Crítica | Hair (1979)

“É o primeiro dia dele na América.”

Com uma década de “atraso” em relação à peça musical original, o longa-metragem Hair não poderia soar mais desesperador, justamente por ter sido lançado, temporalmente, quando a contracultura dos anos sessenta já era um resquício do passado. A Guerra do Vietnã, por exemplo, tinha terminado anos antes. Então esse anseio anti-guerra, quando o musical estreou nos cinemas, não mais acompanharia os espectadores da obra, como acompanhou o respeitável público dos teatros. Em citação à música dos Beatles, “Revolution”: “Você diz que quer revolução, todos nós queremos mudar o mundo. Você diz que tem a solução real, adoraríamos ver o plano”Miloš Forman, o mesmo cineasta que anos antes entregava a sua obra-prima contra as correntes, Um Estranho no Ninho, percebeu o passado e, em resposta a ele, questionou onde que tal plano errou.

Hair é um testemunho dos alucinógenos, de uma realidade contrariada com a realidade e suas noções. Uma das personagens irá ter uma criança e não se importa em saber, entre dois, quem é o seu pai. Por que se importar, se acredita que ambos irão a amar? Existe toda uma ingenuidade presente, ao mesmo tempo que a revolução urge em muitas formas, novíssimas ao protagonista Claude Bukowisky (John Savage). Uma revolução medida em como os números musicais são encenados por Forman, rejeitando coreografias organizadas – na maior parte do tempo -, e optando por um caos. “Aquarius” é a verdadeira liberação da mente – mais alguém se lembra que essa canção que encerrou magistralmente a comédia O Virgem de 40 Anos? É o movimento hippie supostamente tendo esse poder. Porque cavalos e policiais, nessa cena, dançam em sincronia até.

No que tange a sexualidade e sua revisão social, Forman é mais sugestivo e menos expositivo ao retratar esse aspecto crucial da contracultura. Contudo, ao mesmo tempo, o cineasta mostra-se extremamente incisivo, impressionando em como consegue buscar a mensagem contida nesse ponto da revolução. Uma mensagem que é capaz de reverberar numa atualidade que condena muitas vezes o sexo: “masturbação pode ser divertido”, comenta um dos cabeludos. Em Hair, os personagens só são vistos nus, por exemplo, em momentos sem viés erótico algum. “Sodomy”, em consequência ao começo do filme – uma consequência de números atrás de outros -,  consegue insinuar o cerne da subversão com muito mais competência. E as coreografias em “Aquarius”, antes, também possuíam parte nesse pensamento: atos sexuais eram simulados pelos dançarinos.

A questão negra, proveniente dos sub-textos, relevantíssima para os processos sócio-culturais daquela década, também é tornada relevante pelas lentes de Forman. Não eram muitos homens negros, o resto da sociedade para os engravatados, indo para a guerra? Pois bem além das ótimas sequências, questionando a guerra e o mundo, a qualidade das canções é quase extraterrestre. Em “Colored Spade”, a união da letra com a execução consegue ressignificar muitas expressões, revoltando-se, por fim, com seus significados anteriores. O orgulho negro é mostrado com muita eficiência, assim como tantos outros aspectos. Num ponto, o cabelo, como o título prenuncia, torna-se centro de debate, em “Hair”. “Eu sou apenas um cara cabeludo”, e não necessariamente algo a mais. Uma quebra de estereótipos. O que significam as coisas, em tantas formas de serem?

Esse musical une vários cantos de rebeldia, seus inúmeros pontos positivos e imensamente estimulantes – e Hair é, acima, embaixo, ao lado, através, de qualquer outra coisa, estimulante. Mas, se tão estimulante, por que não suficiente? Por que as experiências vividas por Claude, protagonista conhecendo as questões sociais que incendiavam a América, não fazem o personagem mudar de ideia e desistir de se alistar? “É o primeiro dia dele na América”, comenta Burger (Treat Williams), o mais relevante dos representantes hippies. Por que os generais e coronéis não se deliciam pelas novíssimas canções, e acabam tendo que metralhar, em uma cena imensamente irônica, altos-falantes por si só rebeldes? O quanto a rebeldia fracassou no geral, mesmo com tantas revoluções pontuais. “Easy to Be Hard” é o contraponto para tal fuga constante.

Uma outra instância, menos das condições imagéticas e simbólicas do projeto, no entanto, abrangendo o seu quesito narrativo, refere-se a um relacionamento um pouco errático proposto por Hair. Sheila (Beverly D’Angelo) como par romântico é menos interessante que Sheila como garota abastada descobrindo o universo além do seu jardim. Hair vai se moldando, no passo a isso, de uma maneira consideravelmente episódica que é melhor orquestrada, porque cria, enquanto direciona seu protagonista a cometer os equívocos que todos aqueles ao se arredor tentaram fazer com que não cometesse, um poderoso argumento cheio de nuances e impacto visual, através de sensacionais números. Sobre o exército, “Black Boys/White Boys” exemplifica um fetichismo por garotos, brancos e negros. Já “Three-Five-Zero-Zero” condena as más condições em que servem.

Embora exista tanta qualidade em seus ponderamentos contestatórios – sobre sexo, drogas, racismo e amor -, o longa é verdadeiramente ácido quando busca criticar o seu próprio umbigo, ao invés de só, recorrentemente, retornar ao quão cruel e injusta era a injustiça social de outrora e de hoje. Curioso pensar que George Lucas poderia ter comandado esse projeto, visto que o cineasta, anos antes, teria feito a mesma coisa, só que com décadas diferentes, enxergando o antes da Guerra do Vietnã para pontuar sobre o seu presente, em Loucuras de Verão. O sarcasmo um pouco depressivo, entretanto, vai além da conclusão dolorosa. John Savage, tão controlado na atuação, vive o mais perdido dos personagens, aparentemente. Esse é um ponto interessante no campo das interpretações. Exemplifica o domínio de Forman, tanto dos atores, quanto da proposta.

Os personagens que Claude conhece são aqueles que, supostamente, possuem o maior controle nas suas mãos, revolucionárias e corretas nas revolução. Isso é tudo uma grande enganação entretanto, como a conclusão e uma sequência no terceiro ato, envolvendo responsabilidades paternais, igualmente apresenta. Berger, a exemplo, sempre encaminha os seus amigos com tranquilidade ao caos. Sempre uma calmaria, até que o personagem comece a pular em cima da mesa, controladamente. Mas não existe controle algum. Não existe realmente um plano – recorrer aos pais é o cúmulo. É tudo muito mais uma fuga, permeada por drogas. O mundo lutou contra as mortes em vão. O cemitério continuou crescendo. Quem fugiu acabou sendo substituído por quem morreu. Pois os caixões permaneceram sendo preenchidos, antes, durante e depois. Permanecem.

Hair – EUA, 1979
Direção: Miloš Forman
Roteiro: Gerome Ragni, James Rado
Elenco: John Savage, Treat Williams, Annie Golden, Beverly D’Angelo, Dorsey Wright, Don Dacus, Richard Bright, Nicholas Ray, Charlotte Rae, Miles Chapin, Michael Jeter, Ren Woods
Duração: 121 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.