Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Halloween H20 – Vinte Anos Depois

Crítica | Halloween H20 – Vinte Anos Depois

por Leonardo Campos
708 views (a partir de agosto de 2020)

O sucesso de Pânico abriu portas para vários filmes do segmento slasher. Alguns eram novos, tais como Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado e Lenda Urbana, outros eram reformulações de franquias já estabelecidas, sendo Halloween H20 – Vinte Anos Depois o caso mais emblemático no que concerne o retorno de monstros do passado. Michael Myers, figura abstrata que representa o “mal absoluto”, o “inimigo sem rosto” criado por John Carpenter e Debra Hill, responsável por tocar o terror em Haddonfield na noite de 31 de outubro de 1978, estava de volta, duas décadas após a noite do primeiro massacre. Interpretado por Cris Durand, o personagem é alto, imponente, assustador e inteligentemente contemplado com eficiência pela direção de fotografia de Daryn Okada, setor que o transforma num “gigante”, observado constantemente por meio de ângulos oblíquos e profundidade de campo milimetricamente calculada para assustar. Oportunamente, o roteiro de Robert Zappia e Matt Greenberg tomam como ponto de partida os dois primeiros filmes e tornam obsoleta a saga de Michael Myers ao longo das demais continuações irregulares situadas entre o final dos anos 1980 e meados dos 1990, era que concebo como a fase de perpetuação do Slasher Tardio.

Sob a direção de Steve Miner, cineasta que assinou dois marcos do subgênero, isto é, a trajetória do mascarado Jason em Sexta-Feira 13 partes 2 e 3, a nova empreitada de Myers é um choque vertiginoso de adrenalina, sem deixar em momento de algum de prezar pela qualidade dramática de sua narrativa, um estudo eficiente sobre relações familiares, traumas e temas transversais. Logo em sua abertura, sabemos que não há escapatória para os personagens mergulhados nas proximidades do Dia das Bruxas. Sagaz, descobrimos que a enfermeira Marion (Nancy Stephens) tomou conta do Dr. Loomis, psiquiatra de Michael Myers, durante vários anos. Ao chegar em casa, ela percebe que alguém mexeu em seus arquivos em busca de informações sobre Laurie Strode, a sobrevivente de 1978 que no segundo filme, sabemos ser irmã do psicopata. Apesar de tentar ajuda com Jimmy (Joseph Gordon-Levitt) e Tony (Branden Williams), jovens da vizinhança, não há outro destino para esses personagens preambulares. Aniquilados pelo maníaco, eles são os primeiros da extensa trilha de mortes que Myers pretende deixar em sua jornada.

Depois da frenética abertura, sabemos que o antagonista roubou informações de Laurie Strode, agora Keri Tate, diretora de uma instituição de ensino que forjou a própria morte para deixar os traumas do passado. Mesmo acordando diariamente de pesadelos que parecem acompanha-la por longos períodos, Strode, interpretada com muita sinceridade e entrega por Jamie Lee Curtis, ainda sofre com as lembranças. Isso a faz ser quase insuportável no tratamento com o seu filho John (Josh Hartnett), estudante em Hillcrest, uma luxuosa unidade que parece uma fortaleza. Seu grande conflito é viver cotidianamente com medo do retorno do irmão, possivelmente morto após o incêndio do hospital em Halloween 2 – O Pesadelo Continua, algo que não é certeza, pois o corpo nunca foi encontrado e há faz vinte anos que continua dado como desaparecido. O pânico toma conta da sua vida quando se dá conta de que o dia 31 de outubro está próximo e que Michael Myers pode voltar, o que de fato acontece. Por sinal, na melhor forma.

Com ótima trilha de John Ottman, partitura que recebeu alguns adicionais de Marco Beltrami, retalhos das texturas de Pânico 2 e Mutação, as cenas de perseguição em Halloween H20 são eletrizantes, devidamente dirigidas e coreografadas, algo que nos permite acompanhar o filme do começo ao fim por meio de uma montanha-russa vertiginosa de emoções. Ainda sobre Ottman, o compositor consegue empregar classe aos principais trechos, sempre referenciando à trilha original, mas dando vários toques inovadores. Aos fãs exclusivos de John Carpenter, a música tema original de 1978 sobe junto aos créditos, em mais uma de tantas homenagens aos filmes da franquia e ao legado de Michael Myers. Os infames jumpscares não atrapalham a condução narrativa, apesar de soarem irritantes ao tentar empregar sustos por meio de ferrões sonoros exaltados, em suma, desnecessários. Ainda no campo estético, a montagem de Patrick Lussier dá ao filme o ritmo adotado na saga de Ghostface, o design de produção de John Willett concebe espaços ora abertos, ora sufocantes, com muitas grades, janelas, portas e outros obstáculos para que os personagens se desloquem diante dos horrores desta noite de morte e sangue.

