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Crítica | Guelwaar

por Luiz Santiago
86 views (a partir de agosto de 2020)

Obra do final da carreira de Ousmane Sembène, lançada 4 anos depois de Campo de Thiaroye, que foi o retorno do diretor ao cinema, após um hiato de 11 anos, Guelwaar usa de um motivo comicamente lúgubre para levantar uma discussão sobre a corrupção em instituições governamentais e a prolongada relação de dependência econômica do Senegal (mas aí podemos ver a realidade de todos os países periféricos), eternamente mantidos com a ajuda alimentar vinda de outras nações, instituições interessadas no país por algum motivo ou ‘celebridades benfeitoras’.

Eu comentei que o evento central do filme é “comicamente lúgubre” por um ponto de vista mais distanciado e superficial. O diretor, todavia, não trata nada do que vemos como uma comédia. Em cada um dos núcleos familiares ou religiosos Sembène aproveita a oportunidade de mostrar o modo de vida de diferentes grupos no Senegal dos anos 90, e problematiza essas questões na esfera pessoal (micro) e também na esfera social (macro), mostrando como um lado é costurado ao outro, mantendo vícios, roubos e atos de resistência, como os que vemos na briga entre cristãos e muçulmanos e principalmente na ação dos adolescentes diante dos alimentos doados, ao fim do filme.

O roteiro, que tem base em uma história real, explora todas essas situações a partir da morte, no mesmo dia, de um católico e um muçulmano. O público vê o filho da família católica entregar a notícia para a mãe. Mais adiante, sabemos que os aldeões islâmicos reivindicaram o corpo do muçulmano e o enterraram. O problema é que eles pegaram o corpo do homem católico, um dissidente político que morreu sendo agredido, após discursar contra a aceitação da ajuda alimentar estrangeira. E todas as intrigas religiosas e a denúncia da vida precária do povo das vilas surgem a partir daí. O diretor nos mostra que esses indivíduos não recebem emprego e nem são atendidos por melhorias sanitárias ou de habitação, mas seguem mantidos como cordeiros, com o governo condicionando a entrega de alimentos ao “bom comportamento” do povo.

Sembène escancara a exploração feita pelo Estado e a corrupção em diversas esferas institucionais, exibindo um tipo de “pão e circo sem o circo”, fazendo ótimo uso do flashback para mostrar cenas da vida do falecido Guelwaar e criando um contraste ou uma demonstração da memória que alguns homens da aldeia e a esposa do morto detêm dele. O que inicialmente parece apenas um drama familiar entra vagarosamente em um campo ético-moral e também religioso, para no fim do filme alcançar uma abordagem de denúncia política, que em algumas leituras pode encontrar uma importante divergência, já que o diretor argumenta que a população recebendo essa ajuda internacional mantém um posto simbólico de servidão.

De minha parte, vejo na ação dos adolescentes ao final do filme e no discurso de uma luta direta contra os controladores do poder e dos favores vindos com essa ajuda um modo de agir sobre o problema, dentro da realidade mostrada no filme. A máquina institucional só permanece intacta porque a população é mantida alimentada o bastante para não voltar-se contra seus representantes, mas privada o suficiente para ser chantageada com a possível “suspensão do auxílio”. O que o diretor faz é pensar sobre a “dignidade e o orgulho africanos“, como ele deixa claro no discurso de Guelwaar, e retirar dos donos do poder a única arma eficiente que eles ainda têm para manipular os aldeões. É certamente um caminho que abre um bom debate; mais ou menos na esfera de ideias opostas sobre um mesmo objeto que temos aqui, com cristãos e muçulmanos defendendo coisas diferentes a respeito do corpo sepultado.

O debate social e político sem ação, de nada serve. E em Guelwaar Sembène filma de maneira simbólica e realista duas formas para um definitivo passo contra a viciada ordem estabelecida. É necessário desenterrar os mortos (ou seja, trazer à tona ideias críticas e de chamada para a ação) e impedir que mais uma dose de “ópio social” chegue ao povo. Com ideais de reforma e tendo pelo quê lutar, a população certamente chegará àqueles interessados em manter a opressiva realidade imutável.

Guelwaar (França, Alemanha, Senegal, EUA, 1992)
Direção: Ousmane Sembène
Roteiro: Ousmane Sembène
Elenco: Abou Camara, Marie Augustine Diatta, Mame Ndoumbé Diop, Moustapha Diop, Ndiawar Diop, Lamine Mane, Babacar Mbaye, Belle Mbaye, Coly Mbaye, Papa Momar Mbaye, Thierno Ndiaye Doss, Myriam Niang, Joseph Baloma Sane, Omar Seck, Samba Wane
Duração: 115 min.

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