Crítica | Guerra e Paz (1956)

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Nada mais significante para finalizar a carreira de um gênio como adaptar uma obra literária tão genial quanto sua própria filmografia. Mesmo não sendo seu último filme – este foi o esquecido Salomão e a Rainha de Sabá, de 1959 – Guerra e Paz é o terreno perfeito para ilustrar as necessidades do cinema de King Vidor, um diretor de escopo inigualável, mas que procura os pormenores de cada história para ilustrá-la. O livro de Liev Tolstói não é sobre a história da invasão de Napoleão Bonaparte à Rússia, e sim um romance influenciado pelos efeitos da guerra. Por excelência, uma típica trama de Vidor.

Voltando ao início da carreira do cineasta, em 1925, é interessante traçar um paralelo entre O Grande Desfile e Guerra e Paz. São dois filmes cuja guerra é o mote principal para os eventos: no de 1925, um soldado americano que se apaixona por uma francesa durante a Primeira Guerra; no de 1956, aristocratas moscovitas que vivem suas vidas às vésperas da guerra entre Napoleão e a Rússia. Enquanto em sua primeira obra-prima, Vidor encontrava a beleza do mundo no meio de um evento terrível, resumindo-o em planos e contra-planos da guerra e do romance das personagens principais, Guerra e Paz é sobre o desencontro, a invasão napoleônica impossibilitando o romance.

A eficácia do deslocamento do núcleo dramático para os enredos do romance faz com que a guerra proporcione ecos na dimensão existencial de seus personagens, inquietação que se reproduz tanto pelas ocasiões propostas por Tolstói e Vidor, além da larga duração de três horas e meia do longa-metragem. Há uma relação intransigente entre as personagens de Henry Fonda e Audrey Hepburn, amantes que raramente se cruzam, cujo deslumbramento se dá mais pelos rastros de cada um que pela objetividade de um encontro.

Vidor encontra na plasticidade de um drama de época essa estilização moderna, cuja alegoria espacial do estúdio compreende essa apreensão fatalista burguesa, que está na beira de um colapso mesmo que ainda no paraíso colorido da Moscou construída em estúdio. Na abertura do filme há essa citação sobre a vinda de Napoleão: “Napoleão estava a 1.600 km dali e as ruas de Moscou eram ótimas para desfiles“, frase que denota a decadência programada que assombra a trama.

Se o romance entre Hepburn e Fonda pode sobreviver uma guerra e três horas e meia de duração, é inabalável. Tolstói escreve – e essa citação fecha o filme de Vidor – que a mais difícil e essencial das coisas é amar a vida, porque ela é tudo que temos. Amar pode ser difícil mesmo em tempos de guerra, mas é nossa maior prova de resistência. O amor do casal pode estar à deriva, mas é a única maneira de sobreviver.

Guerra e Paz (War and Peace) – 1956, EUA
Direção: King Vidor
Roteiro: King Vidor, Bridget Boland, Mario Camerini, Ennio de Concini, Ivo Perilli, Gian Gaspare Napolitano, Mario Soldati, Robert Wsterby
Elenco: Audrey Hepburn, Henry Fonda, Mel Ferrer, Vittorio Gassman, Herbert Lom, Oskar Homolka, Anita Ekberg, Barry Jones, Mary Britt, Jeremy Brett, John Mills, Helmut Dantine, Tullio Carminati
Duração: 208 mins.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.