Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Gran Torino (2008)

Crítica | Gran Torino (2008)

por Rodrigo Pereira
533 views (a partir de agosto de 2020)

Como o Homem Sem Medo na Trilogia dos Dólares (Sergio Leone) e Harry Callahan em Perseguidor Implacável (Don Siegel), para não prolongar demais, Clint Eastwood se consolidou como um dos rostos mais conhecidos de Hollywood. Entretanto, não foi apenas na frente das câmeras, através do western spaghetti ou de personagens durões e carrancudos (apesar disso ser boa parcela de sua contribuição para a arte), que Eastwood trilhou sua carreira. O quase nonagenário ator também aventurou-se como diretor e realizou obras que foram, de uma forma geral, bem recebidas por público e crítica (Sobre Meninos e Lobos, Sully: O Herói do Rio Hudson, Cartas de Iwo Jima, Sniper Americano e Os Imperdoáveis são alguns exemplos). Quanto a Gran Torino, um de seus trabalhos da safra madura em que atua e dirige simultaneamente, o resultado não foge muito disso e é bastante satisfatório.

O filme acompanha a vida de Walt Kowalski (Clint Eastwood), um trabalhador aposentado e veterano da Guerra da Coreia que passa seus dias realizando pequenos reparos domésticos e bebendo cerveja. Viúvo, mal-humorado e com uma relação totalmente conturbada com seus filhos, Kowalski acaba se aproximando do jovem asiático Thao (Bee Vang) após esse envolver-se com uma gangue local e ser obrigado a roubar o carro do velho ranzinza. Apesar de seu desprezo contra asiáticos, negros e latinos, Kowalski aos poucos adquire apreço pelo jovem e sua irmã Sue (Ahney Her), percebendo que tem muito mais em comum com a família deles do que com a sua própria.

Sinto-me na obrigação, porém, de comentar sobre o lado pessoal do astro antes de seguir abordando exclusivamente a obra, especialmente suas opiniões políticas, pois um dos maiores méritos do longa vem justamente de como algumas dessas questões e visões são postas em cena.

Clint Eastwood é, sabidamente, um homem de princípios conservadores. Sempre ao lado do Partido Republicano, declarou apoio ao magnata Donald Trump nas eleições presidenciais de 2016. Por que essas constatações tornam-se necessárias? Porque a forma como o diretor coloca sua visão conservadora acerca de temas como imigrantes vindo para seu país pode causar uma aversão e repulsa inicial em quem possui uma visão mais progressista (como este que vos escreve), mas que devido a maneira como a trama é conduzida nos convida a refletir sobre nossas opiniões e até questionar algumas certezas.

Não é incomum de se ver uma pessoa conservadora, principalmente em discussões políticas, ser considerada como alguém carregado de preconceitos e atrasos, quase como uma personificação do mal e de tudo que há de ruim. O que Eastwood faz, no entanto, é mostrar como Kowalski, uma personagem que causa asco e repugnância por seus atos desde o início, pode ser vítima de um julgamento prévio e errôneo. Não estou dizendo que está tudo bem em ser xenófobo, racista ou preconceituoso de qualquer forma, obviamente não está, porém o diretor nos desafia a rever alguns conceitos. Como na cena em que o velho veterano resolve, finalmente, se confessar para o padre Janovich (Christopher Carley) e revela seus maiores pecados da vida: ter beijado uma mulher no natal de 1968 já sendo casado; lucrado 900 dólares com a venda de um barco e não pagar os impostos da negociação; pouco conhecer seus dois filhos por não saber como ser mais próximo deles. Essas questões, conforme a própria personagem admite, foram as que mais o atormentaram durante sua vida. Um pouco distante do mal em pessoa, não é?!

A intenção do diretor é clara: mostrar que nem sempre aquilo que julgamos conhecer realmente é o que parece (a velha máxima de não julgar um livro pela capa). Algo ainda melhor, no entanto, vem da honestidade de Eastwood em não “vender” Kowalski ou sua visão de mundo como melhor que as outras. Ele faz exatamente o contrário quando a personagem lentamente percebe que tem muito mais em comum com a família asiática que tanto desprezou (por conta, por exemplo, do respeito às tradições e aos mais velhos perpetuados entre eles) do que com sua própria família, tornando-se cada vez mais próximo de Thao, Sue e seus familiares do que jamais poderia imaginar. Como se também propusesse para si refletir sobre suas convicções.

Apesar dessa interessante e eficiente maneira de abordar visões diferentes de mundo de forma totalmente honesta, nem tudo são flores. As atuações de Bee Vang e Ahney Her são incrivelmente fracas, ainda mais quando colocadas ao lado de alguém como Clint Eastwood, que trabalha com a arte há pelo menos cinco décadas. Para se ter noção, até o andar da atriz em determinados momentos parece algo totalmente forçado e artificial, assim como as explosões de raiva de Vang ao ser trancado no porão contra sua vontade (essa cena chega a dar vergonha alheia).

Mesmo com esses graves problemas de atuação que impossibilitam uma melhor avaliação, Gran Torino é uma obra sólida e eficiente num âmbito geral e tem seu ponto forte na proposta de nos convidar a refletir e questionar julgamentos e opiniões. Uma boa pedida para gerar discussões acerca de diversos assuntos enquanto assiste Clint Eastwood com suas caretas e grunhidos.

