Crítica | Hail Satan? (2019)

Hail Satan (2019) plano critico filme

“Satanismo” é uma palavra que assusta e ofende a um número muito grande de pessoas só pela sua pronúncia. O que normalmente se pensa do satanismo é uma sopa sociocultural composta por ficcionalização iconográfica e literária vindas da Idade Média + recontagem de rituais pagãos + culpa ou espiritualidade atribuídas ao satanismo pelo cristianismo de tendência pentecostal + mitologia bíblica + iconografias cinematográficas. Isso sem contar os que temperam esse caldo com todas as distorções possíveis ligadas às religiões de matriz africana, crimes que nada têm a ver com qualquer tendência religiosa, manchetes sensacionalistas e teorias da conspiração. É justamente por conta desse questionável pensamento massivo que um documentário como Hail Satan? (2019)  é necessário, ao menos para se iniciar um debate mais factual sobre o leque de visões a respeito deste conjunto religioso e ideológico.

Dirigido por Penny Lane, mais uma vez nomeada ao Prêmio do Júri no Sundance Film Festival por este documentário, Hail Satan? é uma excelente porta de entrada para se discutir aspectos religiosos em nossa sociedade Ocidental, fartamente dominada pelo cristianismo em suas mais diversas denominações. O foco do filme é o Templo Satânico (The Satanic Temple, com sede em Salem, Massachusetts), mas acaba abraçando uma larga variedade de assuntos ligados ao satanismo e ao cristianismo a fim de dar contexto para falas e ações dos entrevistados.

Funcionando como uma espécie de ciclo de apresentações, o documentário nos introduz ao Templo e começa a discutir algumas de suas bases. Aqui, o leitor precisa saber que o satanismo se divide em duas vertentes de culto, a teísta (que acredita em Satã como um ser real e que deve ser adorado) e o Satanismo de LaVey ou suas variantes, que partem do princípio de que Satã é um arquétipo de rebeldia e contrariedade a ordens opressoras e não um Ser espiritual de fato. O Templo Satânico traz essa abordagem para uma premissa ainda mais radical (politicamente falando) e, apesar de não-teísta, reconhece a força de toda a iconografia satânica como forma de protesto social e político, utilizando-a e refigurando-a para os novos tempos. Suas bases são o igualitarismo, a justiça social e a separação entre igreja e Estado, tendo o seguinte mote: “encorajar a benevolência e a empatia entre todas as pessoas“.

A direção fluída de Penny Lane e a sua recusa em tentar nos conduzir emocionalmente com trilha sonora tocando por todo o trajeto já são coisas que merecem destaque. A música aqui tem uso muito bem pensado e as escolhas das canções mais a trilha original são bárbaras. A base de entrevistas é fixa para alguns membros e ex-membros do Templo, mas muda de espaço quando segue indivíduos como Lucien Greaves, porta-voz e co-fundador da religião. Alternando as explicações e contextos dados pelos muitos entrevistados (aqui também não há narração condutiva), entendemos a proposta do Templo Satânico e obtemos repostas para perguntas simples quando descobrimos o que é esse satanismo moderno: “por que então se chamar de satanista se não acredita em Satã de verdade?“.

As respostas para esta pergunta são excelentes, mas mais do que isso, são providas de abordagens históricas, sociais e culturais, com ilustrações-ponte que vão de trechos de A Maldição do Demônio e Os Dez Mandamentos (notem que a Paramount Pictures promoveu a presença de monumentos simulando as Tábuas da Lei em espaços públicos nos EUA, à época do lançamento do filme, em 1956) a programas de TV e cultos cristãos que falam contra o satanismo. Aí também entram noticiários atuais abordando as batalhas legais do Templo Satânico, sendo a mais interessante delas a que envolve a exposição da estátua de Baphomet no mesmo terreno onde está um dos monumentos das Tábuas da Lei. O questionamento da ordem estabelecida passa a fazer sentido para o espectador quando esses embates vêm à tona.

