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Crítica | Guerreiros de Fogo (Red Sonja)

por Ritter Fan
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O famoso produtor italiano Dino de Laurentiis inaugurou, em 1982, as adaptações cinematográficas das obras de Robert E. Howard com o excelente Conan, o Bárbaro, filme que, de quebra, revelou Arnold Schwarzenegger para o mundo. Infelizmente, porém, essa obra permanece, até hoje, a única baseada em criações do autor que se sobressai, com o restante, já a partir de Conan, o Destruidor de dois anos depois, sendo absolutamente descartável.

Não temos só Laurentiis para culpar, claro, já que a direção de Richard Fleischer no segundo filme do cimério temente a Crom é tenebrosa, ainda que o roteiro de Stanley Mann não tenha oferecido muito para ele trabalhar. Mesmo que os direitos cinematográficos sobre Conan tenham ficado com a Universal, o produtor italiano tinha Schwarzenegger ainda sob contrato, algo extremamente valioso especialmente em razão do baixo salário previamente acordado. Sem, porém, poder utilizar o ator em tempo integral – as limitações salariais impunham isso – e sem poder usar a propriedade literária, o esperto Laurentiis partiu então para adquirir os direitos sobre Red Sonya (com Y mesmo), personagem também de Robert E. Howard que, porém, não tinha originalmente nenhuma conexão com o universo de Conan (até porque a história é baseada em fatos reais que se passavam no século XVI), só ganhando essa repaginada graças à versão em quadrinhos de Roy ThomasBarry Windsor-Smith que se tornou famosa pela “armadura-biquíni” que ela usava.

Nascia, com isso, a adaptação mequetrefe de Red Sonja que não é nem de longe fiel à criação de Howard ou à de Thomas e Windsor-Smith (esses dois nem crédito levaram, coitados), sendo muito mais uma versão feminina de Conan, sem tirar nem por, que conta ainda com um Conan genérico chamado Lorde Kalidor vivido pelo próprio Schwarzenegger, Sandahl Bergman, a Valéria de Conan, o Bárbaro, como a vilanesca Rainha Gedren (à atriz foi oferecido o papel de Sonja, mas ela escolheu outro) e Richard Fleischer na direção mais uma vez. Para protagonizar a fita, eis que Laurentiis, folheando uma revista de moda, deparou-se com a modelo dinamarquesa Brigitte Nielsen, então com 21 anos, selecionando-a para testes apenas oitos semanas antes da data prevista para o início das filmagens.

Os roteiristas Clive Exton e George MacDonald Fraser não tinham ideia de como contar uma história dessas e criaram uma origem corrida – de segundos mesmo – para a personagem-título que envolve magia que, porém, nunca mais é mencionada e parece apontar para um filme de vingança, somente para que, no momento seguinte, um talismã super-poderoso que só mulheres podem tocar é introduzido como sendo a arma mais cobiçada pela Rainha Gedren, por acaso a mesma pessoa responsável pelos horrores impostos à Sonja. O que vem daí é aquela típica aventura em que os heróis enfrentam obstáculos e derrotam os vilões a cada etapa, chegando à chefe final, seguido do protocolar triunfo do bem sobre o mal.

O problema é que nada – NADA – funciona de verdade. Para começar, Nielsen, apesar de imponente, é absolutamente tenebrosa como Red Sonja. Seu atributos dramáticos são tão abissais que, em comparação, fazem de Schwarzenegger ser comparável a Laurence Olivier. Aliás, o grandalhão austríaco tem participações patéticas no filme, surgindo exatamente quando é necessário para tirar Sonja de apuros e não mais do que isso. As coreografias de lutas são risíveis de tão artificiais e mal executadas. Quando o espalhafatoso sensei de Sonja, logo depois de um duelo absolutamente ridículo, diz que ela é a guerreira mais preparada que ele já viu, ou o espectador sente vontade de rir ou de esconder a cabeça no buraco mais próximo. Bergman como a vilã lésbica de rosto arranhado é a encarnação de desperdício de uma atriz até razoável.

Para não dizer que nada se aproveita, as participações do pequeno Ernie Reyes Jr. como o Príncipe Tarn e do volumoso Ronald Lacey como Ikol, seu devotado guarda-costas, são bem divertidas. O primeiro demonstra habilidades marciais excelentes que tornam a lerdeza de Sonja e Kalidor com espadas ainda mais saliente e o segundo uma lealdade canina muito simpática, quase irresistível. Além disso, há dois ou três cenários bonitos no filme, notadamente a arena onde Sonja treina e o abrigo onde sua irmã moribunda repousa depois de ser resgatada por Kalidor. Em compensação, todo o restante dos cenários construídos e/ou pintados para o filme são no máximo da categoria “amador esforçado”, com as típicas pedras de isopor e paredes de papel.

Assim como em seu “espada, sandália e bruxaria” anterior, Fleischer demonstra que, a essa altura de sua ilustre carreira que contava com filmes como 20.000 Léguas SubmarinasVikings, os Conquistadores e Barrabás ou já tinha perdido toda sua habilidade na cadeira de diretor ou simplesmente não se importava mais com manchas em sua reputação. Afinal, seu comando do filme é absolutamente patético, com uma decupagem estarrecedora que resulta em uma obra fragmentada que não segue uma lógica básica em termos temporais e espaciais. Chamar de colcha de retalhos seria até um elogio somente para que o leitor entenda o nível do que ele acabou colocando na lata.

E é dessa forma que Guerreiro de Fogo (como se não bastasse o filme ser ruim, ele ainda ganhou esse título brasileiro completamente idiota…) entrou para a história como… Não, não, espera aí. Quem estou querendo enganar? Guerreiros de Fogo não entrou para história nenhuma. A produção é só mesmo uma tosquidão trash resultado da tentativa de Laurentiis de explorar o máximo possível a xepa de seu contrato com Schwarzenegger. Pelo menos o filme foi um fracasso total e não ganhou continuação…

Guerreiros de Fogo (Red Sonja, EUA/Holanda – 1985)
Direção: Richard Fleischer
Roteiro: Clive Exton, George MacDonald Fraser (baseado em personagem originalmente criado por Robert E. Howard e desenvolvido por Roy Thomas e Barry Windsor-Smith)
Elenco: Brigitte Nielsen, Arnold Schwarzenegger, Sandahl Bergman, Paul L. Smith, Ernie Reyes Jr., Ronald Lacey, Pat Roach, Terry Richards, Janet Agren, Donna Osterbuhr, Lara Lamberti
Duração: 89 min.

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