Crítica | Hambúrguer – Uma História Global, de Andrew F. Smith

Os nutricionistas torcem o nariz. Os amantes da comida rápida e suculenta consomem aos montes. Há lendas urbanas que gravitam em torno da sua existência, uma delas envolvendo carne feita por meio da prensa de minhocas. Em Um Dia de Fúria, Michael Douglas perdeu a cabeça ao pedir um combo e ao receber, ter a triste visão que diferenciava o que era apresentado na peça publicitária e o produto em si. Morgan Spurlok comeu durante um mês as ofertas do Mc Donald’s e testou os efeitos do alimento em seu organismo, processo apresentado de maneira humorada no documentário Super Size Me – A Dieta do Palhaço. Uma coisa, no entanto, é mais que certa. O hambúrguer dificilmente sairá do mapa da alimentação contemporânea, produto que tem uma linha evolutiva curiosa e cheia de peculiaridades, apresentada cuidadosamente em Hambúrguer – Uma História Global.

Instigante e repleta de dados curiosos, sem cair nas tentações da análise superficial, a publicação de Andrew F. Smith é interessante e nos faz compreender as relações entre os hábitos alimentares e comportamentais, associados aos fatos históricos que demarcaram a evolução do hambúrguer enquanto “personagem” da gastronomia. Da alimentação exclusiva da nobreza, aos soldados que combateram durante a Primeira Guerra Mundial, o hambúrguer é um alimento que viveu muitas aventuras e passou por longas transformações.

O livro é dividido oito capítulos, alguns mais breves, outros mais extensos, com destaque para O Modesto Início do Hambúrguer, As Redes de Fast-Food, A Máquina Mc Donald´s, Os Clones norte-americanos do Mc Donald’s e Variações para um Hambúrguer. No desfecho, o autor traz o capítulo intitulado Panorama Atual – e o Futuro, como o próprio título já informa, traça o perfil dos concursos envolvendo “artes” em hambúrgueres, bem como as novas formas de servi-lo. Do modelo adotado pela White Castle, em 1916, apoiado nos princípios do fordismo que homogeneizou a maneira de se empreender numa escala mundial, o alimento em questão hoje é servido à preços exorbitantes em luxuosos espaços de gastronomia. É o que conhecemos por hambúrguer gourmet.

Ao passo que analisa a evolução nutricional e estética do hambúrguer, Andrew F. Smith narra a chamada Guerra do Hambúrguer, conflito que envolveu as estratégias publicitárias entre o Burger King e o Mc Donald’s; o impacto do Movimento pelos Direitos Civis e as exigências por contratação de mão de obra afro-americana, vide os preconceitos vigentes na sociedade segregada; a reformulação dos espaços para atender às demandas dos clientes em uma indústria cada vez mais exigente; o processo de globalização do Mc Donald´s e as suas imposições de mercado, celebradas e copiadas ao redor do planeta; dentre outros temas.

Em meio aos créditos de imagens, agradecimentos, websites, e bibliografia, a publicação de Andrew F. Smith é finalizada, material que contempla um alimento que apesar de demonizado pelos mais cuidadosos do setor, precisa ter a sua história contada, haja vista a memória que carrega junto ao seu processo evolutivo. Comer um hambúrguer numa dessas lojas famosas que saíram dos Estados Unidos e alcançaram fama global é um ato cultural ligado ao coletivo, o que torna a história do alimento uma análise do processo evolutivo da própria humanidade.

O hambúrguer é um artefato cultural que o cinema, por sinal, já retratou além da crítica documental de Super Size Me – A Dieta do Palhaço e do irado dia do personagem de Michael Douglas. A Guerra do Hambúrguer, produzido pelo juvenil Nicklodeon, exaurido nas diversas exibições durante as tardes do final da década de 1990, apresentou os protagonistas Dexter (Kenan Thompson) e Ed (Kell Mitchell) unificados para uma batalha contra a ameaçadora rede de fast-food disposta a prejudicar os negócios da lanchonete em que trabalham. Na mesma linha da ácida crítica ao mercado, Nação Fast-Food – Uma Rede de Corrupção investe na análise da trajetória de um gerente de marketing que precisa se infiltrar na rede em que trabalha para descobrir os motivos que levaram a carne de hambúrguer ao repulsivo processo de contaminação por esterco.

Na comédia Madrugada Muito Louca, os protagonistas enfrentam questões raciais e outras ameaças apenas para comer hambúrgueres na White Castle; em Hambúrguer – O Filme, um jovem precisa lidar com a negação financeira do seu pai, decepcionado por conta do comportamento do rapaz que não consegue bom desempenho na faculdade, “conflito” que o leva a cursar uma divertida e politicamente incorreta faculdade, numa trama ao estilo anos 1980, com enredo que gravita em torno dos sanduíches da global Mc Donald’s. Em suma, muitos filmes, muitas discussões e muita história complementar em torno de um dos alimentos mais famosos do planeta.

Hambúrguer – Uma História Global (Estados Unidos, 2012)
Autor: Andrew F. Smith
Editora no Brasil: Senac São Paulo
Tradução: Renata Lúcia Bottini
Páginas: 200

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.