Crítica | Gran Casino

Gran Casino (1947) foi o primeiro filme que Luís Buñuel dirigiu sozinho desde Terra sem Pão (1933). Sua conturbada mudança da Espanha para os Estados Unidos, e de lá, para o México, não lhe permitiu assinar nenhum longa-metragem nesse período. Seu retorno à frente de um projeto veio através do convite de Óscar Dancigers, produtor que ofereceu ao adormecido monstro surrealista um drama cantante com duas grandes estrelas da música e do cinema mexicano na época. Imaginem só.

Quem conhece o início desta fase do cinema de Buñuel, certamente sabe que os filmes que a compõe não exibem a verdadeira face e estilo do diretor, mas é preciso entender que se tratam de obras encomendadas e de caráter plenamente comercial, sobre as quais ele não tinha muita voz para mudanças, pelo menos no começo. Todavia, para uma mente como a de Buñuel, dramas musicais com doses de romance poderiam ser menos adocicados e mais críticos. Como um bônus, ele ainda poderia adicionar pequenos elementos surrealistas, detalhes sutis que nos permitem afirmar que o diretor jamais abandonou sua visão despojada e onírica de fazer cinema, mesmo quando tinha tudo para fazê-lo.

Em Gran Casino, o primeiro filme mexicano do artista, temos a história de Gerardo Ramírez e Demetrio García, que no início da trama, estão presos. A causa da prisão é fútil e após um longo número musical na prisão, os dois parceiros conseguem colocar em prática um plano de fuga. Já nesse momento temos a indicação humorística de los tres amigos, personagens que fazem coro ao protagonista durante a canção, mas que aos poucos ganham contornos de delírio, principalmente após a aparição no cassino, já na reta final da obra.

Ao passo que outras personagens vão aparecendo, a trama ganha ares mais próximos ao social. Temos então um proprietário de um campo de petróleo que é impedido de explorar o combustível porque não tem trabalhadores disponíveis — situação gerada através de ameaças de uma companhia rival, gerida por um alemão (uma realidade parecida com a que tínhamos no Brasil até início dos anos 1950).

Em meio às intrigas empresariais, corrupção e assassinatos, o romance entre Gerardo Ramírez e a herdeira do campo de petróleo não tarda em aparecer. Mas a relação entre os dois é inicialmente caótica, transformado-se, em seguida, em desejo sexual. Ao sustentar essas diversas pontas soltas, Buñuel consegue inserir pequenos takes “clandestinamente”, como closes nos pés e nas pernas das dançarinas; a imagem distorcida de Gerardo refletida em um balde de gelo e uma vareta remexendo uma poça de lama e piche ao invés de um beijo apaixonado. É engraçado que no filme inteiro não há um único beijo, apenas diversas tentativas. O desejo está espalhado por todo a obra, e um bom destaque para a libido feminina sustenta essa situação, mas relações amorosas concretas não vemos acontecer em nenhum momento.

Não se pode dizer que Gran Casino não cumpre o que promete, até porque o filme só deveria ser um simples drama musical. O fato é que a obra teve uma boa produção, e isso pode ser visto no cuidado com os cenários, que apesar de simples, são bem construídos, além de receber diversas ambientações interessantes de internas e externas. Também a dublagem em estúdio e a equipe de som merecem destaque, primeiro pela ótima sincronização das cenas musicais, segundo pela boa qualidade da edição e mixagem, como é possível perceber já no primeiro número cantante.

Buñuel não tem aqui a sua melhor direção, mas o filme ganha mais pelos conceitos executados que pela composição total da obra. Há aquela incômoda presença das canções em momentos descabidos, certa artificialidade na atuação de alguns personagens e uma finalização incompleta, apesar de conceitualmente inteligente.

Nos três anos que separam Gran Casino de Os Esquecidos, Buñuel conseguiu se fazer ouvir diante dos produtores, o que faria de suas obras após 1950 versões menos comerciais e menos sutis na apresentação dos ingredientes surrealistas e das críticas sociais, religiosas ou políticas. O monstro acordara, e não tardaria muito a dar o seu primeiro grande rugido, algo mais notável que esse primeiro abrir de olhos representado por Gran Casino.

  • Crítica originalmente publicada em 11 de fevereiro de 2013. Revisada para republicação em 14/03/2020, em comemoração aos 120 anos de nascimento do diretor e da elaboração da versão definitiva de seu Especial aqui no Plano Crítico.

Gran Casino (México, 1947)
Direção: Luis Buñuel
Roteiro: Mauricio Magdaleno (baseado na obra de Michel Veber)
Direção: Libertad Lamarque, Jorge Negrete, Meche Barba, Agustín Isunza, Julio Villarreal, José Baviera, Alfonso Bedoya, Francisco Jambrina, Fernande Albany, Charles Rooner, Bertha Lehar, Trío Calaveras
Duração: 92 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.