Crítica | Grandes Esperanças (1998)

Antes da análise do filme Grandes Esperanças, lançado em 1998, torna-se viável um breve panorama do romance de Charles Dickens, roteirizado por Mitch Glazer e ponto de partida para a realização do filme. Ambientado em Londres no século XIX, o livro é considerado a obra prima de Charles Dickens. Denso e vanguardista, a história retrata o auge e a decadência de Pip, órfão que recebe uma herança de um desconhecido, torna-se rico e uma das presenças mais influentes da sociedade, espaço de interação duramente criticado pelo autor no decorrer das páginas da publicação em três volumes entre dezembro de 1860 e agosto de 1861.

Na trama, ele se apaixona por Estela e é guiado feito marionete por uma amarga mulher durante muitos anos. O romance explora as esperanças de Finn como metonímia do otimismo da era Vitoriana dos meados do século XIX, numa obra que em si, narra as artimanhas do poder. A ascensão de Pip nada mais é que a busca de expansão imperial da Inglaterra, que na época, havia perdido território na América e fundara uma colônia penal na Austrália. Por sinal, esta é uma das críticas sociais do romance e de algumas outras obras de Charles Dickens: a corrupção que as malhas do poder podem fazer um individuo adentrar.

Trazido para a contemporaneidade pelo viés cinematográfico, e trocando Londres por uma polifônica Nova York, o filme metaforiza esse jogo de poder através da fragilidade de Finn (Ethan Wake), que a certa altura do filme, ganha o status de celebridade, ovacionado por muitos dos novos contatos e críticos, e, concomitantemente, inserido em suas relações frias e interesseiras. Mostrando-se sempre apático aos flashes da mídia, Finn parece não se adequar ao perfil de celebridade que os envolvidos nos jogos de poder do filme se propõem.

Diante do exposto, em Grandes esperanças, é possível perceber que três possíveis temáticas estão presentes: a primeira, a riqueza e o desejo de ascensão social. A segunda, uma jornada épica em busca do amor de uma mulher praticamente inatingível. A terceira, uma denúncia da corrupção e dos valores deturpados da alta sociedade, transferido da era vitoriana para 1998, época de contagem regressiva para a virada do milênio. Alguns desses valores ganharam ressonâncias no design de produção Tony Burrough, coordenado em torno de diversos tons de verde, bastante expressivos, na direção de arte de John Kasarda, nos figurinos de Judianna Makovsky e na cenografia de Susan Bode.

O filme inicia com créditos ilustrados por diversas pinturas em tons verdes variados. Mais adiante, saberemos que as ilustrações são as mesmas realizadas por Finn em seu caderno de anotações e desenhos. Mais adiante, um fade in seguido de um plano geral definem o início da história.  Somos apresentados ao pequeno Finn, aos sete anos de idade, em um dos barcos da família, pintando em seu caderno de desenhos. Sua camisa é verde, em um tom claro, assim como os lápis que utiliza para colorir os desenhos que realiza. Interessante observar mais adiante que os tons verdes das roupas de Finn, quando adulto, escurecem, num jogo de mudança de tonalidades ao passo que o personagem amadure e transforma a sua personalidade.

Após este breve preâmbulo, Finn percebe uma figura imersa na água, utilizando um uniforme de cor intensa pelo qual ele ainda não havia identificado. Logo, a figura misteriosa levanta, agarra o garoto e faz algumas solicitações, entre elas, ferramentas e algo para comer. Mais adiante, saberemos se tratar de um fugitivo da polícia, Arthur Lustig (Robert De Niro). O som das gaivotas e da trilha minimalista de Patrick Doyle é interrompido por um brusco rufar de tambores, numa busca por representação da ameaçadora presença do presidiário fugitivo. Quando a noite chega, e uma tímida tempestade desponta no céu, Finn carrega os itens solicitados pelo homem e segue para o local combinado.

