Crítica | Grace and Frankie – 5ª Temporada

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores. 

Uma série em que o espectador pode assistir os veteraníssimos Jane Fonda, Lily Tomlin, Sam Waterson e Martin Sheen contracenando já é o suficiente para justificar sua existência, mesmo que uma ou outra temporada tenha um viés de queda em sua qualidade, como é o caso da quinta, a primeira a realmente escorregar. Já renovada para pelo menos mais uma, porém, a série tem todas as chances de reerguer-se, ainda que os sinais de fadiga façam-se sentir fortemente na temporada objeto da presente crítica, o que talvez sinalize a necessidade de mudanças.

O primeiro e mais saliente aspecto negativo da temporada é sua falta de coesão narrativa. No lugar de um grande arco, há uma sucessão de pequenas historietas costuradas nem sempre eficientemente debaixo de uma bandeira genérica que poderia intitulada de “o estremecimento da amizade de Grace e Frankie”, algo que obviamente já foi abordado antes, mas de maneira mais completa e fluida, sem que parecesse um pano de fundo apenas. Com isso, a natureza episódica da série fica bem mais óbvia, algo que se apresenta logo no início com a resolução a toque de caixa do cliffhanger da temporada anterior em que as duas se viram “sem teto”, com a venda da casa de praia delas pelos filhos. Desfeito o problema, a temporada volta ao padrão de sempre, mas sem uma cola genuína espalhada de maneira homogênea.

E, talvez justamente em razão disso, o tom cômico não funcione tão bem. No lugar de piadas recorrentes que se auto-alimentam ao longo da narrativa, como é o padrão de grande parte das demais temporadas, aqui os roteiros são menos felizes em manter o humor característico, recorrendo, também, a repetições do que já vimos antes mais de uma vez. Não tenha dúvida que há momentos muito bons, alguns de trazer gargalhadas até, como a entrevista que Grace dá debaixo de doses cavalares de medicamentos para TDAH, o sinal de trânsito cujo tempo Frankie quer mudar, o cachorro que Sol acaba comprando ou o bar gay no estilo Loucademia de Polícia, em que Robert entra, mas eles são esparsos e longe de completamente satisfatórios, como se a própria quadra de ases que capitaneia o elenco não estivesse convencida da qualidade dos textos.

Como em um efeito dominó, tudo aquilo que a temporada anterior havia feito em relação aos coadjuvantes da série, notadamente os filhos de Grace, Roberta, Frankie e Sol, voltam a ficar perdidos na temporada, sem uma função narrativa maior do que “colorir” determinados momentos como o conflito continuado entre Grace e Brianna na empresa de cosméticos e o casamento de Bud com Alison. Até mesmo Nick, o milionário sedutor, demora a dar as caras e é sub-utilizado na temporada até quase seu encerramento, quando teria sido muito interessante ver uma evolução mais ritmada para o relacionamento dele com Grace.

Quem leu meus comentários até aqui provavelmente concluirá que detestei a temporada, mas a verdade é que não, muito longe disso. As interações entre Fonda e Tomlin e entre Waterson e Sheen são os tesouros dessa série como deixei entrever no parágrafo de abertura e são eles que carregam a alma de tudo o que vemos aqui. Há muito tempo Grace and Frankie deixou de ser apenas a série dos “velhinhos” para sedimentar-se como uma sitcom que tem justamente o objetivo de quebrar todo o tipo de barreira e fincar-se no panteão de séries com sua própria personalidade independente do fator idade ou da curiosidade de sua premissa básica. Isso Marta Kauffman e Howard J. Morris, os showruuners, já conseguiram e esse mérito ninguém tira deles. Portanto, mesmo diante de uma temporada mais fraca, é um grande prazer vê-los desfilar na telinha lidando com situações inusitadas e fazendo o que fazem de melhor: encantar o público. Mesmo com roteiros menos do que perfeitos, é visível a juventude imortal dessas dessas senhoras e desses senhores, a beleza e a seriedade de Grace, a “pazeamorzisse” de Frankie, a delicadeza de Sol e a fleuma de Robert em um conjunto harmônico que não tem preço.

Isso obviamente não quer dizer, porém, que a dupla de showrunners tem passe livre e pode fazer o que quiser. Claro que não. Talvez tenha chegado a hora de fazer a série caminhar para o seu final, a não ser que seja possível resgatar o frescor que ela vinha mostrando até o final da quarta temporada, o que pode dar uma sobrevida a ela. As mudanças tantas vezes indicadas nos finais de temporada e tantas vezes desfeitas no começo da seguinte talvez tenham que ser perenizadas, com uma mudança efetiva de status quo. Se Grace agora está casada com Nick e isso pode significar seu afastamento de Frankie, é importante que Kauffman e Morris tenham a coragem de mergulhar no assunto de verdade e não trazer a série novamente para o lugar seguro onde se encontra. Às vezes, uma sacudida de verdade é tudo o que é necessário para reviver-se uma série e não será um episódio de “realidade alternativa” (aliás, bem fraco) que conseguirá isso.

Grace and Frankie, por mais que seja um amor de série, não pode viver apenas de seus louros passados, por melhor que eles sejam. Tomara que os showrunners tenham consciência disso e façam o que for preciso para renovar a sensacional dinâmica dos mais simpáticos velhinhos da televisão.

Grace and Frankie – 5ª Temporada (Idem, EUA – 18 de janeiro de 2019)
Showrunners: Marta Kauffman, Howard J. Morris
Direção: Michael Showalter, Ken Whittingham, Kyra Sedgwick, John Hoffman, Randall Keenan Winston, Rebecca Asher, Silver Tree, David Warren, Alex Hardcastle, Marta Kauffman
Roteiro: Marta Kauffman, Howard J. Morris, Billy Finnegan, Barry Safchik, Michael Platt, John Hoffman, Julie Durk, Julieanne Smolinski
Elenco: Jane Fonda, Lily Tomlin, Sam Waterston, Martin Sheen, Brooklyn Decker, Ethan Embry, June Diane Raphael, Baron Vaughn, Peter Cambor, Tim Bagley, Michael Charles Roman, Estelle Parsons, Millicent Martin, Marsha Mason, Lindsey Kraft, Peter Gallagher, Jack Plotnick, Scott Evans, Mark Deklin
Duração: 25-32 min. por episódio (13 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.