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Crítica | Grito de Horror (1981)

por Leonardo Campos
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1981 foi um ano de produções rentáveis no âmbito do terror, em especial, na representação dos lobisomens, criaturas presentes em praticamente todas as culturas antigas, monstro que tal como sabemos, representa a fusão entre homens/mulheres e animais, algo que provavelmente busca explicar desde os tempos mais remotos, a violência e fúria inerente aos humanos. Antes de adentrar na análise de Grito de Horror, pequeno clássico dirigido por Joe Dante, inspirado na novela de Gary Brandner, gostaria de fazer uma breve excursão pelo processo histórico de formação da figura dos lobisomens, algo também realizado nas reflexões sobre Um Lobisomem Americano em Londres, curiosamente lançado no mesmo ano. Desde a mitologia grega, a relação social com este monstro foi estabelecida, pois é destas bases que temos a formação do termo licantropia. Conta-se que o Rei Licaão, da Arcádia, recepcionou Zeus durante uma visita e o fez comer as vísceras cozidas de seu próprio filho. Essa é uma das explicações para a transformação mágica do ser humano num lobo, oriundo de uma punição divina, algo explicado por meio de outros animais nas mais variadas culturas que formam o extenso caldeirão do imaginário popular mundial.

Outras explicações buscam compreender economicamente este fenômeno, pois o mito também pode ser explorado dentro de um viés histórico, já que crianças eram ofertadas como sacrifício humano, parte de rituais que tinham como objetivo, aplacar os lobos furiosos que devastavam extensos rebanhos de ovelhas, base de sustentação dos processos econômicos locais. São formas adicionais de se explicar mais detalhadamente histórias que não se formaram basicamente de fontes exclusivamente literárias, mas que foram adaptadas com base na observação de elementos da própria cultura, legado que se estendeu aos séculos seguintes e ganhou a cultura cinematográfica vertiginosamente, haja vista o potencial deste material para a elaboração de conflitos dramáticos e desenvolvimento de narrativas esteticamente voltadas ao ominoso e violento, tal como ocorre com Grito de Horror, orquestração do medo embasada pelo roteiro escrito por John Sayles e Terence H. Winkless, narrativa acompanhada pela trilha sonora de Pino Donaggio e suas partituras sempre peculiares. Há ainda um elo com Rick Baker, “maquiador do horror”, consultor do trabalho com os lobisomens realizados por aqui, criaturas desenvolvidas por Rob Bottin, numa colaboração com os eficientes animatrônicos da equipe de David Allen.

Em suma, um grupo de produção competente, voltado a nos apresentar, ao longo dos 91 minutos de narrativa, a trama em torno de Karen White (Dee Wallace). Ela é uma jornalista que tem o desprazer de encontrar um dos momentos mais aterrorizantes de sua vida enquanto buscava justamente apaziguar um trauma. Prestes a encontrar o criminoso Eddie Quist (Robert Picardo) enquanto trabalha numa reportagem, a jovem repórter busca o furo e até consegue o material para a emissora, mas fica na mira do assassino e quase tem a sua vida ceifada. O incidente cria algumas cicatrizes profundas e o seu psiquiatra, o Dr. George Wagner (Patrick MacNee), indica a necessidade de uma pausa para os ânimos, dando inclusive o endereço de uma colônia própria para o alcance destes momentos de tranquilidade. O que deveria ser, por sua vez, o contraponto do estresse urbano se torna uma soma de momentos de horror quando ela descobre, da pior maneira possíveis, a presença de uma sociedade secreta de lobisomens na região, monstros assustadores que transformam para sempre a história de sua agitada vida.

Com uma mitologia bem peculiar, mas repleto de elementos já estabelecidos culturalmente na sociedade, Grito de Horror traz para a cena uma abordagem interessante para os lobisomens, inferior se ficarmos na crítica comparativa com o mote de Um Lobisomem Americano em Londres, também de 1981, algo que não acredito que seja importante para compreendermos o sistema de valores em torno do filme considerado um clássico cult por muitos interessados em terror e na licantropia no cinema. Além da trajetória de Karen White, destacam-se na narrativa, o marido da personagem, Bill (Christopher Stone), um homem que precisará conter a pulsão sexual dos rituais contemplados na tal colônia; e Fred (Kevin McCarthy), parte integrante da sua dimensão social, colega de trabalho da equipe de jornalismo da KDHB, a emissora que será palco para um desfecho com reviravoltas e muita monstruosidade. Ademais, para fazer o filme dar certo e funcionar a ponto de se tornar uma referência no imaginário cultural relativamente recente, temos a direção de fotografia assertiva de John Hora, eficiente em diversos aspectos, mas em destaque especialmente pelo seu trabalho de iluminação e relação com a importância do jogo de contrastes entre luz e sombra, alegoria para a própria narrativa, funcional também pelo design de produção de Robert A. Burns, correto em sua composição de cenários internos e externos para estabelecimento da atmosfera ideal para um filme sobre lobisomens, rituais e maldições.

Antes de encerrar, complemento a abordagem panorâmica da abertura com a reafirmação do enraizamento rizomático dos lobisomens nas mais diversas culturas que formam a longa tradição narrativa de nossas sociedades. Nas bases históricas destes monstros, temos as referencias turcas que apresentam em seu folclore, a figura do lobisomem como a transformação dos xamãs em lobos durante determinados rituais. Nos desdobramentos de traços folclóricos da Suécia, os lobisomens eram mulheres que tinham a capacidade de paralisar gados e crianças com o olhar penetrante, sentido que na cultural do Haiti, reflete a imagem popular destes monstros, criaturas conhecidas por seus olhos vermelhos e astúcia ao roubar as crianças de alguns espaços e leva-las no meio da noite para realizar rituais de transferência para as suas respectivas maldições. Com elementos de vários processos formativos em torno de sua mitologia, os lobisomens em Grito de Horror funcionam bem, realmente assustam e não se deslocam entre as cenas com um visual qualquer, trabalhados como já mencionado, num conjunto de aspectos estéticos que os deixam como legítimos monstros do horror. Se talvez tivesse uma história um pouco melhor e o desenvolvimento da narrativa com um ritmo mais magnético, seria ainda melhor do que é, isto é, apenas “bom”.

Grito de Horror (The Howling – EUA, 1981)
Direção: Joe Dante
Roteiro: John Sayles, Terence H. Winkless
Elenco: Dee Wallace, Patrick Macnee, Dennis Dugan, Christopher Stone, Belinda Balaski, Kevin McCarthy, John Carradine, Slim Pickens, Elisabeth Brooks, Robert Picardo, Margie Impert, Noble Willingham, James Murtaugh, James MacKrell, Kenneth Tobey, Don McLeod, Dick Miller, Steve Nevil, Herbie Braha, Joe Bratche, Bill Sorrells, Meshach Taylor, Ivan Saric, Sarina C. Grant, Chico Martínez, Daniel Nunez, Michael O’Dwyer, Wendell Wright
Duração: 91 min

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