Crítica | Gutland (2017)

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Gutland (2017) é aquele tipo de mistério ambicioso que nos engana com uma grande promessa e, por isso mesmo, prepara o próprio caminho para críticas negativas, já que o espectador realmente espera ser recompensado por toda a jornada que teve ao lado do protagonista, no caso, Jens (Frederick Lau).

Na trama, escrita por Govinda Van Maele e Razvan Radulescu, conhecemos este homem de passado misterioso que chega a uma vila, apenas com uma mala. Após perguntar e não conseguir trabalho, ele se prepara para ir embora no dia seguinte, mas a sorte vira. Ele sai com Lucy (Vicky Krieps) e, ao amanhecer, parece que tem um emprego garantido. Já aí, o roteiro nos faz desconfiar de tudo e todos. As risadas, as estranhas gentilezas e a própria direção de Van Maele, com muitos planos sugerindo alguém observando o forasteiro, nos dão a entender que existe algo muito ruim que esta pequena vila campesina guarda. E como sempre em suspenses de caráter mais psicológico, o texto vai desenrolando isso aos poucos.

Considerando o gênero, as regras aqui são cumpridas de modo aceitável, até certo ponto. A trilha sonora é bem controlada e evoca uma alegria suspeita, um tantinho macabra; os figurinos acompanham uma certa robustez e “moda do campo” que torna os personagens diferentes, talvez alguém a quem devemos temer; e a forma como o filme avança, colocando lado a lado a misteriosa e suspeita vida de Jens e os mistérios desse aparentemente pacífico lugar no campo nos fazem andar em uma torturante roda-gigante de emoções. E sim, isso é bom, porque esconde “o inimigo” e nos faz temer a tudo e todos, sempre esperando pelo pior. No entanto, essa espera se estende demais. O roteiro demora em entregar o jogo e, quando o faz, é em uma linha pouco impressionante, especialmente se levamos em consideração a preparação e a promessa de algo ainda maior. Uma cena como a busca por um animal morto no milharal e o constante medo em relação às mulheres casadas são exemplos de coisas que funcionam mais como promessa do que como realização.

Frederick Lau está muito bem no papel, tomando duas diferentes posturas ao longo da fita: uma perdida e mais agressiva e outra com um visível senso de pertencimento social, agora engolfado pelos segredos da vila, que também passam a ser os seus. O perdão de um pecado, aqui, é um acordo mudo de cooperação total, em um lugar que parece funcionar sob as suas próprias regras, mesmo que a aparência e o dia a dia das pessoas sejam classificados como “o mais mundano possível”, levando em conta o espaço onde vivem. Essa passagem de uma postura para outra, no entanto, não é bem feita. Na reta final, quando da revelação do que provavelmente é “o grande segredo”, o espectador fica buscando uma ligação mais firme, uma cena que justifique algumas coisas, um diálogo, algo a mais que demarque a questão do novo momento para Jens, que parece ter nascido de novo, após o susto.

O que o filme tem de melhor, além da sugestão do medo, é a sua direção em espaços abertos e as belas panorâmicas pelo campo, em diferentes estações e horas do dia. Aqui, a fotografia também cria atmosferas marcantes para os atos, com poucas variações dentro de cada bloco (uma boa escolha, por sinal), mas fora isso, o longa não avança muito. Não há aquela profundidade racional que os bons suspenses trazem e que, mesmo com sugestões e cenas deixadas em aberto para que o público dê a sua continuidade preferida para aqueles personagens, terminam solidamente em alta, porque tudo o que poderia nos fornecer de material para organizar o final, nos foi fornecido. Mas não se enganem, não há confusão aqui. Não é um filme difícil. Gutland é sobre sensações em um local onde alguns segredos são guardados como um pacto. É tudo muito fácil de acompanhar e visualmente belo, mas surpreendentemente vazio; o que não torna a obra ruim, mas a deixa bem abaixo do que esperaríamos de uma película com todas essas promessas.

Gutland (Luxemburgo, Bélgica, Alemanha, França, 2017)
Direção: Govinda Van Maele
Roteiro: Govinda Van Maele, Razvan Radulescu
Elenco: Vicky Krieps, Frederick Lau, Pit Bukowski, Martine Kohn, Gerdy Zint, Franco Ariete, Irina Blanaru, Marco Lorenzini, Leo Folschette, Sandy Schott, Christiane Hoffmann, Gérard Blaschette, Yvette Müller, Nathalie Maas, Arsène Streveler
Duração: 107 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.