Gran Torino — Alemanha, Estados Unidos, 2008
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Nick Schenk, Dave Johannson
Elenco: Clint Eastwood, Bee Vang, Ahney Her, Christopher Carley, Brian Haley, Geraldine Hughes, Dreama Walker, Brian Howe, John Carroll Lynch, William Hill, Brooke Chia Thao, Chee Thao, Choua Kue, Scott Eastwood, Xia Soua Chang
Duração: 116 minutos

Você Também pode curtir

10 comentários

Jordison Francisco 21 de novembro de 2020 - 21:37

Clint Eastwood com uma cerveja na mão é muito mais ameaçador do que o Stallone com uma bazuca. 🙂

Se você quer bater no peito e dizer que é um adorador da sétima arte, primeiro assista esse filme, depois faça isso, pois esse filme é essencial para todo amante de cinema, todo fã de filme casca grossa, todo fã de drama, todo tipo de ser humano, pois é uma lição de vida.

Caramba, eu tinha adorado Menina de Ouro, agora Gran Torino pra mim é a obra suprema do Clint. O que o personagem dele passa com sua família é a realidade de muitos hoje e vai ser a nossa no futuro, infelizmente é um choque de realidade que não dá pra fugir.

Uma aula quando o assunto é preconceito, diferença de valores, dor da perda, desleixo da família e mais do que tudo, um filme moldador de caráter.

E assistir em um momento da sua vida que vai ser muito a calhar. Quando o Walt vai na casa dos orientais e fica espantado ao constatar que tem mais afinidade com aquelas pessoas que antes ele repudiava do que com a própria família é algo que cada um nós vem passando também – No meu caso eu me sentia muito deslocado em termos de amizades e até mesmo de familiares como tios e primos.
Não que eu sentisse repúdio, pelo contrário, sempre admirei pessoas que encaram novos desafios para trabalhar.

Gran Torino é uma fábula de valores e costumes onde, Eastwood caracteriza seu personagem de forma perfeita e vê-se a sua evolução ao longo do filme de forma magistral e o papel é muito bom mesmo. A relação dele com os vizinhos acaba por pontuar o filme de momentos de puro humor. Talvez o mais importante da carreira dele. É sua redenção, sua evolução como caráter moral na sociedade. Enfim, Gran Torino é uma obra a destacar na vasta, bela e qualitativa coleção de Eastwood.

Não existem palavras suficientemente grandiosas para descrever esse filme. Bem, na verdade existem sim: Clint Eastwood.

Responder
Raimundo Neto 5 de março de 2019 - 02:00

O Vang realmente ficou um pouco enrijecido, mas acho que isso combinou bem com o jeito pateta do Tao.

Responder
Rodrigo Pereira 6 de março de 2019 - 10:01

Não consegui ter a mesma impressão, essa rigidez me incomodou demais ao longo do filme. Que bom que teve uma impressão melhor que a minha!

Abraços!

Responder
Anônimo 30 de novembro de 2018 - 14:07
Responder
Rodrigo Pereira 1 de dezembro de 2018 - 19:16

Ele tem vários filmes muito bons, esse é um deles.

Abraço!

Responder
Rafael Lima 30 de novembro de 2018 - 13:13

Ótima resenha.

Concordo com quase todos os pontos. Um dos maiores méritos do filme é como o Clintão apresenta esse personagem cheio de preconceitos, e vai desconstruindo-o de modo a nos fazer gostar dele. E de fato, os jovens atores são bem ruins, e a cena do porão é mesmo bem constrangedora.

Responder
Rodrigo Pereira 1 de dezembro de 2018 - 19:19

Fico feliz que tenha gostado da crítica, Rafael! Quanto ao filme, concordo com você. É até divertido de perceber como nossas percepções do personagem vão mudando conforme a história se desenrola. Tirando algumas coisinhas, é um filme muito bom.

Abraço!

Responder
Luiz Santiago 30 de novembro de 2018 - 04:10

Ótima crítica, Guns!
Gostei muito da abordagem que você fez sobre o tratamento do diretor para a questão étnica/social aqui. O roteiro é muito bem pensado para trabalhar essa visão com esse cuidado ligado ao diálogo, às vezes nem sempre iniciando pelo caminho “comum”. Esse é um dos motivos que me faz gostar bastante desse filme, por sinal.

Responder
Rodrigo Pereira 1 de dezembro de 2018 - 19:28

Obrigado, querido!
Para variar, concordamos bastante, não é mesmo? Hahahahaha
Adorei o filme e toda a forma como o Clint construiu e apresentou a narrativa chegando a me surpreender em alguns pontos. Vale bastante assistir.

Abraços ciclopistas, meu consagrado! https://uploads.disquscdn.com/images/c0cf1c87c7420144b7f512b56640ff089a1c5250b6d2410aed24eb71ea3b1032.jpg

Responder
Luiz Santiago 1 de dezembro de 2018 - 20:26

Olha aqui, seu bostinha, só tenho uma coisa pra dizer pro sr., sr. @disqus_upMc2OBvWn:disqus:

https://www.youtube.com/watch?v=vJ6zTsTv66o

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais