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Crítica | Guerra por Procuração

por Ritter Fan
132 views (a partir de agosto de 2020)

No terceiro filme da saga realista da Yakuza iniciada em Luta Sem Código de Honra, o diretor Kinji Fukasaku e o roteirista Kasuo Kasahara, depois de desviarem-se da história principal com um excelente spin-off, retornam ao foco em Shozo Hirono, personagem vivido por Bunta Sugawara baseado em Kōzō Minō, cujas memórias serviram de base para os artigos jornalísticos de Koichi Iiboshi, por sua vez matéria-prima para os roteiros. E essa volta à linha narrativa principal marca o efetivo início da chamada Guerra de Hiroshima, em que famílias mafiosas rivais digladiaram-se na cidade e arredores ao longo dos anos 60.

O roteiro de Kasahara luta para manter a concisão, mas nem sempre consegue, bombardeando o espectador com nomes de personagens e de famílias em uma meia hora inicial tão confusa quanto o terço inicial do primeiro longa, pelo que a perseverança é chave aqui, algo bem menos necessário em Duelo em Hiroshima. Em linhas gerais, a história macro lida com a rivalidade não exatamente entre a Yakuza de Hiroshima, mas sim entre as famílias Akashi e Shinwa (esta chamada de Grupo Shinwa) da cidade próxima de Kobe. Como o título do longa dá a entender, essas duas grandes famílias “estrangeiras” é que travam uma “guerra por procuração” por meio das famílias de Hiroshima, todas disputando a consolidação de poder da família Yamamori, o que é uma mímica das grandes potências – EUA e URSS – travando guerras por procuração ao redor do mundo durante a Guerra Fria (e até hoje, claro).

O problema maior do longa é que Kasahara demora demais para introduzir de verdade as famílias de Kobe na narrativa. Ainda que Hirono demonstre uma conexão informal com a família Akashi logo cedo, a sucessão de interesses em oposição ou que mudam de lado cria um vai-e-vem que não ajuda em nada na compreensão do que está acontecendo no nível micro. É evidente a versão de Hirono pelo traiçoeiro Chefe Yamamori (Nobuo Kaneko), com quem ele é obrigado a reconciliar-se, mas o filme, que continua usando a característica linguagem jornalística, fia-se demais nela, com longos textos explicativos e contextualizadores que não cumprem bem sua tarefa.

Mas, em meio a tudo isso, Bunta Sugawara ganha novamente a atenção que merece das câmeras de Fukasaku e o ator mostra-se muito mais à vontade aqui do que quando vestiu o papel de Hirno pela primeira vez. Percebe-se muito claramente uma retidão moral em seu personagem que não ganha eco em quase mais nenhum outro da série, fazendo com que ele automaticamente mereça a lealdade de seus soldados, inclusive e especialmente – para fins deste filme – do jovem Takeshi Kuramoto (Tsunehiko Watase) que logo no início passa a fazer parte da família de Hirono a pedido de seu professor e com a hesitante bênção de sua mãe e cujas ações cegas levam ao trágico clímax da fita, com direito a um dénouement muito bonito (e violento) que estabelece o cliffhanger para o episódio seguinte de maneira muito semelhante a séries de TV.

A fotografia de Sadaji Yoshida preza por manter o realismo e por filmar as sequências de ação com lentes fechadas que colocam o espectador no meio da pancadaria que, como de hábito, é frenética ao extremo, com uma coreografia que depende de muito improviso e de momentos que chegam até mesmo a ser inadvertidamente engraçados por perverter completamente o que é normalmente visto em filmes de gângster. A desglamourização de tiroteios, mortes e atentados é algo muito habilmente atingido tanto pelo trabalho de Yoshida quanto o de Fukasaku, que não fazem concessões para heroísmos, tiros certeiros e mortes “bonitas”. Tudo é muito sujo, feio e estranho como deve mesmo ser.

Guerra por Procuração pode até ser o terceiro longa da série, mas ele é muito mais o primeiro episódio da historicamente relevante Guerra de Hiroshima que marcou os anos 60 e 70 no Japão e que, de maneira muito semelhante ao que aconteceria nos EUA mais ou menos na mesma época, levaria à desmobilização do crime organizado clássico. Retornando diretamente ao estilo jornalístico com pitadas anárquicas do primeiro filme e sem medo de introduzir um enorme número de novos personagens e reviravoltas incessantes, todas baseadas em fatos reais, Fukasaku e Kasahara marcam o começo do fim de sua pentalogia produzida e lançada no curto intervalo de apenas dois anos.

Guerra por Procuração (Jingi naki tatakai: Dairi sensô, Japão – 1973)
Direção: Kinji Fukasaku
Roteiro: Kazuo Kasahara (baseado em história de Koichi Iiboshi)
Elenco: Bunta Sugawara, Takeshi Katō, Akira Kobayashi, Mikio Narita, Kunie Tanaka, Shingo Yamashiro, Nobuo Kaneko, Tsunehiko Watase, Hideo Murota, Tatsuo Umemiya, Asao Uchida, Tatsuo Endō, Tetsuro Tanba, Rinichi Yamamoto, Masataka Iwao
Duração: 102 min.

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