Crítica | Han Solo: Uma História Star Wars, de Mur Lafferty

Espaço: Corellia, Frota Imperial (espaço profundo), Mimban, Vandor, Kessel, órbita e espaço ao redor de Kessel, Savareen, Numidian Prime
Tempo: 13-10 a.B.Y.

Primeiro fracasso de bilheteria da Saga Star Wars, o filme de origem de Han Solo talvez realmente não precisasse existir, mas provavelmente não merecia essa apatia toda. No meu caso, apesar de não ter tido interesse pela premissa, mudei um pouco de opinião sobre o valor do longa como tive a oportunidade de afirmar em minha crítica da bela adaptação em quadrinhos no processo de leitura das duas versões “em papel” da obra de Ron Howard. Se Robbie Thompson e Will Sliney fizeram um trabalho de respeito na Nona Arte, Mur Lafferty faz um melhor ainda na literatura e olha que costumo virar o nariz para as chamadas “novelizações”, só para usar o anglicismo mais conhecido.

Lafferty tem um estilo que é ao mesmo tempo fácil e enriquecedor de ler, com frases e parágrafos precisos, fluidos, que ritmizam a história de Han Solo e a transformam em uma gostosa aventura espacial em seu próprio direito e que poderia ou não ser dentro da galáxia muito, muito distante de George Lucas, pouco importa. Há um equilíbrio importante entre cada cena que a autora descreve por meio de sua narrativa em terceira pessoa onisciente que ela sabe fazer trafegar entre os diferentes personagens sem criar solavancos narrativos nas respectivas trocas de pontos-de-vista, mesmo quando transita, por exemplo, de um humano para a robô L3-37 ou quando aborda personagens que são naturalmente menos explorados como a misteriosa Enfys Nest. Com isso, Han Solo: Uma História Star Wars torna-se uma leitura prazerosa mesmo para quem já teve a oportunidade de conferir o filme mais de uma vez e tem toda a história bem fresca na cabeça.

Além disso, o subtítulo “Versão Estendida” usada pelo marketing do livro nos EUA, apesar de completamente desnecessário, até porque não há outra versão, é bem utilizado por Lafferty. Claro que ela de certa forma teve a vantagem de esse filme ter sofrido retrabalhos em seu roteiro, sobrando material que jamais entrou na versão cinematográfica final, mas não é todo o autor que sabe trabalhar com o que lhe é entregue. No lugar de primar por grandes revelações ou por trazer informações bobas, na linha de fan services desnecessários, a autora trouxe informações relevantes não para meramente aumentar a história sem uma razão de ser, mas sim para desenvolver personagens.

Os três melhores exemplos disso são a época da Academia Imperial de Han, o passado de Qi’ra e a absorção de L3 pela nave de Lando. Han e seu tempo na Academial Imperial de Voo tem um bom tempo no terço inicial do romance e estabelece de maneira mais definitiva a personalidade do protagonista, com uma bela missão espacial que resulta em sua transferência para a infantaria. O amor da vida de Han (antes de Leia, claro!) ganha um belo panorama do que exatamente aconteceu a ela depois que ela e Han se separam no porto espacial de Corellia, o que ajuda a aprofundar sua personagem, informando suas habilidades e também suas decisões, notadamente mais para o final da obra. L3, por seu turno, tem sua melancólica transferência para a Millenium Falcon explicada em mais detalhes e sob seu ponto-de-vista, o que é melhor ainda, o que expande a forma como entendemos exatamente o que aconteceu, muito mais uma fusão do que uma mera transferências de dados de navegação. O lado triste da situação permanece, claro, pois Lafferty não suaviza nada, mas há um certo alento em ver como L3 é trabalhada com cuidado. Se existe puro fan service nesses extras, ele está na cena final que conecta as ações de Enfys Nest diretamente com Rogue One, algo que infelizmente inexiste no filme.

O único escorregão de monta de Lafferty é na forma como ela aborda a cena da famosa Kessel Run, logo depois que nossos heróis conseguem roubar o coaxium não-refinado do planeta Kessel. Tudo bem que o roteiro cinematográfico já é muito entulhado de acontecimentos nesse aspecto, mas a autora, no lugar de podá-los, acaba empregando tempo demais para as minúcias do que acontece, o que acaba esvaziando as cenas de tensão, velocidade e risco quando o exato oposto é o que se espera desse momento. Não é, diria, algo grave no cômputo geral, já que os capítulos que imediatamente antecedem e seguem a “corrida de Kessel” compensam com sua velocidade e eficiência.

A adaptação literária de Han Solo: Uma História Star Wars consegue o grande e surpreendente feito de ser uma das melhores adaptações de longas da franquia Star Wars. Uma leitura gostosa e cheia de aventura que não se esquece de trabalhar seus personagens e de envolver o leitor a cada capítulo.

Han Solo: Uma História Star Wars (Solo: A Star Wars Story, EUA – 2018)
Autor: 
Mur Lafferty (baseado em roteiro de Jonathan Kasdan e Lawrence Kasdan e personagens criados por George Lucas)
Lançamento nos EUA: 04 de setembro de 2018
Editora nos EUA: Del Rey
Páginas: 304 (capa dura)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.