Crítica | Grandes Esperanças, de Charles Dickens

Em Grandes Esperanças, Charles Dickens demonstra a beleza de um mundo que ainda contém pessoas bondosas, segundo a lógica da cultura de massa, em especial, dos filmes que ao longo do século XX e ainda no contemporâneo, emulam a estrutura do romance inglês para a criação de narrativas edificantes. Um Sonho Possível, de John Lee Hancock é um desses. O filme que deu o Oscar de Melhor Atriz para Sandra Bullock traz alguns paralelos com a trajetória de Pip. Um jovem, em algum momento da sua vida, encontra um benfeitor em sua vida, neste caso, a bondosa personagem de Annie Lee.

Em determinado momento, o garoto recebe aulas particulares de literatura e de escrita, pois para pleitear uma vaga numa seleção de esportes, precisará demonstrar habilidades em um desafio de escrita e interpretação. A professora, interpretada por Kathy Bates, o aconselha a relacionar a sua trajetória com a de Pip, de Grandes Esperanças. Na sessão de cinema em 2010, os degraus que me levaram ao despertar para o livro ganharam mais um nível, algo já semeado pelo filme homônimo de 1999, comandado por Alfonso Cuarón, versão livre conhecida por seu design de produção repleto de tons de verde, com interpretação de Ethan Hawke e Gwyneth Paltrow.

Paralelos à parte, a produção literária lançada em fascículos em 1861 traz maior complexidade, algo que a maioria de suas traduções intersemióticas não consegue captar. Produzida numa época de ascensão da classe média, da exploração capitalista e de um fundamentalismo religioso que propagou bastante moralismo sexual e regras rígidas em relação aos costumes, Grandes Esperanças traz uma história que ocorre entre 1812 e 1840, esquema que nos remete ao romance de formação, com evolução de personagens de acordo com suas mudanças físicas, sociais e psicológicas dentro dos acontecimentos descritos pelo narrador em primeira pessoa. Em suma, observaremos os detalhes narrativos sob o prisma da sua lente captadora enquanto criança e também enquanto adulto, mais adiante, em sua maturidade.

Publicado numa época de muitas mudanças, o efusivo século XIX, Grandes Esperanças foi veiculado entre dezembro de 1860 e agosto de 1861, no impresso All The Year Round, tendo como características uma ampla radiografia da Era Vitoriana, período de gestão da rainha Vitória: 1837-1901. A Inglaterra, com sua população de 16,8 milhões de pessoas em 1851, mudou o quadro para 30,5 milhões em 1901. Com economia oxigenada pela Revolução Industrial, o Reino Unido lucrou e prosperou bastante, além de expandir as suas fronteiras no que tange aos propósitos imperialistas, algo que, por sua vez, era “bom” apenas para as classes favorecidas, afinal, enquanto a elite prosperava, as classes menos abastadas continuavam suas histórias de pobreza, sofrimento e injustiça, haja vista a falta de equilíbrio das relações capitalistas.

Há relatos de que Tolstoi tinha uma imagem de Dickens na parede de seu gabinete de escrita. Dostoiévski afirma ter lido o autor durante o período em que ficou preso.  Se em algum momento você achou a história desinteressante ou nula enquanto exercício literário, o que creio ser algo difícil, ao menos compreenderá que exerceu importância para os autores de clássicos como Anna Karenina e Crime e Castigo, outros exemplares “imortais” da literatura mundial. Com Grandes Esperanças, Dickens trata da história do amadurecimento de uma pessoa, da autodescoberta e de uma decepção amorosa, temas que surgem como primeiro plano de um romance que traz profundidade de campo ao adentrar minuciosamente em seu contexto histórico.

O livro narra a trajetória de Philip Pirip, ou Pip, como é apelidado, um jovem que recebe uma herança que o transforma em cavalheiro sem as etapas de mudança na estratificação social da época, num momento em que a aristocracia exigia títulos e fonte de renda, requisitos básicos para a circulação em tais espaços de prestígio na sociedade. Inicialmente, o jovem não sabe exatamente de onde vem a fortuna, algo que será revelado muito tempo depois. É quando Pip descobre que o seu benfeitor é um homem de passado sombrio, representante da “delinquência”, o que torna o protagonista uma peça de um bem orquestrado jogo onde o certo e o errado, a mudança ou a manutenção de algumas posturas entram em atrito, isto é, uma sequência de dualidades e conflitos.

Como dito por Hemingway, “uma história é arquitetura, não design de interiores”. Por isso, por mais incomodo que o leitor ache, a descrição minuciosa de Dickens ergue um enredo sólido. Ao ler uma passagem até mesmo corriqueira, com descrição de uma charrete, por exemplo, é possível entrar no esquema sinestésico da obra e sentir o cheio do espaço, ouvir os sons durante um trajeto e sentir “até mesmo os aromas deixados pelo passageiro anterior”, como aponta o especialista Daniel Puglia, no programa Literatura Fundamental, da TV USP.

Dickens traça um enredo sem excessiva profundidade psicológica dos personagens, tal como as obras de seu período, mas consegue compor “tipos” exemplares. Seu décimo terceiro romance é bastante atual e tem como principais temas a desigualdade e a injustiça social. Conhecedor da fortuna e da fama enquanto ainda era vivo, algo pouco comum no campo da literatura, um espaço de egos inflados e crítica guiada por muitas “verdades absolutas” e “modelos ideais”. Por vender muito, a academia considerava a sua produção menor, recalque também chancelado por conta das suas denúncias, postura que os acadêmicos não gostavam, pois soava como “polêmica”, numa visão exclusivamente estética da literatura enquanto arte.

Com experiência em Direito e Jornalismo, Dickens tinha uma pequena equipe de trabalho e muitos contatos para a realização tão exata de determinados momentos descritos em seus romances. Ele solicitava que essas pessoas fossem aos eventos culturais, políticos e sociais e anotassem tudo que fosse possível, para logo depois, transformar os elementos do real em fascinantes passagens literárias que o colocaram como parte do cânone literário ocidental, mesmo que tal posto não tenha sido tão fácil de alcançar. Para um entendimento mais profundo do assunto indico a tese de doutorado Charles Dickens: um escritor no centro do capitalismo, do professor e pesquisador Daniel Puglia, da USP.

Com críticas aos perigos econômicos da era industrial e do sufocamento causado pelo capitalismo, Grandes Esperanças consegue ir além da mera crítica social, o que permitiu construir uma história coesa e admirável, com personagens bem delineados e relação de aproximação com o leitor, algo que em alguns trechos comete o pecado de ser descritivo demais, no entanto, como sabemos, para adentrar num universo literário que tematicamente é bem contemporâneo, mas estruturalmente é de um estilo de escrita do século XIX, cabe ao leitor ter paciência e assumir a postura “diacrônica”, sem medo de mergulhar no passado para melhor compreender o romance, uma leitura que vale a pena ser parte do acervo intelectual de todo amante da literatura.

Grandes Esperanças (Inglaterra/1861)
Autor: Charles Dickens
Editora no Brasil: Companhia das Letras
Tradução: Paulo Henriques Britto
Páginas: 704

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.