Crítica | Guerras Infinitas: Arachknight

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O quarto personagem amalgamado oriundo da reformulação do Universo Marvel por Gamora em Guerras Infinitas a ganhar uma minissérie solo é a improvável e completamente maluca fusão do Homem-Aranha com ninguém menos do que o Cavaleiro da Lua, formando o Arachknight (assim como Weapon Hex, não me atreverei a fazer uma tradução do nome, ainda que Cavaleiro Aranha seja um chute razoável). Ainda que tecnicamente essa não seja a melhor minissérie derivada da saga até agora, confesso que esse é o personagem que, de todos, é o que mais torço para que ganhe novas histórias.

E as razões são muito simples: respeito ao legado dos dois personagens e uma fusão equilibrada e, ao mesmo tempo, frenética deles. Diferente da reunião de X-23 com a Feiticeira Escarlate, o texto de Dennis Hopeless estabelece um novo super-herói que é, em partes iguais, Homem-Aranha e Cavaleiro da Lua, com a história do Amigão da Vizinhança, certamente por ser a mais conhecida, ser a que “dirige” a narrativa, como foi o caso em Soldado Supremo, com a história do Capitão América sendo a guia. Além disso, o autor se diverte ao aproximar mais ainda a mitologia do Cavaleiro da Lua à do Batman, considerando que o Morcegão foi uma das maiores inspirações para a criação de Doug Moench e Don Perlin em 1975 (ainda que os dois sejam personagens bem diferentes). Assim, na origem, uma fusão do Duende Verde com o Lobisomem (Werewolf by Night, não sem querer a publicação onde o Cavaleiro da Lua apareceu pela primeira vez) mata o tio Ben e a tia May depois que um jovem Peter Parker pede para os dois o levarem para casa à noite pelo Central Park. Mordido pelo Duende, mas sendo protegido por uma aranha totêmica que aparece literalmente do nada, o garoto, originalmente apenas o Peter Parker que conhecemos, desenvolve outras três personalidades, assim como o Marc Spector de começo de carreira. Nasce, assim, o Arachknight!

Tudo é muito corrido. Mantendo o padrão de apenas duas edições para esses tie-ins de Guerras Infinitas, mas criando um personagem surpreendentemente complexo e distante o suficiente de seus “originais” para exigir maiores detalhamentos, Hopeless corre desbragadamente para desenrolar sua narrativa em menos de 50 páginas e, no final, ensaia ir por um caminho, mas acaba cedendo e indo por outro consideravelmente mais simples e, de certa forma, desapontador justamente por isso. Além disso, apesar de ser uma história de origem, ou seja, o pontapé inicial para muitas outras (porque tenho certeza de que esse universo amalgamado sobreviverá ao final da saga), essa minissérie é a que mais desaforadamente deixa seu final aberto para “próximos capítulos”. Em outras palavras, Hopeless faz um aperitivo de festa aqui: gostoso, mas que não satisfaz.

(1) Mordido por um Duende-Lobisomem, salvo por uma aranha totêmica e (2) transformado em Arachknight!

E esse caminho mais simples que o autor toma é fazer uma elipse de Peter criança para Peter já multimilionário (sim, o Peter adulto é uma versão do Peter magnata de Dan Slott: e não adianta revirar os olhos, pois, lá no fundo, você sabe que foi uma ideia perfeitamente lógica!) e melhor amigo de Harry Russell, filho do recluso Norman Russell que, claro, é o tal Duende-Lobisomem (Jack Russell é a identidade humana do Werewolf by Night). Se existe uma grande vantagem nessa simplicidade toda é que Hopeless não escreve uma história como veículo para fazer desfile de novos personagens amalgamados. Temos esses três aí e mais uma ponta de M.J. (Marley Jane aqui) e uma brevíssima aparição de Michael Morfeus, junção de Morbius com Morfeus e mais nada. Isso mantém a narrativa focada no trauma de infância de Peter que o transformou em Arachknight e a oportunidade de vingança que a descoberta da identidade do vilão cria.

Mas o melhor é como Hopeless lida com as personalidades na mente de Parker, mantendo uma enlouquecedora conversa – ou melhor, discussão acalorada! – a quatro por ali enquanto a ação frenética corre solta nos quadrinhos. Se a personalidade dominante é a de Peter Parker, o problema é que ele é um rapaz nerd franzino e não combina em nada com os poderes de sua persona super-heroística. Com isso, ele tem que abrir espaço para os “demais” que vivem ali nos recantos de sua mente, um deles, claro, sendo um raivoso assassino que quer a todo custo liquidar com a raça de Norman Russell e quem mais aparecer na frente dele. Esses combates mentais são bem manejados ainda que eles tornem ainda mais evidentes que a minissérie se beneficiaria de mais umas duas edições para tudo ganhar o seu devido desenvolvimento.

Alé Garza, com sua arte, até tenta abrir espaço para diálogos internos e ações externas, mas seu espaço é realmente apertado e ele acaba sendo obrigado a apertar muita informação por página que acaba criando um frenesi desnecessário à cadência da história. Vê-se muito claramente o potencial para o artista criar sequências épicas de ação, mas elas ficam todas “emboladas” em pequenos quadros que atrapalham a fluidez. Seus traços levemente emulando mangás ajuda na leveza da história quando necessário e também a aceitarmos melhor o uniforme extremamente “poluído” do Arachknight, com direito a capuz, cinto de (in)utilidades e capa brancos do Cavaleiro da Lua por sobre um collant vermelho do Homem-Aranha, além de lançadores de teia enormes por sobre os braços. Confesso que tive dificuldade em fazer com que meu cérebro aceitasse essa combinação esdrúxula como algo possível nesse contexto, mas, no final das contas, esse descompasso visual de certa forma remete ao descompasso mental de Peter Parker e, dentro dessa loucura toda, acabei gostando.

Arachknight é, até agora, o mais interessante dos personagens amalgamados ainda que sua minissérie inaugural tenha vários problemas. Arriscaria dizer que desde o Miles Morales no Universo Ultimate (pois depois que ele veio para a Terra-616 ele transformou-se em um Peter Parker bem jovem) eu não via uma versão do Homem-Aranha tão bacana. E olha que, considerando a quantidade de “aranhopersonagens” que há por aí, isso não é dizer pouco.

Guerras Infinitas: Arachknight (Infinity Wars: Arachknight, EUA – 2018)
Contendo: Infinity Wars: Arachknight #1 e 2
Roteiro: Dennis Hopeless
Arte: Alé Garza
Arte-final: Victor Olazaba
Cores: Ruth Redmond
Letras: Joe Caramagna, Clayton Cowles
Editoria: Jordan D. White
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: outubro e novembro de 2018
Páginas: 45

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.