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Crítica | Guerra e Paz – Parte IV: Pierre Bezukhov (1967)

por Fernando JG
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O filme que é intitulado com o nome do conde Pierre Bezukhov faz o desfecho da tetralogia épica de Sergei Bondarchuk. Muito embora a película não seja especificamente sobre ele, a sua figura aparece como fundamental no curso dramático, pois é a partir dele que somos colocados em importantes cenas do enredo fílmico, ou seja, ele está presente em episódios extremamente relevantes. É ainda através da sua ótica que conseguimos ver a versão russa da guerra contra o império napoleônico. Isto explica o título do último capítulo, que se chama Pierre Bezukhov. Diferente dos outros, a trama deste filme não é tão autônoma assim, e é notória a sua característica de continuação e encerramento. Aqui as histórias são finalizadas e o desenlace acontece ligando todas as obras anteriores. Depois de meses sem produzir quase nada devido a um colapso nervoso, Sergei volta para os estúdios e finaliza o capítulo III (1812) e no mesmo ano encerra a tetralogia com a entrega do capítulo IV  (Pierre Bezukhov), concluído o projeto com um grande final de exaltação à nação russa. 

O argumento gira em torno dos desdobramentos do 1812, em que Napoleão invade Moscou logo após a batalha de Borodino. Aqui, no último capítulo, acompanhamos a destruição total da cidade de Moscou e a tomada da cidade símbolo da Rússia pelo exército napoleônico. Com a invasão, vemos a fuga da família Rostov; o declínio de Andrei Bolkonsky; a retirada do povo moscovita; a reviravolta Russa e o casamento da condessa Natasha com Pierre. Este longa é visivelmente o mais trabalhoso e o mais caro, já que a destruição da cidade é intensa, os incêndios, inúmeros, e os figurantes em quantidade invejável. A escolha em trabalhar cenas tão robustas exigiu um esforço muito mais extenso e engajado de toda a produção, inclusive, e sobretudo, financeiramente. Neste longa, são narrados acontecimentos que mudaram a história do povo russo para sempre. 

Especialmente nesta quarta parte, a estética construída ao redor da película chega ao seu ápice: cada frame transforma-se em uma tela, como que pintada à mão, de tão harmoniosa que resulta a união de um enquadramento bem escolhido, de um foco cuidadosamente bem trabalhado e de uma paleta de cores que dá o tom perfeito para a atmosfera das cenas. O sombreamento e a palidez que pintam os episódios da destruição da cidade são sublimes, e faz a coroação da atuação dramática dos atores desolados diante dos incêndios do principal centro econômico, político e populacional de toda a Rússia. 

Algumas cenas são verdadeiros feitos da arte cinematográfica em seu estado mais puro. O breve monólogo de Pierre em delírio é um ponto alto da trama, e não fica atrás da cena em que ele, um russo, surpreende o capitão da armada francesa ao conversar com ele em francês. No entanto, apesar delas, o episódio da morte do príncipe Andrei Bolkonsky é o grande momento de toda a trama. O príncipe, que é o melhor amigo do Pierre, acaba sofrendo graves lesões na batalha de Borodino, e então fica entre a vida e a morte. Já deitado numa cama de hospital, Andrei tem um sonho surreal e metaforizado com a chegada da morte, que é um prenúncio do seu destino. Ao despertar do sonho, Andrei se percebe vivo, mas acaba morrendo nas horas seguintes. Para quem viu o Non, ou a Vã Glória de Mandar (Manoel de Oliveira, 1990), a cena da morte de Andrei será quase que recriada no momento do delírio pré-morte do soldado português naquela ocasião, que agoniza em cima de uma cama logo após ser ferido durante a guerra colonial portuguesa. De todo modo, é uma cena esteticamente bela e tecnicamente cuidadosa, produzindo um momento visualmente complexo e surreal. 

Já relatei inúmeras vezes a importância da figura da Natasha para o funcionamento dramático e a direção tem plena consciência de que ela foi uma construção que deu certo. É até curioso que a direção, em todos os filmes, explore o enfoque de zoom no rosto da protagonista, sobretudo em seus momentos emocionais mais limítrofes. São instantes que já tinham dado certo nos primeiros filmes, e com o sucesso imediato dos longas e da personagem principal, Sergei retoma nos capítulos seguintes o mesmo trabalho de enfoque nas expressões de Natasha, interpretada por Lyudmila Savelyeva. Lyudmila é tipicamente uma atriz dramática do mais elevado grau, e a sua Natasha Rostova é nada menos que marcante. 

Há também a visão russa sobre a guerra e sobre os franceses. A invasão napoleônica e os episódios de tortura e assassinato pelo exército franco são contados a partir da ótica do povo moscovita, que pesa o olhar sobre a nação francesa. Certamente não é um filme parcial, e nem é a sua intenção ser, afinal de contas, é uma obra produzida na União Soviética, em um momento de prosperidade e entusiasmo, a partir de um autor que fundou a Rússia na literatura moderna. Há um final moralmente nacionalista, com um enaltecimento da pátria a partir de uma visão ideologicamente marcada. Com a sua versão da história, o longa utiliza-se com propriedade dos fatos para construir as cenas que serão responsáveis por pintar a figura dos franceses como bastardos e assassinos. 

