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Crítica | Guerrilheiros das Filipinas

por Gabriel Zupiroli
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Façamos uma experiência. Entremos na página da Wikipédia de Fritz Lang – seja em português, seja em inglês – para ler sua biografia. Claro que a enciclopédia virtual não é nenhuma fonte de alto rigor, mas ainda assim é suficiente para uma busca básica dos momentos mais importantes da carreira de um cineasta. Lá, poderemos encontrar uma divisão em sua história entre a fase alemã, a fase estadunidense e, por último, um retorno à terra natal. Vários parágrafos estarão descrevendo estes momentos e citando os grandes filmes de cada período. Mas, acima dessas semelhanças, haverá uma que será útil para a leitura do texto a seguir: em nenhuma das páginas é sequer citado Guerrilheiros das Filipinas fora da aba “filmografia”. Isso porque, perante uma carreira tão grande, variada e de qualidade como é a de Lang, este filme, feito 5 anos após o término da Segunda Guerra e com toda a cara de propaganda americana, é ruim a ponto de ser totalmente esquecido quando se fala do diretor.

Ao longo da obra, acompanhamos um grupo de soldados americanos se escondendo dos japoneses em Leyte, nas Filipinas. Tentando fugir à Austrália para retornar à luta, cada vez mais precisam sobreviver às condições do ambiente e evitar a captura pelos inimigos – a temática da rendição, inclusive, é algo constante. De certa forma, Lang constrói um filme que foge da guerra tradicional: ao invés de se debruçar sobre o conflito em si, o trabalho acompanha sobretudo a sobrevivência, a solidez daqueles homens ao aguentar todas as intempéries em função do retorno à luta – e não à salvação da própria vida.

Neste sentido, trata-se de um filme que procura um caminho variado do esperado para existir, mas que, de certa forma, não deixa de se encaixar na ideia formulaica de um filme encomendado. Não apenas porque respira patriotismo por todos os lados (no estereótipo dos japoneses, na chegada dos salvadores com as bandeiras estadunidenses), mas porque a estrutura proposta por Lang abusa em seguir a mesma fórmula de conflito e deslocamento ao longo de toda a produção. Certos elementos, como a figura feminina, sempre retornam em algum momento da narrativa, mas unicamente em função de alavancar o novo movimento. Isso funciona durante a primeira meia-hora talvez, mas depois deixa de fazer algum sentido, já que o discurso do filme não está interessado em observar esse deslocamento, e sim usá-lo como que para preencher tempo em tela.

Compreendamos: trata-se de um filme de 1950 que a todo momento realça o sentimento positivo do ser estadunidense na guerra. É preciso entender o contexto de sua produção, sem dúvida – algo que não impede outros filmes de serem obras-primas que nunca escondem sua propaganda -, mas isso não necessariamente anula o fato de que Fritz Lang aparenta não ter nada a dizer por aqui. E mais: não que um filme deva reproduzir uma mensagem, entretanto isso ocorre de maneira positiva quando a forma procura isso, e não quando existe a clara intenção da transmissão propagandística que simplesmente é nula pela maneira como é feita.

Sintetizemos melhor. Fritz Lang é um grande cineasta que possui uma noção enorme do que faz. Ao fazer um filme de propaganda patriótica pós-guerra, poderia claramente construir uma obra cujas formulações narrativas transmitissem esse ideal eficientemente, de maneira que o discurso estivesse em consonância com a mise-en-scène. Mas, por se tratar de um filme cuja feitura se deu, dizia Lang, unicamente em função de fazer algum dinheiro, a obra soa vazia, apática, contrastante em muitos momentos – como na parte final, que abandona tudo que foi feito anteriormente para seguir caminhos totalmente opostos. Assim, Guerrilheiros das Filipinas é um filme fraco, sem alma, que torna compreensível sua própria ausência em qualquer página da Wikipédia sobre o diretor.

Guerrilheiros das Filipinas (American Guerrilla in the Philippines) – 1950, EUA
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Ira Wolfert, Lamar Trotti
Elenco: Tyrone Power, Jack Elam, Micheline Presle, Tom Ewell
Duração: 105 min.

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