Assumindo fortemente o caráter político, diferente do apenas “carnavalesco, rebelde e fortemente iconográfico” movimento da primeira igreja (LaVey), o Templo Satânico é mostrado no documentário ganhando espaço na mídia, criando ações sociais, enervando cristãos e buscando sua liberdade de culto, tendo um olhar crítico para a forma como a igreja é vista nos Estados Unidos, começando nos anos 1950, quando satanismo era dito aliado ao comunismo e, a partir daí, a ideia de que “ser americano” era a mesma coisa que “ser cristão“, automaticamente opondo-se às práticas demoníacas atrás da Cortina de Ferro. Na reta final do filme há uma excelente escolha de imagens e abordagens da cultura pop em plena febre do “Pânico Satanista” dos anos 1980 e 1990, com RPG (especialmente Dungeons & Dragons) e Heavy Metal (com músicas sendo rodadas ao contrário) consideradas práticas satanistas — posteriormente essa lista seria engordada pelos mais diferentes pastores e igrejas, inclusive aqui no Brasil.

Mostrando disputas legais, debates em relação à liberdade de expressão e religiosa, laicidade do Estado, lemas e práticas cristãs dominantes que suplantam a Constituição e um modo bem diferente de ativismo político Hail Satan? nos entrega uma base de dados para que pensemos sobre a nossa relação com religiões que não são as nossas (se é que temos) ou sobre as quais só ouvimos falar, sem nunca ter se dado o trabalho de buscar informações a respeito, confirmar dados e teorias, verdadeiramente conhecer.

Um documentário sobre religião muito bem guiado em sua narrativa central, dinâmico na forma como costura os argumentos a favor e as opiniões contrárias e que atinge em cheio o objetivo proposto, trazendo uma enorme carga satírica + um perfeito final com piscadelas para o próprio movimento. Afinal, esse moderno satanismo é uma religião ou de um grupo satírico, ativista e de denúncias contra a desinformação, aos escândalos de pedofilia dentro das igrejas e em prol de causas como o movimento LGBT, o feminismo, e quaisquer outras lutas em busca de direitos civis e liberdades individuais; que se abraça a uma mitologia e práticas de um imaginário macabro para chamar atenção? Seria o “Salve Satã” o termo-medonho e chamativo para algo socialmente importante ou, como diria a Ministra Damares, apenas a prova escancarada de que “o cão é muito articulado“?
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  • Os 7 Preceitos do Templo Satânico.   

1 – Esforce-se para agir com compaixão e empatia para com todas as criaturas, em conformidade com a razão.

2 – A luta pela justiça é uma busca constante e necessária que deve prevalecer sobre as leis e instituições.

3 – O corpo é inviolável, sujeito somente à vontade de sua pessoa.

4 – As liberdades de outros devem ser respeitadas, incluindo a liberdade de ofender. Quem usurpar as liberdades de outra pessoa estará renunciando a sua própria liberdade.

5 – As crenças devem estar de acordo com o melhor conhecimento científico do mundo. Deve-se tomar cuidado para nunca distorcer fatos científicos para não adequá-los às nossas crenças.

6 – As pessoas são falíveis. Se cometerem erro, devemos fazer o nosso melhor para corrigi-las e resolver qualquer mal que elas podem ter causado.

7 – Cada princípio é um princípio orientador criado para inspirar nobreza na ação e pensamento. O espírito de compaixão, sabedoria e justiça devem sempre prevalecer sobre a palavra escrita ou falada.

Hail Satan? (EUA, 2019)
Direção: Penny Lane
Roteiro: Penny Lane
Elenco: Jex Blackmore, Chalice Blythe, Nicholas Crowe, Sal De Ciccio, Stu De Haan, Michael Fischer, Courtney Francisco, Lucien Greaves, Aurora Griffin, Mason Hargett
Duração: 95 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.