Sobre a unidade Guerra e Paz, que contempla os quatro filmes juntamente, tenho algumas considerações. Uma coisa que chama a atenção, de fato, foi a reconstrução dos personagens pelo cineasta soviético. Apesar de alguns protagonistas serem retratados de maneira semelhante aos de Tolstói, em outros, a diferença é visível – e como o resultado destas mudanças no enredo trouxeram apenas coisas positivas ao curso dramático, elas são todas muito bem aceitas, sobretudo porque as mudanças são coesas e fundamentadas num senso estético e narrativo impecáveis. O que eu quero dizer com isso? quero dizer que é admirável a autonomia que o cinema tem para fazer a reinterpretação de obras de arte universais, como é feito nesta releitura do romance russo mais importante do século XIX. Não é simplesmente a adaptação definitiva de Tolstói, o que já é mais que suficiente, – convenhamos – mas é, na verdade, uma releitura com características muito próprias, muito autorais, específicas e distintivas do romance. Ao mesmo tempo em que é uma película absurdamente original, ela não deixa de ser, jamais, uma adaptação cerrada do enredo do livro. Não se trata, aqui, de um filme que é “uma adaptação do romance”, pura e simplesmente, como muitas adaptações que existem por aí, muito pelo contrário, este é o filme pleno e decisivo de Guerra e Paz, o que significa colocá-lo à altura da obra literária, no entanto, em termos cinematográficos. É isto o que torna a unidade deste longa-metragem uma obra-prima, porque ele não é apenas uma apropriação de Tolstói, ele é um filme por completo, autônomo. Um filme do cinema de primeira ponta; um filme dos bons. 

Agora que chegamos ao fim, percebo que existem algumas diferenças entre os personagens recriados por Sergei e os personagens de Tolstói. Pierre Bezukhov, de fato, continua sendo um protagonista essencialmente lírico, sentimental e com um nível de complexidade gigantesco. Ao fim do filme, é possível perceber que talvez ele tenha sido o grande herói do enredo. Andrei é o mesmo niilista, melancólico de sempre, notadamente apático e bem representado. Contudo, a surpresa fica por conta de Natasha Rostova, que é um caso interessante, pois o cineasta faz um trabalho de exaltação da sua personagem feminina mais icônica. No cinema de Sergei ela é excelente, mas enquanto uma personagem literária ela tem um fim um pouco diferente da grandeza que foi comumente atribuída à ela. No romance, apesar de ter um fim resignado ao lado de Bezukhov, ela é desmontada por inteiro. Toda a sua beleza é desfeita após o casamento, e é até meio que grotesca a sua metamorfose. No filme, o cineasta esconde as falhas e o desmanche de Rostova, que é reduzida por Tolstói à uma dona de casa, mal cuidada e com vários filhos. Na película, o cineasta sustenta todas as características mais elevadas e majestosas da personagem e encerra a história de Rostova com um flashback de seus momentos mais incríveis na trama, flashback este que é iniciado, como não poderia deixar de ser e como já comentei antecipadamente na crítica do primeiro filme (Andrei Bolkonsky, 1965), com sua entrada radiante e encantadora através da porta de entrada do salão nobre, no shot cinematográfico mais complexo de todo o Guerra e Paz, quando da ocasião da apresentação da personagem. Natasha é aperfeiçoada no filme, quando a obra literária a havia negligenciado. A protagonista feminina é retrabalhada e aperfeiçoada tão cuidadosamente que ganha um filme só para ela, que é o lírico e elegante Natasha Rostova (1966), o longa-metragem que tem um clima elevadíssimo de realeza. 

Guerra e Paz – Pierre Bezukhov encerra a tetralogia dirigida por Sergei Bondarchuk. Apesar de dirigido por ele, o longa, certamente, não foi produzido pelo cineasta. O Guerra e Paz foi pensado e financiado pelo Estado Soviético como uma maneira de demonstrar superioridade cultural diante dos Estados Unidos, que tinham acabado de lançar a sua versão do romance de Tolstói há alguns anos antes. Para fazer frente ao principal adversário, a URSS entrega, no contexto da guerra fria, uma das grandes obras do cinema mundial, com rigor e medida. Não foi à toa que o Estado investiu o que equivaleria hoje a, mais ou menos, 100 milhões de dólares, ajustado com o aumento da inflação, no maior financiamento dado para a produção de um filme na URSS. Um dos grandes sucessos da história soviética, a tetralogia correu o mundo inteiro e foi rodada na BBC logo em seguida. A obra de arte ultrapassou as barreiras políticas e ideológicas entre os países capitalistas e socialistas. No Oscar de 1969, a obra foi apresentada por completo, uma vez que nos festivais anteriores tinham sido apresentadas ao público somente as duas primeiras partes. Na ocasião do Oscar, a película saiu como o Melhor Filme Estrangeiro, sendo ainda indicada em Direção de Arte. O filme ainda rodou por Nova York e saiu ganhando outras premiações independentes. A película conduzida pelas mãos certeiras de Bondarchuk chega ao fim amarrando tudo o que veio antes, concluindo, de modo soberbo, o seu enredo de Guerra e Paz

Guerra e Paz, parte IV – Pierre Bezukhov (Voyna i Mir) – URSS, 1967.
Direção: Sergei Bondarchuk
Roteiro: Sergei Bondarchuk, Vasiliy Solovyov (baseado no romance de Liev Tolstói)
Elenco: Sergei Bondarchuk, Lyudmila Savelyeva, Vyacheslav Tikhonov, Oleg Tabakov, Irina Skobtseva, Anastasiya Vertinskaya, Antonina Shuranova, Aleksandr Borisov, Viktor Stanitsyn.
Duração: 100 min.

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