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Crítica | Guerra e Paz – Parte III: 1812 (1967)

por Fernando JG
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O 1812, apesar de não ser o último da tetralogia, já confirma a competência da direção frente a este filme, e evidencia a importância do papel de um diretor de cinema no desenrolar de uma trama. O olhar do cineasta e co-roteirista produz um paradoxo dentro da estrutura da produção fílmica: o Guerra e Paz é uma obra única, una e coesa, de quatrocentos minutos. No entanto, apesar de todas as partes formarem um todo inseparável, cada uma delas operam separadamente, como filmes autônomos, construindo suas próprias intrigas, seus próprios ritmos dramáticos, empregando diferentes climas e técnicas, falando de diferentes personagens e situações, que, no fim, apesar de serem estas partes absolutamente livres, elas se amarram e resultam no Guerra e Paz, dirigido por Sergei Bondarchuk. Esse caráter multifacetado empregado na obra é trabalho do diretor, que não deixa a peteca cair e varia suas habilidades ao longo de quatro filmes, dos quais nenhum é muito melhor do que o outro, mas ambos são todos muito bons. 

As telas panorâmicas pintadas por Franz Roubaud, um pintor do realismo russo, são transportadas para dentro deste filme. Acho que valeria conferir a tela The Battle of Borodino, que aparece como que repintada por Bondarchuk através do cinema. Roubaud aplica a perspectiva de imagem panorâmica em seus quadros, justamente para tentar captar a totalidade do ambiente, com a destruição em massa, a correria dos soldados, campos em fogo, sempre com uma tonalidade muito próxima do expressionismo, com pinceladas amarelas, tudo para montar o quadro da guerra. Geralmente, este é um tipo de pintura utilizada para retratar momentos históricos com muita verossimilhança. No filme, é quase que constante, na última meia hora ininterrupta de batalha, o uso desta imagem panorâmica, com os mesmos tons na paleta e com a mesma finalidade, mas a imagem da película é manipulada pelo plano-aberto, por isso que é tão prazeroso assistir a esses momentos marciais, porque o diretor permite que vejamos a gravidade e a intensidade do conflito. Só para contextualizar: o 1812 narra a Batalha de Borodino, entre franceses e russos durante as invasões napoleônicas, naquele momento em que a burguesia republicana tenta derrubar as monarquias absolutistas após a badalada e bem sucedida Revolução Francesa. O conflito de Borodino é o mais sangrento de toda a campanha da Rússia, com dezenas de milhares de mortos e mutilados. É este o contexto que o diretor precisa trabalhar em seu longa-metragem. 

A trama do Guerra e Paz – 1812 gira em torno de duas partes: a primeira faz a preparação para a batalha e a segunda ocorre o conflito propriamente. Depois do fracasso de Austerlitz diante da armada francesa, o pai de Bolkonsky entra em visível declínio psicológico e físico; Andrei, por sua vez, encontra-se cada vez mais em ambição pela batalha e o que mais deseja é eliminar os franceses. Rostova e Bezukhov aproximam-se um pouco mais, mas tudo logo é rompido pela eclosão do conflito. Nos momentos seguintes desta breve apresentação e desenrolar das tramas, ligando invariavelmente os dois primeiros filmes, descobrimos que o exército napoleônico invadiu a Rússia cometendo incêndios criminosos por toda a parte, confirmando o início daquilo que é anunciado pelo narrador de Tolstói, numa paráfrase, como contrário à razão humana: o conflito bélico. 

Neste longa, há importantes metáforas que representam a simbologia do fracasso russo, como a decadência do severo general aposentado Nikolai Bolkonsky e a figura outonal das folhas amareladas caindo, tudo que indica a queda da nação. Apesar do primeiro longa-metragem já ter oferecido um gostinho do que seria a guerra, as expectativas são todas cumpridas com sucesso. Há uma tensão crescente durante o primeiro ato, que toma forma no segundo. Todo o investimento que a União Soviética nunca tinha destinado antes ao cinema, agora se encaminha para esta película, que, ao filmar as cenas da batalha, investe insanamente em número de figurantes, ambiente fílmico, equipamentos. O 1812 vem depois da entrega dos dois anteriores (Andrei Bolkonsky e Natasha Rostova) ao 4º Festival de Moscou, e já pelos primeiros filmes Sergei conseguiu obter a Melhor Direção e Lyudmila Savelyeva, que fez a incontornável condessa Rostova, o de Melhor Atriz. Não apenas isso, mas os longas de Bondarchuk bateram de frente com o Andrei Rublev nos circuitos internos e externos, sendo o representante soviético em Cannes, 1967.

Com uma câmera em constante movimento, as filmagens da guerra acontecem de modo dinâmico, variando a perspectiva imagética. É muito interessante que a direção opte por uma câmera em movimento, porque dá a sensação inquietante da situação bélica, da correria e da tensão. Se dizia há um tempo que os figurantes, que são muitos, eram em torno de 120 mil. Mas na verdade se confirmou que atuaram cerca de 12 mil figurantes, para compor as cenas do palácio real e da batalha. A sincronia dos canhões atirando e dos soldados é excelente. A cavalaria em quantidade medonha correndo diante da tela é impressionante, sempre cercada e perseguida por longos planos e planos-sequência. Este roteiro produz uma ótima película, pois ele tem o privilégio de ter espaço o suficiente para trabalhar um único aspecto, que é a guerra. Ele não tem outra intenção que não esta, sem precisar se preocupar muito com o desenvolvimento psicológico dos personagens. Com tempo, dinheiro e disposição para retratar apenas o conflito de modo detalhado e com um foco bem concentrado, a conclusão crítica do resultado deste filme não poderia ser diferente senão reconhecer que é um filmão, incrivelmente bem dirigido. Como uma tetralogia, seria imperdoável se não houvesse um filme inteiro só para tratar do conflito no ano de 1812. 

As ideias antibélicas do romance de Tolstói são mantidas na mensagem do texto fílmico, que a todo instante demonstra, de maneira crítica, a ambição, o desejo de poder e a arrogância como partes constitutivas dos personagens. Os horrores do campo de batalha estão ali, na nossa frente, como fruto de tudo isso. Se o Natasha Rostova é um filme com tons de majestade, elegância e melancolia trágica, o 1812 é um filme grave, antilírico e tenso, que pressiona a atmosfera fílmica ao limite, fazendo com que o longa, com um clima tensionado pela guerra, funcione em sua proposta. Como um filme de guerra, um blockbuster, a trama funciona perfeitamente; como obra compositiva, ou seja, que compõe a tetralogia, idem. O teor bélico é excepcional, a utilização dos planos (longos, abertos e sequenciais) é cuidadosa e o desenrolar dos acontecimentos ocorre de maneira autônoma, ao mesmo tempo em que amarra todo o Guerra e Paz. Assim, depois de finalizar as primeiras partes e conquistar o Festival de Moscou, Bondarchuk retorna e entrega mais um trabalho irretocável para o cinema moderno. 

Guerra e Paz, parte III – 1812 (Voyna i Mir) – URSS, 1967.
Direção: Sergei Bondarchuk
Roteiro: Sergei Bondarchuk, Vasiliy Solovyov (baseado no romance de Liev Tolstói)
Elenco: Sergei Bondarchuk, Lyudmila Savelyeva, Vyacheslav Tikhonov, Oleg Tabakov, Irina Skobtseva, Anastasiya Vertinskaya, Antonina Shuranova, Aleksandr Borisov, Viktor Stanitsyn.
Duração: 80 min.

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