallace, com sua ubíqua bandana estampada e colorida, escondendo parte do cabelo comprido: mais propriamente uma figura do Flower Power dos anos setenta do que um escritor avant-garde da década de noventa. É claro, nem isso basta para levar alguém a ler um livro desse tamanho. Seria insensato, todavia, descarta-lo. Mesmo que David não fosse o maior fã da situação, seu nome era um atrativo por si próprio, sobretudo em relação ao pequeno meio da literatura. Não são muitos escritores dos últimos anos que ganharam um filme de Hollywood com uma celebridade em seu papel, e por mais que o filme seja uma porcaria – quem foi o genial executivo de estúdio que escolheu Jason Segel pra interpretar Foster Wallace? – de maneira irônica, e meio piegas também, The End of The Tour retrata as dificuldades do escritor em lidar com a fama, além do sentimento expresso de que seus livros, bem como ele, eram mal entendidos.

E bote expresso nisso: é impossível assistir meia hora de entrevista com o escritor sem que ele faça algum tipo de comentário sobre estar preocupado com sua imagem em frente às câmeras – como em um trecho da mesma entrevista com Rose – ou sobre algum elemento de seus livros que não foi interpretado da maneira que ele gostaria. Em outra entrevista, essa realizada na época do lançamento de Graça Infinita, o entrevistador menciona a grande quantidade de críticos que o comparavam a Thomas Pynchon, uma comparação bastante justa, ao que David, no entanto, responde: “não li Pynchon nos últimos nove anos”, comentando em seguida outros autores que haviam o influenciado de fato. Em outro trecho da mesma entrevista, dada a um programa de rádio, o entrevistador se surpreende com a afirmação de que David não tinha a intenção, ao contrário do que seus críticos andavam comentando, de fazer um livro cômico e engraçado. Em vez disso, o escritor afirma ter sido levado pelo impulso de escrever algo que fosse “triste e extenso”. Ele não aceitava nem mesmo as alcunhas que usavam para descrevê-lo: geração x, pós-geração x, pós-moderno? David responde: ninguém realmente sabe o que essas coisas significam, e falam na esperança de que elas signifiquem alguma coisa por si próprias. O que não deixa de ser injusto: Foster Wallace conserva características bem sólidas e definidas dessas tendências, principalmente a ironia: senão em seu conteúdo, ao menos em seu estilo, de certo. E por mais que os impasses do escritor possam parecer um excesso de autocomiseração, toda a situação parece adicionar algo ao próprio livro: uma das questões colocadas em Graça Infinita é a dificuldade em se relacionar com a fama, com o excesso de atenção e com o sentimento de ser mal entendido. Isso, em si, é uma baita ironia. É ironia pra lá, ironia pra cá, ironia para todos os lados. Camadas e camadas de ironia, tipo um filme do Christopher Nolan.

Em um dos diálogos do já comentado The End of The Tour, o jornalista interpretado por Jesse Eisenberg se dirige à Jason Segel (ou, com muita boa vontade, David Foster Wallace) falando: “ninguém abre um livro de mil páginas por que o autor é um cara normal, você abre por que ele é genial”. Será mesmo? Boa parte do que escrevi até aqui, e já parece muito, tenta dar conta do que teria levado tanta gente a comprar Graça Infinita, hoje e na época em que foi lançado. O autor, a imprensa, a critica? Que tal o próprio livro? Ainda que alguns céticos possam duvidar, o livro provavelmente é a principal razão de seu próprio sucesso, e começa a soar como desatenção em excesso o fato de que ainda não me dirigi diretamente a ele. O que agora se faz urgente.

Em Graça Infinita, as fronteiras entre Canadá e Estados Unidos já não existem mais — a poderosa Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) se transformou numa União Europeia sincretista denominada ONAN, acrônimo para Organização das Nações da América do Norte. Uma enorme porção do continente se transformou num depósito de lixo tóxico e um violento conflito é travado entre separatistas do Quebec e as forças da Organização, para o qual a descoberta de uma arma letal pouco convencional pode ser o pretexto pela deflagração de uma guerra devastadora. A narrativa orbita o núcleo familiar disfuncional dos Incandenza, em que os filhos Hal, Orin e Mario e a mãe Avril vivem à sombra do patriarca James O. Incandenza, um cientista óptico que se tornou cineasta e cometeu suicídio após produzir um misterioso filme que, pela alta voltagem de entretenimento, leva seus espectadores à morte.

