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Crítica | Greta (2019)

por Laisa Lima
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Heróis marginalizados existem aos montes no cinema. Aptos a extrapolarem a linha tênue entre ser audaz e ser humano, não é difícil encontrar um protagonista que possua questões acerca de suas virtudes e indagações perante sua moralidade. No audiovisual brasileiro, por exemplo, criar um indivíduo falho porém captador da atenção do espectador já esteve em mãos como as de Laís Bodanzky em seu longa-metragem Bicho de Sete Cabeças (2000), no qual um usuário de drogas esteve à frente. Não obstante, um idoso homossexual e escravo dos próprios desejos entra no hall de figuras potentemente polêmicas mas possivelmente compreendidas. Greta (2019), de Armando Praça, faz dessa façanha uma investigação a respeito da automaticidade de se viver infeliz.

Assolado e assombrado pelo medo da solidão, Pedro (Marco Nanini), um enfermeiro de 70 anos, se refugia em omissas relações sexuais com alguns enfermos que atende. Entretanto, ao mesmo tempo que sua única fagulha de companhia, a transexual Daniela (Denise Weinberg), adoece, revelando uma doença terminal, o personagem se envolve com um criminoso – julgado dessa forma aos olhos da lei porém com uma provável absolvição aos olhos de leigos observadores – ferido e sob tutela da polícia no ambiente hospitalar. Jean (Demick Lopes), (embora tenha cometido um homicídio com requintes de crueldade – a facadas)  assim como Pedro, a “boa alma” que o leva para sua residência, e Daniela, é um réu da sociedade. À beira do conformismo e da revolta, o trio vive separadamente suas lutas que culminam na opressão, seja ela merecida ou seja ela existente pelo simples fato de existir.

Com um ritmo mais pausado cujo objetivo é analisar as variantes de um mesmo sentimento de desamparo aliado a vergonha, Greta cede o holofote a seus personagens. A contribuição da narrativa é situar onde vivem os protagonistas e oferecer as nuances de seus temperamentos, procurando linkar uns com os outros, sem preocupação com reviravoltas externas. Contudo, a realização de uma anamnese a fim de satisfazer os “porquês”, como o porquê dos três se tornarem o que se tornaram, não é a pauta aqui. O motivo pouco importa; o presente é o suficiente para saber o que carregam. A evidente boa preparação de elenco é o marco para a definição de tal sensação, evidente desde as movimentações dos atores até a falta de inibição com suas figuras, claramente despidas do temor de não parecer atraente. O “atraente”, nesse caso, vem da busca pela libertação.

Pedro, no entanto, é capaz de relacionar seu pensamento com o dos homofóbicos: sua enquadrante visão de si mesmo o coloca em uma gaiola dilacerada por uma presumível ideia de que só quem consegue ter força para se assumir como é, são os que têm a vitalidade da juventude. Para ele, resta a postura curvada, a fala exausta, os trejeitos visivelmente escassos de energia, o olhar parado e a aceitação de sucumbir ao mais do mesmo. Nanini, sem trava preconceituosa nenhuma, se permite ser Pedro, e, sem o ator, a experiência de ver o personagem não seria tão sofrida. Jean e Daniela, que compõem a tríade de protagonistas, constituem a noção do medo de serem pegos, ou pela polícia por uma razão, para ele, injusta, ou pelo espírito da morte que levaria sua única alegria – apresentar-se nos palcos -, respectivamente. Demick e Denise representam de maneira genuína as dores de seus personagens, ainda que a escolha de uma mulher cisgênero para transmitir as demandas de uma mulher transgênero e uma mulher trans (a talentosa Gretta Star) para um minúsculo aparecimento como cis, tenha sido incoerente. 

Independentemente disso, a câmera de Praça reforça uma inquietação dentro da inquietude. A direção de fotografia põe uma imagem estática em seus artistas, algumas sequências em planos longos, valorizando o que está em volta e destinando o primeiro plano, às vezes, para cenário e ator no mesmo nível de importância. A casa de Pedro, recorrente cenário no longa-metragem, se assemelha a um motel à noite e a uma simples moradia de manhã. A alusão às escapatórias, físicas e emocionais, do personagem se transformam em metáforas em cenas, que não acompanham qualquer tipo de trilha sonora além da sonoplastia do perímetro urbano. A aflição se forma, apesar do estímulo nulo considerando o estado inerte da câmera, ao perceber, por conta da intimidade que essa mesma câmera proporciona, a insatisfação não verbalizada que traz os protagonistas. O posicionamento das lentes, quase sempre encostadas em cantos e paredes ao longo das locações, reflete o cunho expiatório das individualidades das figuras de Greta, que nunca se expõem por inteiro.

Porém, o que mais se vê são relacionamentos. De Pedro com Jean, de Daniela com os espetáculos, de Jean com sua fuga, de Pedro com Daniela, etc. O destaque entre eles, ainda que haja maior enfoque na intimidade devassa e solitária do personagem de Nanini, está na adoração do homem pela célebre atriz Greta Garbo, de filmes como Grande Hotel (1932) e A Dama das Camélias (1939), no qual ele exige a todos os parceiros sexuais que o chamem assim durante o sexo. Considerando sua fascinação pela artista, é natural que Pedro se comunique, quando a menciona, teatralmente. Suas falas são claramente engessadas, o que, para a proposta de imitação e referência a uma estrela Hollywoodiana dos anos 30, é compreensível. Todavia, a verossimilhança presente no roteiro e manifestado nos demais personagens, não encontra sua naturalidade em Pedro. Por ora superficiais em demasia, os diálogos que o protagonista profere são volúveis em sua recepção pelo espectador, capaz de sentir a organicidade ou não de tais falas. Mesmo assim, Nanini, na maioria de suas aparições, consegue contornar esse fato realizando um trabalho corpóreo e expressivo espontâneo.

Posto a certa hipocrisia na troca de papéis e na colocação desigual das atrizes cis e trans, Greta se traduz em contrastantes adjetivos: sensível e carregado. A atmosfera do filme de Armando Praça se faz pesada na irradiação de cada pequeno frame que dá origem a uma obra densa cuja felicidade sobrevoa outro lugar, não a vida dos três protagonistas. Um sopro de esperança não tem intenção de aparecer neste longa-metragem que trata justamente da acomodação da tristeza, exposta nas feições e no estudo cuidadoso de personagem de Nanini, Weinberg e Lopes. O pudor, elaborado em Greta como um artifício comunicativo, não tem espaço em uma história voltada não totalmente para o preconceito externo, e sim para a repressão interna. Logo, a ausência do mesmo não torna as diversas cenas que exploram a sexualidade homoafetiva, banais; pelo contrário, é nelas que a comprovação do incômodo de Pedro por sua existência inópia é reforçada. E aí sim vem o desconforto. Como uma análise das misérias particulares humanas com um tempo de duração dedicado quase exclusivamente para a observação de seus portadores em vez da observação de acontecimentos mais estrondosos, a película é necessária. Afinal, embora ela não cause um sorriso no rosto do público, uma revisão do que foi visto é certo que ocasione. E não é para essa revisão de pensamentos que o cinema serve?

Greta (Greta – Brasil, 2019)
Direção: Armando Praça
Roteiro: Armando Praça
Elenco: Marco Nanini, Denise Weinberg, Demick Lopes, Gretta Star, Fabíola Líper, Robério Diógenes, Bruno Gomes.
Duração: 96 min.

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