Crítica | Grande Hotel (1932)

estrelas 4

A quinta cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, mais conhecida como Oscar, concedeu o título máximo da noite à Grande Hotel, um feito até hoje jamais repetido. Que feito foi esse? Bem, a curiosa obra do britânico Edmund Goulding foi e continua sendo, até hoje, na data de redação da presente crítica, o único filme a levar o prêmio principal sem sequer concorrer em outra categoria, o que francamente foi uma injustiça com a obra que merecia pelo menos ter sido lembrada em Direção de Arte e Fotografia, talvez até também em Mixagem de Som.

Seja como for, a obra, de grande sucesso na época, é um daqueles poucos filmes que podem se gabar de ter criado um sub-gênero dezenas de vezes repetido e que muitas delas o espectador nem percebe: as narrativas independentes, mas que tangenciam em maior ou menor grau e que se passam em apenas um grande ambiente, em muitos casos efetivamente um hotel. É é por isso que Goulding dá tanta atenção ao hotel que intitula sua obra, e que antes fora uma peça montada na Broadway, transformando-o efetivamente em um imponente e suntuoso personagem, com seu lobby de piso quadriculado branco e preto, sua recepção inusitada em formato circular, seu vão central também circular que permite uma visão geral do hotel, o elevador vasto que faz uso de iluminação em material translúcido para fazer a mímica de movimento, além do movimentado mini-lobby visto no andar onde grande parte da ação é concentrada.

É por isso que afirmei que o filme ter sido ignorado nas categorias de direção de arte e fotografia chega a ser um acinte, já que os monumentais trabalhos de Cedric Gibbons, que viria a trabalhar em nada menos do que O Mágico de Oz, Planeta Proibido e Sinfonia de Paris, dentre tantos outros clássicos e de William H. Daniels, que seria responsável pela fotografia de Gata em Teto de Zinco Quente, Cidade Nua e Meu Amigo Harvey são absolutamente hipnotizantes. Basta observar o quanto cada detalhe do hotel é desenhado de maneira a permitir uma movimentação orgânica dos personagens, com amplos espaços decorados milimetricamente para transparecer o luxo decadente que a obra exige e para permitir a movimentação livre da câmera de Daniels, que não se fazer de rogado com plongées de se tirar o chapéu, além de um cuidado muito grande para permanecer próximo de toda a impressionantemente bem coreografada movimentação dos personagens principais e de todos os extras em segundo, terceiro e, às vezes, quarto planos.

Mas eu nem mesmo cheguei na história, não é mesmo? É que ela, de certa forma, não tem a mesma relevância que as imagens em Grande Hotel, ficando em literal segundo plano. Em resumo, as diversas narrativas paralelas que se interconectam giram em torno do dinheiro e do que vem a reboque dele. Temos Grusinskaya (Greta Garbo), a bailarina russa já de certa idade e decadente que vive dependente de elogios e aplausos; o Barão Felix von Geigern (John Barrymore), viciado em jogo e que pretende furtar o colar de pérolas da dançarina para pagar dívidas; a estenógrafa Flaemmchen (Joan Crawford) que precisa de dinheiro e parece fazer o que é necessário para consegui-lo; Presying (Wallace Beery), um magnata ganancioso e machista que está correndo atrás da fusão de sua empresa e, finalmente, Otto Kringelein (Lionel Barrymore, irmão mais velho de John), um homem simples e terminalmente doente que vem gastar suas economias em um ambiente podre de rico que nunca pode experimentar. Observando essa trupe e servindo como uma espécie de narrador, há o Dr. Otternschlag (Lewis Stone), médico deformado e residente permanente do hotel.

As formas como uma narrativa dá lugar à outra variam, mas são normalmente orgânicas, evitando-se a divisão em episódios ou passagens de bastão com cortes bruscos. Por muitas vezes, a câmera persegue determinado grupo e, então, “muda de ideia” e enfoca outro que está ali por perto em um balé narrativo surpreendentemente eficiente. No entanto, esses artifícios bem engendrados nem sempre funcionam muito bem, com algumas escolhas da montagem de Blanche Sewell criando mais confusão do que elucidando as questões, especialmente quando o clímax aproxima-se.

Além disso, é incômoda a maneira como Goulding dirige seus atores de maneira que eles mantenham uma proximidade estranha, quase que um debruçado sobre o outro mesmo quando estão apenas conversando. É como se o espaço vasto ao redor servisse de ferramenta opressiva que exige um contato humano maior, mas o problema é que isso simplesmente não está na fita e acaba resultando em momentos inadvertidamente hilários em que as duplas de personagens estão quase se beijando quando obviamente o objetivo da cena não é esse.

Naturalmente, há uma certa artificialidade nas interpretações, com exageros dramáticos típicos da arte na época. O exemplo mais claro disso está na atuação de Greta Garbo como a bailarina cheia de maneirismos. Sua personagem exige o drama rasgado, mas a impressão de estarmos assistindo uma peça de teatro permanece ativa quase que o tempo todo, sem qualquer sutileza dramática, por assim dizer. O mesmo vale para Joan Crawford, ainda que sua personagem seja bem mais complexa e sutil que a de Garbo. No lado masculino, o destaque fica mesmo com Lionel Barrymore e seu adorável Kringelein que é também cheio de trejeitos e para quem o roteiro entregou os diálogos mais cheios de críticas sociais ao “vil metal”, mas que são didáticos talvez demais.

O grande triunfo de Grande Hotel, no final das contas, é fundir personagens e cenários em um conjunto tão harmônico que uns complementam os outros com uma naturalidade até hoje rara de se ver por aí, resultando em uma obra fácil e agradável de se assistir mesmo tantas décadas depois. Sem dúvida uma daquelas obras que, merecidamente, se tornaram um dos pilares da Sétima Arte.

Grande Hotel (Grand Hotel, EUA – 1932)
Direção:
 Edmund Goulding
Roteiro: Vicki Baum (baseado em peça de William Absalom Drake, por sua vez baseada romance de Vicki Baum)
Elenco: Greta Garbo, John Barrymore, Joan Crawford, Wallace Beery, Lionel Barrymore, Lewis Stone, Jean Hersholt, Robert McWade, Purnell Pratt, Ferdinand Gottschalk, Rafaela Ottiano, Morgan Wallace
Duração: 112 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.