Crítica | Guerras Infinitas #6 (de 6)

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais edições da saga.

Não sei se é minha recente falta de paciência para sagas, minha idade avançada ou se é só burrice mesmo, mas confesso que não sei muito bem o que Gerry Duggan fez aqui. Ou melhor, não sei muito bem qual foi o objetivo final de toda sua saga Guerras Infinitas que não seja só surfar na onda do sucesso do blockbuster Guerra Infinita, do Universo Cinematográfico Marvel. Começando com um mistério que ele, acertadamente, não deixa perdurar por muito tempo, Duggan colocou Gamora contra uma combinação inusitada de heróis Marvel, trabalhando paralelamente uma narrativa ambiciosa sobre a origem do universo tendo Loki como fio condutor e, depois, criando os personagens “dobrados” (warped) que combinam dois super-heróis da editora em um só, mas cuja importância dentro da saga em si é pífia.

Mas, no final, o que já não vinha muito bem ou, talvez, apenas um pouquinho acima da média, acaba sendo desmontado por uma sucessão de eventos que desafiam a compreensão de um ser humano normal, ferindo a lógica interna da narrativa e tornando Guerras Infinitas, talvez, apenas um prelúdio para eventos futuros. Além disso, com a criação de um novo universo (o Warp World) e a recriação do universo Terra-616, achei que a história começou a se parecer demais com Guerras Secretas, de 2015, mas sem a mesma coesão e sem o mesmo peso dramático. Que o Warp World seria mantido intacto, não havia dúvidas, já que os personagens explorados nos respectivos tie-insSoldado Supremo, Martelo de Ferro, Weapon Hex, Arachknight, Pantera Fantasma e outros – são interessantes e mereceriam ser mais explorados no futuro, o que também significa mais dinheiro entrando nos cofres da Marvel Comics. O problema é como isso acontece, com a necessidade do sacrifício de Drax e de sua contrapartida humana, Arthur Douglas, abrindo e mantendo aberto um segundo portal entre universos para permitir que Adam Warlock desfaça o que Gamora fez, recrie o universo normal e mantenha o novo intacto. Afinal de contas, dentre todos os heróis cósmicos da editora, Drax é o que menos poder cósmico tem e o que ele(s) faz(em) ali parece completamente aleatório, como um truque mágico retirado da cartola que pega o público completamente de surpresa exatamente porque não houve nenhuma – e eu repito, nenhuma – preparação anterior.

(1) Loki vendo seu futuro e (2) Drax e Arthur Douglas abrindo um portal.

Aliás, falando em falta de preparação anterior, ainda que Devondra, o monstro lovecraftiano que aparentemente está devorando o SouldWorld, já tenha aparecido antes, ele sempre foi relegado a um detalhe narrativo sem importância. Mas, agora, ele – ou será ela? – ganha destaque e torna-se, do nada, um grande e extremamente poderoso inimigo que, no entanto, é derrotado pelo Hulk em algo como meia página sem qualquer cerimônia e sem que o Gigante Esmeralda flexione um músculo. É o anticlímax do anticlímax.

E os problemas do encerramento contaminam também as decisões tomadas por Warlock depois da breve pancadaria e dos portais interdimensionais, enviando Gamora para local incerto e não sabido que acaba pareando-a com o recém-renascido Magus(???) em mais uma relação estranha que testará o que exatamente a filha de Thanos fará com o jovem. Aliás, esse mesmo artifício foi utilizado recentemente na minissérie Motoqueiro Fantasma Cósmico, o que mostra, novamente, uma repetição de conceitos. Mas, como se isso não bastasse, o mártir da Marvel ainda parte para – pasmem! – transformar as joias do infinito em seres sencientes ao utilizar a joia da alma para dar uma alma para cada uma delas. Se eu disse que isso é repetição de conceito será que eu estarei me repetindo? Afinal de contas, Kobik – o cubo cósmico senciente – é exatamente a mesma coisa, até porque prevejo que as pedrinhas coloridas em breve tomarão a forma humanoide e voltarão, se duvidar, em algo como Guerras Infinitas II.

Mas e Loki lá no Universo Prime, aquele repleto de joias do infinito inertes e de Celestiais que vimos ao final da edição anterior? Bem, a coisa não melhora muito nessa sub-trama, já que o Deus da Trapaça aparentemente descobre qual é seu futuro e… desiste de tudo como uma criança birrenta que, ao ser contrariada, derruba o tabuleiro e as peças da mesa. Com isso, somos deixados com mais um mistério no colo que ratifica aquela sensação de que Guerras Infinitas foi só o prelúdio (cheio de prelúdios, por sinal) para alguma outra coisa que ainda não sabemos.

No meio dessa confusão narrativa toda, a arte de Mike Deodato Jr. tenta fazer milagre. Ele até vinha sustentando bem a história até aqui, mas nesse final ele não consegue ajudar muito. Nem acho que seja culpa do artista, pois seus traços continuam encantadores, assim como a sua clássica divisão em quadros, mantendo uma imagem geral por página. A questão é que há muito acontecendo e há muitos personagens ao mesmo tempo o que força com que a maioria deles fique por ali só enfeitando a história, sem muito o que fazer. Se o que era para ser uma briga grande é resolvido com o Hulk abrindo um buraco negro na barriga de Devondra, o que resta são diálogos infinitos que, porém, inacreditavelmente, não elucidam muita coisa (ou eu não entendi nada, o que, como disse, é uma forte possibilidade). Em outras palavras, não há artista que chegue quando o roteiro se perde tanto (aliás, vide Pecado Original, também com arte de Deodato).

Guerras Infinitas não faz jus à sua proposta e desaponta. Não tem quase guerra, o que não seria um problema se o “não ter guerra” não fosse preenchido por confusões infinitas, além de parecer mais uma saga que poderia ter sido um arco narrativo dentro de alguma publicação de grande porte, como Vingadores. Uma pena que Duggan não tenha sabido terminar sua história.

Guerras Infinitas #6 (Infinity Wars #6, EUA – 2018)
Roteiro: Gerry Duggan
Arte: Mike Deodato Jr.
Cores: Frank Martin
Letras: Cory Petit
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 19 de dezembro de 2018
Páginas: 49

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.