É complexo, por essência, desenvolver uma sinopse que dê conta das dezenas de tramas e centenas de personagens que se embrenham no livro. Prova disso é que, mesmo o resumo escrito pelo tradutor Caetano Galindo, no qual o meu foi levemente inspirado, ignora personagens e conflitos centrais do romance. Isso se deve ao fato de que, aqui, se deve questionar a ideia de “central”. David Foster Wallace (DFW a partir daqui) não pretendia trabalhar com uma ideia tradicional de conflito (plot), ou foco narrativo, ou pontos de vista, por motivos que ele apenas conseguiria explicar “se sentasse com você numa lanchonete durante duas horas”. À medida em que se fala do livro, entretanto, é possível absorver os pontos de onde parte a narrativa. O protagonista, ao menos um deles, é Hal Incandenza, o filho do meio da família e um promissor jogador de tênis juvenil. Eu apostaria que, entre os diversos pontos de vista, é no dele que passamos a maior parte do romance – somos apresentados a história por Hal, na neurastênica primeira cena que, no entanto, é o ponto mais longínquo em que chega a fragmentada linha temporal do romance. Orientada por uma contagem de anos que foi vendida às grandes corporações, a narrativa decorre em sua maioria no Ano da Fralda Geriátrica Depend, em que Hal cursa o último ano da Academia de Tênis Enfield (ATE) e espera para descobrir se seu futuro será no tênis universitário ou no profissional. A ATE é o espaço onde a maior parte da ação toma curso, e é nela que descobrimos a dinâmica da família Incandenza, e sobretudo o que nela parece, a primeira vista, oculto.

Embora a maioria dos autores coloque no primeiro romance coisas em que vinham pensando durante anos, DFW colocou no segundo – comenta um entrevistador, recebendo risadas como resposta. Era uma longa pausa desde que Wallace tinha estreado na literatura com The Broom of The System, quase dez anos entre 1987 e 1996, aos quais o autor diz ter dedicado um descanso da literatura avant-garde que vinha produzindo até então. Um longo período de tempo, muitas coisas a se colocar em perspectiva – assim se explicam as 1144 páginas. Muita gente tentou, e ainda tenta, identificar onde estão os elementos autobiográficos do livro, resultado de nove anos de autorreflexão. David jogou tênis quando criança, e jogou o suficiente para começar a enxergar beleza naquilo. Foi o número 17 num ranking regional, afirma um entrevistador, mas DFW rebate – ele provavelmente era o numero 4000 do país em sua idade, nada impressionante. Apesar de ter sido muito bom nos primeiros anos e considerado promissor, não se desenvolveu muito depois de um tempo, e ficou claro que o tênis profissional não era para ele. Não foi tão bom como Hal, mas como ele também se deparou com as próprias limitações muito cedo. Isso certamente tem um papel central no romance.

Como é notável, ainda que Wallace reclamasse amiúde de ser mal entendido, não faltaram tentativas de tentar interpreta-lo. Embora nem sempre suas influências estivessem claras para todo mundo, há quem arrisque descobrir. E se a tentativa de taxa-lo como pynchoniano fora prontamente negada, talvez os paralelos traçados, já por inúmeros outros resenhistas e acadêmicos, entre Graça Infinita e Hamlet parecem oferecer maior consistência. Um amigo que me acompanhou durante a leitura não gosta da comparação, e disse que a única coisa que você precisa saber pra pagarem pau pra você é que toda obra com conflitos familiares é hamletiana ou freudiana. Há alguma razão nisso, a hipótese não resiste a algumas comparações, Hal não é Hamlet, mas não parece absurdo que os arquétipos dos Incandenza sejam de origem shakespeariana: o relacionamento de Avril com seu irmão e tio dos garotos, Charles Tavis é bastante hamletiano. Além disso, a edição da Companhia das Letras estampa uma grande e sugestiva caveira na capa. Todavia, Hal como um protagonista pode ser comparado a Hamlet somente em um nível muito abstrato, ainda que ambos possuam questões essenciais bem delimitadas, e que sirvam como o compasso temático de suas respectivas histórias.

