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Crítica | Guerra e Paz (2016)

por Fernando JG
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A série escrita por Andrew Davies e dirigida por Tom Harper desafia o tradicionalismo e a gravidade tolstoiana e imprime um tom moderno e contemporâneo num enredo clássico. Com apenas seis episódios, a produção da BBC tem muito mais pontos positivos do que negativos, além de entregar uma unidade temática muito completa e redondinha. Estrelada por Paul Dano (Pierre Bezukhov), Lily James (Natasha Rostova) e James Norton (Andrei Bolkonsky), a minissérie tem escolhas estratégicas para manter o reconhecimento do público, ou ao menos para ter uma marca distintiva em relação às produções anteriores. O argumento faz recortes muito específicos do romance e dá valor não só às cenas tradicionais e já aguardadas, como a cena da entrada de Natasha no jardim real, a festa do urso, a fúria de Pierre com Helena, o recuo do exército etc., mas também às subtramas insinuadas por Tolstói, como a sugestão de um caso incestuoso entre os irmãos Kuragin, que é geralmente abafado pela crítica literária como um todo, mas que é posto em evidência no argumento de Andrew Davies, que desafia ao pensar essas cenas escondidas como marca autoral de sua série. 

Muito longe de ser uma antologia – como a tetralogia de Sergei Bondarchuk que tensiona ao máximo o caráter antológico de seus filmes, ao mesmo tempo em que produz uma unidade indispensável entre as quatro produções -, a série se organiza em torno do motivo da guerra, sendo todos os episódios uma construção que visa a chegada do conflito. Em resumo, o enredo trata da história de algumas notáveis famílias russas (Bezukhov, Bolkonsky, Rostov, Kuragin) em suas tramas íntimas e familiares, investigando aspectos que perpassam o cotidiano dos moradores da corte, como os casos de infidelidade, fofocas, vaidades, ideologias, desejos, no contexto das Invasões Napoleônicas. Quando ocorre a guerra entre franceses e russos, toda essa rotina palaciana é colocada de cabeça para baixo, mexendo não só com o lado político desses personagens da realeza russa, mas também causando uma mudança brusca em suas vidas pessoais. 

O primeiro episódio apresenta de modo integral os personagens principais e já insere os núcleos articuladores da trama como um todo, como Pierre, Helene, Bolkonsky, Sonya, entre outros. Helene Kuragin e seu irmão, Anatole, são pintados já no início com uma vilania interessante, mas às vezes exagerada. O terceiro episódio é o ponto de virada crucial da série, pois ocorre a grande cena do baile no salão nobre e a primeira dança de Natasha com Bolkonsky. A série busca trabalhar episódios já esperados, conhecidos e consagrados do romance. Mesmo bebendo diretamente da fonte, a direção opta sempre pelo desafio e conduz a cena da valsa entre Natasha e Bolkonsky com uma montagem que poderia dar errado, mas funciona. A construção do episódio da dança faz a opção de retirar o som ambiente e introduz uma trilha sonora exterior sobre a imagem, produzindo um momento esteticamente belo e também emocionante. Aliás, um ponto de destaque e um toque requintado de contemporaneidade dado à série é justamente a trilha sonora composta por Martin Phipps, que oferece tensão, tristeza, humor, paixão, tudo na adequação do som com a imagem. 

A intensidade dramática de Natasha não é tão explorada aqui, mas a sua doçura permanece como marca, no entanto, é uma doçura comum, muito diferente da incontornável Lyudmila Savelyeva, que fez a Natasha na tetralogia de Sergei Bondarchuk. Aqui ela apenas sorri e às vezes sem muita necessidade ou motivação, o que aparenta uma certa flacidez na personagem. Paul Dano tem uma bela atuação, e James Norton também convence como Andrei Bolkonsky. O destaque, do ponto de vista da personagem, fica à cargo de Helene, a vilã. Existe uma certa tentativa de vilanizar a figura de Helene Vasily, mostrando ela como encantadora mas malvada. É interessante a ideia desses pequenos momentos de suspense no início da série, com os irmãos Kuragin sendo o núcleo desse suspense. 

Da perspectiva formal, o slow motion como aspecto descritivo é genial e muito necessário nos momentos da guerra, fazendo com que a gente perceba os detalhes ao redor, forjando uma tensão bélica importante, além disso, são estes os momentos em que o plano se abre, dando conta de todo o espaço narrativo. A construção da atmosfera onírica ao redor da festa do urso é excelente, pois só nos é relatada através de lembranças cortadas, por flashbacks do delírio da noite anterior, já que Pierre estava muito bêbado.

O que a série faz em seu interior é, em boa parte, embelezar o argumento com imagens bonitas e preencher o texto com polêmicas do interior das famílias, com um destaque notável para os atos sexuais e os escândalos, afastando-se um pouco de uma via tradicional. Andrew e Harper trazem um tom jovem e contemporâneo para uma peça historicamente marcada, datada e de época. Todos esses aspectos autorais fazem com que a série tenha uma cara inglesa, com traços ingleses na forma da condução do enredo e das temáticas, privilegiando bastante esses “pequenos dramas familiares”, e às vezes até resumindo o argumento a isso. Com esse caráter, a série tem a aparência de ser uma releitura pop de um clássico tradicionalíssimo. Apesar de um parecer favorável como um todo, e bem favorável, esta é uma série que, apesar de desafiar o lugar-comum e ser inovadora do ponto de vista temático, não alça voo à grandeza, mas rende controvérsias e discussões, entregando boas atuações, com tramas e intrigas bem construídas. Com esse trato especial na produção de um argumento já consagrado, Davies e Harper permitem que essa entidade chamada Guerra e Paz se torne palatável e atraente ao público geral.

War and Peace (Reino Unido, 2016)
Direção: Tom Harper
Roteiro: Andrew Davies (baseado no romance de Liev Tolstói)
Elenco: Aisling Loftus, Jack Lowden, Tom Burke, Tuppence Middleton, Callum Turner, Rebecca Front, Greta Scacchi, Aneurin Barnard, Mathieu Kassovitz, Stephen Rea , Brian Cox, Kenneth Cranham, Ken Stott, Gillian Anderson, Jim Broadbent.
Duração: 60 minutos cada episódio (6 episódios)

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