Crítica | Guerra Fria (2018)

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Uma das características de longos governos autoritários é emparelhar a arte dentro de um “realismo político” que, em uma frase simples, louve os heróis do regime, exalte as ideias do regime, esteja de acordo com aquilo que o regime acredita ser o ideal para a arte. Entre 1944 e 1989, a Polônia foi chamada de “República Popular”, sendo um Estado-satélite da URSS. Guerra Fria (2018) é um filme que aborda o começo desse período sob o ponto de vista da música popular polonesa, mostrando a construção dos corais nacionalistas e grandes eventos orquestrais e dançantes durante os governos de Bolesław Bierut e Aleksander Zawadzki.

Na trama, o contexto de repressão está claro e a terrível sobra do “realismo soviético” se vê na forma como um espetáculo de música tradicional se torna um ode ao governo. No centro das atenções estão Wiktor (Tomasz Kot) e Zula (Joanna Kulig), compositor, pianista e cantora que se encontram na seleção do primeiro grande grupo folk formado pela Escola de Música. A história do casal avança pelos anos, em diferentes cidades. Origens distintas, pensamentos distintos e muita propensão à discussão marcam a dupla, mas ainda assim, eles não conseguem evitar a paixao. E é diante dessa história de amor complicada e embrulhada em repressão política e direcionamento do regime comunista para uma “arte padrão” que o amor, os encontros e os desencontros dos dois acontecerão.

Vencedor do prêmio de melhor direção em Cannes, Guerra Fria não é, para efeito de exatidão na classificação, um filme político. Trata-se na verdade de um romance que se passa em um momento social delicado e cujas garras irão arranhar o casal principal em diversos momentos e de diversas formas. Na assinatura, o trabalho de Pawel Pawlikowski (mesmo diretor de Ida) é de fato brilhante, especialmente na primeira metade. As apresentações musicais locais, a bela forma de mostrar rostos, instrumentos e espaços; o contexto dos grandes grupos de artistas pré-selecionados e os belos momentos de música tradicional da obra são um verdadeiro espetáculo, tendo aí a trilha sonora um papel muito importante na transformação dessas sequências em blocos épicos. O grande problema, no entanto, ocorre quando tentamos cruzar essa linha musical e o autoritarismo do governo sobre todos, mais a difícil história de amor entre Wiktor e Zula.

O impasse se acumula a partir da primeira separação do casal e em todo o restante do filme esse problema encontrará camadas ainda mais questionáveis do roteiro. A direção se mantém em alta, mas na segunda metade da obra, a montagem não valoriza tão bem assim o trabalho de Pawlikowski, quebrando e dando continuidade a cenas que nos faz pensar duas vezes o que vimos. A música, no entanto, continua presente, costurando o relacionamento em crise, ressaltando as novas marcações do governo na vida dos amantes e novamente o roteiro quebra a narrativa de amor para começar mais um ciclo de solidão e emendar novamente em outra narrativa de amor, de reencontro fadado à separação. As idas e vindas de Guerra Fria delineiam o título como um significado maior que o histórico, isso é verdade, mas não há nada mais além disso que podemos elogiar desse pêndulo.

O filme não se dá tempo o de construir algo. Em vez disso, há uma passagem temporal e geográfica de pessoas e cenas que mesclam música, repressão e política, mas nunca como uma linha sólida de acontecimentos que irão desembocar na decisão final do casal. Há aqui uma grande beleza estética, através da direção de fotografia e as atuações, especialmente de Joanna Kulig, mais uma vez incrível em cena. Todavia, a maneira como o roteiro nos conta a metade final da história está segmentada demais para gerar um contexto diante do qual a maior parte dos espectadores irão se importar de verdade.

Guerra Fria (Zimna wojna) — Polônia, França, Reino Unido, 2018
Direção: Pawel Pawlikowski
Roteiro: Pawel Pawlikowski, Janusz Glowacki, Piotr Borkowski
Elenco: Joanna Kulig, Tomasz Kot, Borys Szyc, Agata Kulesza, Cédric Kahn, Jeanne Balibar, Adam Woronowicz, Adam Ferency, Drazen Sivak, Slavko Sobin, Aloïse Sauvage, Adam Szyszkowski, Anna Zagórska, Tomasz Markiewicz, Izabela Andrzejak
Duração: 84 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.