O roteiro, inspirado no argumento inteligente de Robert Zappia, consegue ser coerente e mais expressivo que qualquer episódio entre o primeiro filme e esse. O conteúdo textual ganhou forças na encenação de Jamie Lee Curtis, atriz que interpreta uma nova final girl, agora consciente de sua força e que necessita encarnar a mixagem da Tenente Ripley com Sarah Connor para partir preparada para o ataque, sendo essas, por sinal, as melhores cenas, haja vista que boa parte do meio-final do filme é a luta entre os dois irmãos. Os figurinos de Deborah Everton foram essenciais para contemplação das necessidades dramáticas da personagem e explanação visual de seus conflitos internos e externos, além de cumprir as representações psicológicas, físicas e sociais de Keri Tate, uma mulher inicialmente temerosa, mas obrigada a se entregar para um embate onde não sabe se sairá viva. Tudo isso, instinto de sobrevivência para não salvar somente a si, mas preservar a vida do filho amado. Alguns conseguem a sorte de sobreviver, outros, como por exemplo, Will (Adam Arkin), professor da instituição e seu namorado, não conseguem escapar da lâmina afiada de Myers.

Ademais, interessante a junção de gerações propostas em Halloween H20, um “estágio” para vários bons atores contemporâneos, dentre eles, Michelle Williams, que interpreta a nora de Jamie Lee Curtis, e Joseph Gordon-Levitt, um dos massacrados na clássica cena de abertura do filme. Quem ocupa um espaço pequeno, mas emocionante é a assistente da diretora, Norma (Janeth Leigh), a famosa personagem do chuveiro de Psicose, mãe de Curtis na vida real. Não há como ficar incólume com a cena em que ela se despede com vida da narrativa e pede licença para entregar um conselho maternal para a sua chefe. Ronny (LL Cool J) também possui um papel expressivo, como segurança da escola, curiosamente um sobrevivente, haja vista o cenário nada animador para personagens negros em filmes do subgênero slasher. Ao longo dos 86 minutos da narrativa, ele se mantém vivo e funciona como alívio cômico de algumas passagens que não deixam de abraçar os clichês para fazer o enredo avançar. São telefones cortados, os sustos falsos, as piadas e as mortes inventivas para chocar e reforçar que Myers não está nem um pouco para brincadeira. Aqui, ele quer matar e canalizar todo seu instinto de violência.

Luxuoso para um slasher, em Halloween H20, há o processo metalinguístico comum aos filmes da época, com referências à Pânico 2, pois numa cena dois personagens assistem ao filme enquanto se arrumam para uma festa, bem como Carrie – A Estranha e o próprio “original” da série. Há também uma homenagem ao ator Donald Pleasence, logo após os créditos, pois o filme foi dedicado ao ator (me pergunto porque não no começo, para ficar mais evidente). O final chocante deixou espaço para a “cena obrigatória” aristotélica. O que teria acontecido com a personagem de Jamie Lee Curtis após o confronto final com o irmão Michael Myers. Infelizmente, os produtores não deixaram a cena povoando a mente dos espectadores. Resolveram produzir mais um filme, quatro anos depois, Halloween: Ressurreição, lançado em 2002 e responsável por enterrar de vez Michael Myers e qualquer expectativa de continuidade envolvente como o filme analisado aqui, um revival de 20 anos digno de sua obra ponto de partida. Desenvolvida com esmero pelo texto, a Laurie Strode deste filme, alcoólatra e amansada por barbitúricos pode não ter sido utilizada como referência para o excepcional Halloween (2018), mas com certeza foi um design de personagem fundamental para o conteúdo da produção de 40 anos, sequência direta do clássico Halloween – A Noite do Terror, de 1978, a quintessência slasher.

Halloween H20 – Vinte Anos Depois (Halloween H20: 20 Years Later, Estados Unidos – 1998)
Direção: Steve Miner
Roteiro: Robert Zapia, Matt Greenberg
Elenco: Jamie Lee Curtis, Adam Arkin, Michelle Williams, Adam Hann-Byrd, Josh Hartnett, LL Cool J, Janeth Leigh, Joseph Gordon-Levitt, Nancy Stephens
Duração: 86 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais