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Crítica | Greyhound (2020)

por Ritter Fan
112 views (a partir de agosto de 2020)

Greyhound, novo filme estrelado por Tom Hanks – e seu terceiro roteiro cinematográfico – que foi adquirido pela Apple TV+ para lançamento diretamente em streaming em razão da pandemia é uma elegante e intimista abordagem sobre coragem, honradez e humanidade durante um grande conflito. Com a escolha narrativa de Hanks de manter o inimigo invisível, o roteiro, sob certos aspectos, assemelha-se ao de Dunkirk, mas com o pano de fundo sendo a Batalha do Atlântico em que um comboio de 37 navios mercantes protegidos por três de guerra precisa sobreviver aos ameaçadores U-Boats alemães.

Primeiro comando do comandante Ernest Krause (Hanks), a produção de duração surpreendentemente curta, apesar de ensaiar uma abordagem padrão de intercalamento de ação no presente com flashbacks para contextualizar o protagonista, logo abandona isso e não perde tempo com firulas, mergulhando direto no que interessa e começando a ação a partir do momento em que a escolta aérea precisa deixar a frota, que parte dos EUA para chegar à Inglaterra, completamente desprotegida durante alguns dias, com os submarinos logo chegando para infernizar a vida de todos. Assim como em Dunkirk, o que sabemos do inimigo são os vislumbres dos U-Boat e uma voz desencarnada alemã que volta e meia comunica-se via rádio para afetar psicologicamente a tripulação.

Mas, diferente da obra de Christopher Nolan, Greyhound é, em essência, um filme de espaço confinado, mas não exatamente da maneira como é o espetacular O Barco: Inferno no Mar, com a mesma temática, só que sob o ponto de vista oposto. Não há exatamente a sensação de claustrofobia da obra de Wolfgang Petersen, até porque a fotografia azulada e quase monocromática de Shelly Johnson (O Lobisomem, Capitão América: O Primeiro Vingador) faz bons e constantes usos de panorâmicas para fins de escala que beneficiam o espectador, mas toda a ação efetiva se passa na tumultuada ponte do navio do título, com o Krause de Hanks incessantemente andando de estibordo a bombordo recebendo informações e soltando instruções com o jargão típico – e muitas vezes ininteligível – dos marinheiros.

Falando nisso, mesmo não tendo como medir se os diálogos técnicos realmente condizem com a realidade da época, é de se tirar o chapéu como Hanks conseguiu escrevê-los com o grau de veracidade que eles passam ao espectador, com sua atuação precisa e direta, mas mantendo elementos ternos, delicados e compassivos, como a forma como o comandante troca nomes, não consegue comer ou constantemente cita passagens da Bíblia mesmo que quase ninguém perceba os significados. Apesar de não haver exatamente desenvolvimento de personagem como as técnicas de redação de roteiros estabelecem que deve haver, Krause passa de um literal marinheiro de primeira viagem, com suas ordens sendo postas à prova pelos olhares de seus tripulantes, para um comandante não experiente, claro, mas certamente seguro do que está fazendo e do que potencialmente está sacrificando em meras horas e tudo porque seu pavor, sua relutância, sua insegurança são eficientemente disfarçados debaixo da natural elegância que o personagem exala.

Quando digo que não há exatamente personagens no longa, volto a citar Dunkirk, um filme que brilhantemente coloca a guerra como protagonista, algo que Hanks de certa forma e de seu próprio jeito procurar emular aqui. Se Krause, por ser Hanks, naturalmente ganha a simpatia do espectador como um homem simples, diretor, emocionalmente controlado e muito humano, os demais personagens que populam esse pequeníssimo ecossistema da ponte do Greyhound são quase como arquétipos ambulantes, mas que cumprem sua função de trazer verossimilhança à narrativa veloz e tensa que toma conta de quase a integralidade da duração da fita.

Apesar de ser apenas seu segundo longa na cadeira de diretor, Aaron Schneider, que construiu carreira como diretor de fotografia, mostra sua formação ao traduzir visualmente as curtas e abruptas linhas de diálogo que fluem para Krause e de Krause, além de conseguir manter uma cadência quase sem parar de ação que, se tem um defeito, é ser constante demais para conseguir realmente criar tensão a todo momento. Esse é um daqueles poucos filmes que, por incrível que pareça, teria se beneficiado de mais minutagem de forma a espaçar mais a narrativa, talvez até abordando os comandantes dos outros navios que, como o líder alemão, só ouvimos pelo rádio. Mas, como o objetivo do roteiro era manter o ponto de vista fixo em Krause, talvez a duração faça sentido para evitar digressões – e não há nenhuma – ainda que talvez um pouco mais de calma para construir as sequências de ataque pudessem ter contribuído para mais momentos de roer unhas.

Os efeitos especiais são usados de maneira econômica e são eficientes, ainda que talvez polidos demais para a proposta realista do filme, com o oceano, os navios e os submarinos por vezes parecendo certinhos e arrumadinhos demais para passar o ar de desespero que toma o comboio quando a “alcateia alemã” se aproxima. O contraste entre as sequências externas, que se baseiam quase todas em CGI com as sequências na ponte, todas com cenários “reais”, é bastante grande e inicialmente até distrai, mas o comando da narrativa por Schneider logo cria conforto visual quase que naturalmente, mas sem nunca chegar à perfeição.

Greyhound lida com um terrível conflito em larga escala visto a partir da visão de um homem comum e praticamente confinado à sua ponte de comando que expressa coragem não com atos físicos ou esperando medalhas e fogos de artifício, mas sim com olhar humano, voz impassível, mas sempre tonalmente educada e respeitosa e, talvez, acima de tudo, autenticidade e honradez sem par que comanda lealdade e reverência de todos ao seu redor. Um filme muito eficiente em sua proposta que, mesmo que eventualmente não seja lembrado entre os melhores da carreira de Tom Hanks, o que, convenhamos, não é nada fácil considerando o leque de obras protagonizadas por ele, certamente merece atenção.

Greyhound (Idem, EUA – 10 de julho de 2020)
Direção: Aaron Schneider
Roteiro: Tom Hanks (baseado em romance de C.S. Forester)
Elenco: Tom Hanks, Elisabeth Shue, Karl Glusman, Stephen Graham, Tom Brittney, Devin Druid, Rob Morgan, Lee Norris, Manuel Garcia-Rulfo, Grayson Russell, Kadrolsha Ona Carole, Maximilian Osinski, Matthew Zuk, Michael Benz
Duração: 91 min.

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