DFW se mostrou bem menos disposto a falar sobre outros elementos autobiográficos do romance, entre eles, a presença do vício em drogas e da luta com distúrbios mentais. No final da entrevista com Charlie Rose que mencionei anteriormente, Wallace parece assumir uma postura excessivamente defensiva ao ser perguntado sobre sua experiência com drogas e com depressão. Nada mais que compreensível, no entanto, nada mais ilustrativo também. O outro núcleo dramático de Graça Infinita tem muito a acrescentar a essa resenha, afinal, apesar de Hal ser viciado (todos os personagens do romance são) e isso desempenhar uma parte importante de sua construção, é em Don Gately que isso fica patente. Quem procurar vai encontrar muito resenhista por aí afirmando que, na verdade, Gately é o verdadeiro protagonista do romance, e que é seu desenvolvimento que produz os maiores insights. O que não deixa de fazer sentido, afinal, é ele que possui talvez um arco dramático mais bem definido. Mas vamos voltar um pouco atrás.

Disse anteriormente que era difícil fazer um resumo desse livro. Isso se mostra, agora, evidente: nem mesmo a sinopse oficial inclui Don Gately. Até seu papel de coprotagonista é garantido aos poucos, de maneira fragmentada. Afinal, por mais que DFW não procurasse, com esse romance, escrever algo notoriamente avant-garde, seu estilo e a sua maneira de composição não conseguem se afastar definitivamente disso. Ao falar sobre David Lynch e literatura avant-garde em geral, Wallace reafirma sua visão fragmentada da realidade, e sobre como era seu papel como escritor fragmentar o texto de forma a expressar com maior verve aquilo que estava no cerne das suas inspirações. Prova disso são as dezenas de páginas de notas que, no entanto, são indispensáveis para o romance. Não leu Graça Infinita quem não leu as centenas de notas do final. Ali existem informações essenciais sobre a trama – é um das maneiras que Wallace encontrou de fragmentar a realidade para o leitor. Gately aparece primeiro em um pequeno capitulo do livro, e reaparece aos poucos à medida que a trama caminha, conquistando um protagonismo tão central quanto do próprio Hal. Gately é a órbita do outro núcleo espacial do romance, a Casa Ennet de Recuperação de Drogas e Alcool de Enfield, que como o próprio nome diz, é uma clínica de reabilitação para viciados, cuja proximidade com a Academia de Tênis (Enfield) vai além da geografia. Anexado a Casa Ennet, existe um outro espaço proeminente no livro: o Alcoólicos Anônimos (AA).

Grande parte dos questionamentos de Wallace sobre “como viver a vida”, de fato, ganham maior expressão quando Gately está em foco, assim como as reuniões do AA e as interações dentro da casa Ennet. Fragmentado como é, é difícil incluir numa resenha todas as nuances do texto, além do que todos os personagens tem a acrescentar no entendimento geral de Graça Infinita. Se nem mesmo seu escritor estava mais disposto a ser entendido, a diversão do leitor deve se encaminhar para outras veredas. Odeio ficar voltando as entrevistas, já parece um vício para mim, mas algo que é importante sobre DFW é que é difícil sair incólume de um encontro com ele. É difícil não sair atrás de todas as entrevistas que ele já deu, de todas as opiniões que já emitiu. E se já deu alguma pista de quais inquietações o levaram a escrever o que escreveu, seu leitor é ainda mais fortuito.

Graça Infinita (Infinite Jest) – EUA, 1996.
Autor: David Foster Wallace
Editora: Companhia das Letras
Tradutor: Caetano Galindo
Páginas: 1144

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