Entrega as ferramentas e a comida. Saciada a fome do fugitivo que não se alimentava bem há tempos. Finn cumpre a sua missão inicial. A história agora segue outro rumo: o primeiro encontro entre o garoto e a menina que vai se tornar a mulher da sua vida, Estella, interpretada na vida adulta por Gwyneth Paltrow. Na transição dos atos, a edição de Steve Weisberg costura a narrativa com uma variedade de linhas verdes, oriundas das imagens captadas pela direção de fotografia de Emmanuel Lubezki. É quando Finn conhece a Sra. Dinsmoor (Anne Bancroft), dona da mansão “Paradiso Perduto”. É o cenário de onde ele será companheiro de brincadeiras da pequena Estella ao longo de uma parte memorável de sua infância.

A Sra. Dinsmoor é um ser enigmático. Tanto ódio, raiva e desejo de vingança precisa de um ponto de partida, de uma motivação, como saberemos pouco mais adiante, quando Finn descobre que aquela amarga mulher havia sido abandonada no altar pelo marido, fadada a perecer no interior da mansão, sozinha e frívola. Dali, ela já começara a plantar sementes que remetem ao desejo de ascensão social, induzindo Finn a pensar em pintar para ricos, ter a liberdade deles, coisas que a limitada vida da família de Finn não permitiria. As cenas seguintes avançam para a fase adulta dos personagens. O primeiro encontro de Finn e Estella em Nova York repetirá uma poética cena num bebedouro na fase infantil.

Entre as coincidências do roteiro, algumas oriundas do romance de Charles Dickens, há o reencontro de Finn com ninguém menos que Arthur Lustig, homem que marcou a sua infância. Para fazer-se reconhecido, o ex-fugitivo, agora idoso, utiliza as mesmas frases do primeiro encontro. Sem fazer uso do flashback direto, a produção nos remete apenas pelo som de gaivotas e pássaros verdes de uma mobília do apartamento que surgem ao lado de Finn. Ainda neste diálogo, Arthur Lustig confessa ter sido o benfeitor de Finn e responsável por tudo de enaltecedor que aconteceu na vida do rapaz, alegando que fez isso pelo fato de o menino ter sido a única pessoa que lhe fez algo de bom em sua juventude. Outros acontecimentos encaminham os personagens para um final feliz, algo bem ao estilo da obra literária inspiradora.

Diante do exposto, importante observar que a direção de arte de John Kasarda pensou detalhadamente no emprego da cor verde, numa busca por reforçar os verbos que guiam esta sentença audiovisual: esperança, liberdade e maturidade. Merecidamente, o filme foi premiado em duas categorias na cerimônia do Oscar nas categorias de Melhor Fotografia e Direção de Arte. Desta forma, é possível perceber que a narrativa de Grandes esperanças, sob a direção Alfonso Cuarón, não pode ser interpretada sem ao menos uma análise, mesmo que breve, da manipulação dos diversos tons de verde na trajetória épica do personagem Finn.

Com protagonista e coadjuvantes envoltos numa redoma de amadurecimento, liberdade, paixão e esperanças, a versão de Grandes esperanças conduzida por Cuarón trouxe algumas das características enquanto cineasta, isto é, a impressão do seu caráter autoral nos filmes que realiza, seja através da câmera oblíqua, montagem poética ou relações bem autênticas com a direção de arte, vide O Labirinto do Fauno, Filhos da Esperança, E Sua Mãe Também, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, um dos segmentos de Paris, Eu Te Amo, Gravidade e Roma, produções que dirigiu, e no caso de algumas, montou e roteirizou.  

Grandes Esperanças (Great Expectations/Estados Unidos, 1998)
Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Mitch Glazer
Elenco: Ethan Hawke, Robert De Niro, Gwyneth Paltrow, Albert Zihenni, Alva Chinn, Ana Susana Gerardino, Anne Bancroft, Chris Cooper, Clem Caserta, Clem Caserta Jr., Craig Braun, Dennis Paladino, Dorin Seymour
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.